Capítulo 4: A Boneca de Luxo

A luz do sol invadiu o quarto através das cortinas de seda pesada, me acordando de um sono inquieto. Por um segundo, esqueci onde estava. O colchão era macio demais, os lençóis tinham um toque de cetim que eu nunca havia sentido antes. Mas então, meus olhos focaram no teto alto com molduras de gesso e no lustre de cristal pendurado acima de mim, e a realidade desabou sobre meu peito como uma bigorna.

Eu não estava em casa. Eu estava na Mansão Montiel. E eu não era mais Elisa Campos. Eu era uma propriedade adquirida.

Antes que eu pudesse sequer me sentar, a porta do quarto se abriu sem nenhuma batida prévia. A Sra. Odete entrou, seguida por um exército de três mulheres carregando araras de roupas, maletas de maquiagem e caixas de sapatos.

— Bom dia, senhora — disse a governanta, com aquele tom que misturava polidez e desprezo. — O Sr. Gabriel exige que a senhora esteja pronta às sete em ponto. Temos muito trabalho a fazer.

— Trabalho? — perguntei, puxando o lençol até o pescoço, sentindo-me invadida. — O que está acontecendo?

— A transformação — respondeu uma das mulheres, uma loira alta com um tablet na mão. Ela me olhou como se eu fosse uma tela em branco que precisava ser consertada urgentemente. — O Sr. Montiel contratou nossa equipe para garantir que a senhora se adeque aos padrões visuais da família.

Sem esperar minha permissão, elas começaram. Fui arrancada da cama e colocada em uma cadeira diante de um espelho enorme. O que se seguiu nas horas seguintes não foi um dia de spa relaxante; foi uma operação militar.

Minhas unhas, roídas de ansiedade, foram lixadas e pintadas de um nude discreto. Meu cabelo, rebelde e ondulado, foi domado, hidratado e escovado até cair em ondas perfeitas e brilhantes sobre meus ombros. Elas pinçaram minhas sobrancelhas, esfoliaram minha pele e aplicaram camadas de produtos que custavam mais do que meu aluguel antigo.

Eu me sentia uma boneca de plástico. Ninguém me perguntou se eu gostava da cor do batom. Ninguém me perguntou se eu preferia o cabelo preso ou solto. Eu não tinha voz. Eu era apenas um manequim sendo preparado para a vitrine.

— Agora, o vestido — anunciou a estilista, trazendo uma peça protegida por uma capa de veludo.

Quando ela revelou o tecido, perdi o fôlego. Era um vestido longo, de seda azul-marinho profundo, com um decote elegante e uma fenda lateral discreta, mas provocante. Era a coisa mais linda que eu já tinha visto.

— Vista-se — ordenou a Sra. Odete.

Deslizei para dentro da seda fria. O vestido se ajustou ao meu corpo como uma segunda pele, realçando curvas que eu nem sabia que tinha. Calcei os saltos agulha prateados e, finalmente, olhei para o espelho.

A mulher que me encarava de volta era uma estranha. Ela era sofisticada, poderosa, deslumbrante. Ela parecia pertencer àquele mundo de ouro e mentiras. Mas seus olhos… os olhos ainda eram os meus. Assustados e tristes.

— Está aceitável — decretou a Sra. Odete, sem um pingo de elogio real. — O Sr. Gabriel está esperando no hall. Não o faça esperar.

Desci a escadaria principal com o coração batendo na garganta, segurando o corrimão com força para não tropeçar nos saltos altíssimos.

Gabriel estava lá embaixo, de costas para mim, ajustando as abotoaduras do seu smoking preto. Ele parecia ainda mais alto e intimidante naquela roupa formal. Ao ouvir o som dos meus passos, ele se virou.

E parou.

Por um breve segundo — uma fração de tempo tão curta que eu poderia ter imaginado — a máscara fria dele rachou. Seus olhos cinzentos se arregalaram ligeiramente, percorrendo meu corpo de cima a baixo, demorando-se na curva da minha cintura e no decote do vestido. Vi uma faísca de algo que não era desprezo. Era… fome? Surpresa?

O ar entre nós ficou pesado, carregado de uma eletricidade estática que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem. Eu parei no último degrau, sentindo minhas bochechas queimarem sob o olhar intenso dele.

Mas tão rápido quanto surgiu, a emoção desapareceu. Gabriel piscou, e o muro de gelo subiu novamente.

— Melhor — ele disse, sua voz rouca, mas controlada. — Pelo menos agora você não parece uma pedinte. Vamos. Meu avô detesta atrasos.

Ele ofereceu o braço para mim. Não foi um gesto gentil; foi uma ordem. Coloquei minha mão sobre o antebraço dele, sentindo os músculos rígidos sob o tecido caro do terno. O calor da pele dele queimou a ponta dos meus dedos.

— Lembre-se do contrato, Elisa — ele sussurrou perto do meu ouvido enquanto caminhávamos para a porta, o hálito quente causando arrepios na minha espinha. — Esta noite, você é a mulher mais feliz do mundo. Se você falhar, se alguém desconfiar… o acordo acaba.

— Eu sei atuar, Gabriel — respondi, erguendo o queixo, tentando recuperar um pouco da minha dignidade. — O show vai começar.

Ele me olhou de soslaio, e um canto da sua boca se ergueu em um meio sorriso cínico. — Então quebre a perna, querida esposa.

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