Mundo de ficçãoIniciar sessãoMinhas palavras parecem ter finalmente atingido o ponto nevrálgico do grego. Vejo a expressão dele mudar drasticamente sob a luz do jardim. Seus olhos endurecem como pedras e vejo os músculos de sua mandíbula se contraírem com força. É como se eu tivesse conseguido, pela primeira vez, penetrar a fachada controlada e arrogante que ele sempre mantém. Por um breve momento, há algo ali, uma sombra de dor real ou talvez uma frustração profunda, que desaparece tão rapidamente quanto surgiu, sendo substituída por uma máscara de gelo.
— Entendi perfeitamente, Sasha — sua voz agora é tensa, cada sílaba saindo com um esforço visível de controle. — Seu quarto será o maior, aquele que fica ao fundo do corredor, à esquerda. Escolhi esse por ser o mais silencioso e por ficar bem perto do quarto do Leo. Se precisar de absolutamente qualquer coisa durante a noite, estarei no escritório. E, Sasha... — ele faz uma pausa dramática, seus olhos fixos nos meus com uma intensidade que me faz querer desviar o olhar — espero sinceramente que possamos encontrar uma maneira de conviver pacificamente nesta casa. Se não por nós mesmos, que seja pelo bem-estar do Leo. Ele não merece crescer em um ambiente de guerra. Sinto uma mistura confusa de emoções ao ouvir suas palavras. Uma parte de mim, a parte ferida e defensiva, quer resistir, quer manter a guarda levantada contra qualquer tentativa de aproximação dele. Mas outra parte, uma parte bem pequena, suave e terrivelmente vulnerável, quer acreditar que talvez, só talvez, haja uma chance de não nos destruirmos. Eu não respondo. Não tenho mais palavras. Simplesmente me afasto dele e entro na casa. Na sala, pego minhas duas malas de rodinhas que ele deixou perto da entrada e adentro o corredor escuro, ainda sentindo o peso esmagador das palavras de Átila sobre mim. Cada passo que dou ressoa no silêncio da casa nova, ecoando minhas próprias dúvidas, meus temores e a solidão que agora me abraça. Chego ao quarto indicado. A porta se abre para revelar um espaço amplo, arejado e surpreendentemente reconfortante. Respiro fundo ao entrar, sentindo o aroma suave e natural das flores frescas que ele, de alguma forma, providenciou para enfeitar o ambiente. Uma cama grande e convidativa domina o centro do quarto, coberta por lençóis brancos de algodão egípcio, imaculados e frescos. As janelas amplas permitem que a luz moribunda do entardecer banhe o espaço com uma tonalidade dourada e melancólica, criando uma atmosfera serena que eu não esperava encontrar. Deixo as malas de lado e me dirijo imediatamente ao banheiro adjacente, ansiosa por me libertar do desconforto físico e simbólico do vestido de noiva. A água quente do chuveiro me acolhe como um abraço, lavando as tensões acumuladas do dia e tentando, em vão, acalmar minha mente turbulenta. Enquanto a água cai sobre mim, deixo-me finalmente refletir sobre a magnitude de tudo o que aconteceu nas últimas horas. Meu casamento forçado com Átila, a mudança definitiva para esta casa na Grécia, a responsabilidade esmagadora de ser a mãe e o pai do Leo... Tudo parece tão surreal, tão fora de lugar, como se eu estivesse presa em um sonho lúcido e angustiante do qual não consigo acordar. Mas, à medida que o calor reconfortante da água envolve meu corpo cansado, sinto também uma pequena centelha de determinação começar a arder dentro de mim. Se este é o caminho tortuoso que o destino traçou para mim, se este é o sacrifício necessário para honrar a memória de Elena, então eu o farei com toda a coragem e resiliência que possuo. Por Leo, por mim mesma e por tudo o que ainda está por vir nesta casa de segredos e silêncios. Não serei quebrada.






