Paredes e Silêncios

Sasha

A casa surge no horizonte como uma miragem que se recusa a ser acolhedora. É uma visão que, em qualquer outra circunstância, traria conforto, mas agora só serve para alimentar a incerteza que me corrói. A construção é sólida, imponente e bonita à sua maneira, mas não consigo evitar o pensamento sufocante de como será a minha existência entre essas paredes ao lado de Átila, o homem cujo sobrenome agora carrego e que associo, inevitavelmente, à dor e à perda. Quando finalmente o carro para e o motor silencia, respiro fundo, tentando desesperadamente acalmar meu coração acelerado. Átila desce, pega as malas com uma eficiência silenciosa e me acompanha até a porta principal. Leo, nosso elo vital e a única razão de eu estar pisando aqui, é quem me dá forças. É por ele, e apenas por ele, que aceito entrar nessa prisão dourada.

Entramos na casa, e cada passo que dou sobre o piso impecável ecoa como uma batida de tambor fúnebre, marcando o início definitivo de uma fase que eu nunca planejei viver. Tento não pensar demais, mas é impossível ignorar a enormidade da situação. Estou presa em um casamento sem amor, ligada a um homem que representa todo o sofrimento da minha irmã. Preciso encontrar uma maneira de transformar esta estrutura de tijolos em um lar para Leo, apesar de todas as adversidades e do asco que sinto pela linhagem dos Lykaios.

Átila abre a porta de entrada, revelando um hall espaçoso e inundado pela luz que entra por uma grande janela lateral. Ele para e me observa por um momento, seus olhos cinzentos tentando, talvez, interpretar o turbilhão de emoções que sei que transparece em meu rosto. O cheiro de madeira nova e tinta fresca preenche o ar, uma tentativa olfativa de dar boas-vindas que só serve para me lembrar da frieza artificial da nossa situação. Tudo aqui é novo, intocado, assim como o nosso acordo.

— Vou te mostrar a casa — ele diz, mantendo a voz em um tom neutro, quase profissional. Sua tentativa de gentileza soa forçada aos meus ouvidos, mas decido seguir em frente sem contestar. Não tenho energia para discussões agora.

A primeira parada é a sala de estar. As janelas amplas deixam a luz do sol entrar generosamente, iluminando cada detalhe. O sofá de couro marrom e a lareira de pedra bruta parecem ter sido escolhidos para serem convidativos, mas eu simplesmente não consigo imaginar momentos de conforto real neste espaço. O próximo cômodo é a cozinha, um ambiente funcional com bancadas de mármore e eletrodomésticos modernos e brilhantes. Parece mais uma página fria de uma revista de decoração do que um espaço onde uma família realmente convive e compartilha refeições.

Passamos por um corredor longo, adornado com quadros de paisagens gregas que parecem tentar suavizar a rigidez da arquitetura, até chegarmos ao quarto de Leo. Este é, sem dúvida, o único lugar que traz um sopro de calor ao meu coração gelado. A porta branca, com o nome dele pintado em letras azuis delicadas, me faz sentir uma pontada de esperança genuína.

Átila abre a porta com um sorriso que é quase imperceptível, mas que suaviza seus traços severos.

— Aqui é o quarto do Leo — ele diz, e percebo que sua voz fica ligeiramente mais suave, perdendo a aresta de comando.

As paredes estão decoradas com desenhos alegres de animais — ursos, leões e outros bichinhos simpáticos —, criando um ambiente que é, finalmente, acolhedor. Há uma cama pequena coberta com um edredom azul macio e uma prateleira repleta de brinquedos e livros infantis que parecem ter sido escolhidos a dedo. Um tapete fofinho cobre parte do chão e uma luminária em forma de estrela no teto promete noites tranquilas.

— Esse quarto foi recém-montado. Fiz questão de que tudo estivesse pronto para ele — ele acrescenta.

— Acho que ele vai gostar daqui — comento, sentindo um nó na garganta. Átila acena positivamente com a cabeça, e por um breve segundo, compartilhamos um objetivo comum.

Saímos do quarto de Leo e continuamos a visita técnica pela nossa nova realidade. Ele me mostra o quarto principal, dominado por uma cama king-size que parece um deserto de lençóis brancos, e uma varanda que se abre para um jardim meticulosamente bem cuidado. O closet é imenso, repleto de cabides vazios que parecem bocas abertas esperando para serem preenchidas com a minha nova vida. O banheiro anexo é um luxo obsceno, com uma banheira de imersão e um chuveiro separado, tudo em mármore claro. É um luxo que me parece completamente deslocado e desnecessário diante do vazio que sinto.

— Espero que você possa se sentir confortável aqui, Sasha — diz Átila, fixando em mim um olhar significativo, carregado de emoções que ele se recusa a verbalizar. A formalidade de suas palavras é suavizada pela intensidade do seu olhar, uma tentativa clara de oferecer algo mais do que apenas um cumprimento educado de anfitrião.

Não respondo nada. A intensidade do momento é esmagadora e sinto que qualquer palavra que saia da minha boca será insuficiente ou amarga demais. O silêncio entre nós torna-se denso, pesado com tudo o que não dizemos, e eu apenas aceno levemente com a cabeça, reconhecendo o esforço físico que ele fez, sem saber como lidar com o esforço emocional que ele parece estar tentando iniciar.

Átila parece compreender meu silêncio e, sem me pressionar, afasta-se um pouco, dando-me o espaço que eu tanto necessito para respirar. Continuo observando a casa, tentando, em vão, imaginar como será a rotina aqui, como transformar essas paredes e móveis caros em algo que se assemelhe a um verdadeiro lar. A presença constante de Leo em meus pensamentos é a única coisa que me dá a força necessária para não sair correndo.

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