Mundo de ficçãoIniciar sessãoSasha
São seis horas da tarde e o sol, imenso e majestoso, ainda ilumina o céu da Grécia com uma luz dourada e densa, começando a se esconder lentamente atrás das montanhas no horizonte. Estamos no carro, a caminho da casa que, pelo menos no papel, será o nosso lar. Permaneço mergulhada em um silêncio absoluto, sentada no banco de couro desse carro luxuoso, cuja marca desconheço completamente, mas que exala um cheiro de riqueza e sofisticação.
Lanço um olhar furtivo, quase proibido, em sua direção e percebo, com uma pontada de irritação, que tudo nele emana uma sensualidade bruta e natural. A forma como suas mãos grandes e firmes seguram o volante, o jeito preciso e quase rítmico com que ele troca de marcha... há uma confiança animal em cada movimento seu. É perturbador como a beleza dele parece ignorar a tragédia que nos cerca.
O som do motor é um zumbido constante e potente, uma música mecânica que preenche o vazio entre nós, enquanto a paisagem deslumbrante da Grécia desfila pela janela como um filme em alta definição. As colinas onduladas, cobertas por um mar de oliveiras centenárias cujas folhas brilham como prata sob o sol poente, as vilas pitorescas com suas casas brancas imaculadas e telhados de terracota, e o azul profundo do mar Egeu brilhando à distância... tudo isso compõe um cenário que deveria ser tranquilizador, quase poético. No entanto, minha mente está agitada demais, um turbilhão de memórias de Elena e medos sobre o futuro, para que eu consiga apreciar qualquer beleza ao meu redor. Para mim, cada oliveira parece um lembrete do tempo que perdi.
Átila
Estamos nos aproximando da nossa nova casa, e sinto que cada quilômetro percorrido na estrada sinuosa só aumenta a tensão sufocante que se instalou entre nós. O silêncio dentro do carro é tão denso que parece que posso tocá-lo. Tento, desesperadamente, encontrar as palavras certas para dizer, algo que não soe vazio ou invasivo, algo que possa oferecer um mínimo de conforto a Sasha, mas é como se todas as frases se dissolvessem em poeira antes mesmo de chegarem aos meus lábios.
— Sei que isso tudo é assustadoramente novo para você — finalmente digo, quebrando o silêncio incômodo com uma voz que soa mais grave do que o normal. — Mas quero que saiba que farei absolutamente tudo o que estiver ao meu alcance para que você se sinta confortável e segura.
Ela não responde. Nem um movimento, nem um suspiro. Apenas gira a cabeça para a janela, fixando o olhar em algum ponto distante. Sei que ela não está realmente vendo a paisagem deslumbrante que passa por nós. Ela está perdida em seu próprio labirinto de pensamentos, lutando com sentimentos que eu só posso tentar imaginar. O luto pela irmã, a responsabilidade imensa por uma criança que não pediu para nascer, e essa situação forçada e contratual em que nos encontramos... tudo isso deve pesar sobre ela como uma montanha de chumbo.
— É uma mulher de poucas palavras, pelo que vejo — comento, tentando um tom mais leve para ver se consigo uma reação, qualquer uma.
Ela solta um suspiro longo, carregado de um cansaço que vai além do físico, e finalmente murmura um "obrigada". É quase inaudível, um sussurro que ela parece usar apenas para calar a minha boca e restaurar o silêncio que ela tanto preza.
Não é muito, na verdade é quase nada, mas para mim, soa como um começo, uma pequena rachadura na muralha. Continuo dirigindo, mantendo meus próprios pensamentos e inseguranças trancados a sete chaves. Eu sei, com uma clareza dolorosa, que será um caminho longo e cheio de espinhos até que possamos encontrar algum tipo de paz real juntos, mas estou disposto a tentar, com uma paciência que eu nem sabia que possuía.
Finalmente, avistamos a casa à distância. Ela surge entre as árvores, uma estrutura acolhedora e sólida em meio ao verde vibrante da vegetação. Respiro fundo, sentindo o coração bater um pouco mais forte. Espero, com uma esperança que beira o desespero, que este lugar possa ser o início de algo novo e verdadeiro para nós. Um lugar onde, eventualmente, as feridas comecem a cicatrizar e onde poderemos encontrar algum tipo de felicidade, mesmo que ela seja pequena, silenciosa e difícil de alcançar. Estaciono o carro, e o silêncio que se segue é o prelúdio de uma nova vida. Ou de uma nova batalha.







