O decreto do soberano

 

O medo tem uma consistência peculiar. Ele não é apenas um sentimento; é um peso físico que se aloja na base do estômago e dita o ritmo de cada respiração. Três dias haviam se passado desde a noite no beco. Três dias desde que o rastro de sândalo e sangue de Norman havia se tornado o único pensamento capaz de afastar, ainda que por breves momentos, os fantasmas do massacre da minha família. Eu tocava meus próprios lábios quando estava sozinha no sótão, sentindo o fantasma daquele beijo impulsivo e desesperado, odiando-me por ter sido tão fraca a ponto de me expor daquela maneira para um estranho.

Eu havia contado a ele sobre a traição. Sobre o marido que me descartara. Eu havia quebrado a regra de ouro da sobrevivência: permaneça invisível.

Naquela tarde de terça-feira, no entanto, a realidade bateu à nossa porta de uma forma que nenhum disfarce poderia prever. Eu estava na pequena área dos fundos da taverna, ajudando Eller a estender alguns lençóis remendados no varal de arame. O vapor das lavanderias vizinhas subia como uma névoa quente, misturando-se ao cinza perene do céu de Silverthorne.

O som que quebrou nossa rotina não foi o rangido comum do portão de madeira. Foi o impacto seco de botas blindadas contra o calçamento de ferro do beco.

Cloc. Cloc. Cloc.

Quatro guardas da elite real marcharam para dentro do pequeno pátio. Suas armaduras de aço escuro ranhuradas com runas rutilantes refletiam a luz opaca do dia. No peito de cada um deles, o emblema que fazia meu sangue congelar instantaneamente: a caveira dourada adornada com joias. O símbolo do Rei de Ferro.

Eller largou o cesto de vime, dando um passo instintivo para a minha frente. A postura dela, herdada de uma linhagem de lobos guerreiros, armou-se para o combate. Mas contra quatro soldados de elite, éramos apenas duas humanas indefesas em trapos de servas.

— Lyara Jones? — o oficial à frente do esquadrão deu um passo à frente. Sua voz, abafada pelo elmo de metal, ecoou com uma autoridade que não admitia réplicas.

Prendi a respiração, sentindo o mundo girar. O nome Jones. Ele havia dito o meu nome. O pânico gélido espalhou-se pelas minhas veias como veneno. Gael me encontrou, foi o primeiro pensamento que martelou minha mente. O meu tio enviou um alerta para os reinos vizinhos. Eles sabem quem eu sou. Vão me arrastar de volta para Crimson Moon em correntes.

— Sou eu — respondi, minha voz saindo mais firme do que o tremor em meus joelhos justificava. Dei um passo ao lado de Eller, segurando a mão dela, que estava fria como o gelo.

O oficial desenrolou um pergaminho grosso, selado com a insígnia de cera negra do palácio.

— Por decreto de Sua Majestade Suprema, o Rei de Silverthorne, você foi selecionada para o serviço interno da Cidadela de Ferro. Você deve arrumar seus pertences e nos acompanhar imediatamente. Sua permanência no palácio será de uma semana experimental a partir de hoje.

O choque substituiu o pânico por um breve segundo, deixando uma confusão mental em seu lugar.

— Selecionada? — Eller interveio, a voz carregada de desconfiança e fúria contida. — Sob qual critério? Ela é apenas uma serva de taverna. Existem centenas de mulheres nesta cidade mais qualificadas para limpar o chão do castelo de vocês!

O oficial nem sequer olhou para ela. Seus olhos, através da fenda do elmo, permaneciam fixos em mim.

— O Soberano escolhe quem bem entende para o serviço da corte, estrangeira. O trabalho da convocada será direto nos salões privados durante os eventos da coroa. Você tem dez minutos para recolher o que possui. Se resistir, será levada à força por crime de insubordinação civil.

— Eu vou com ela — Eller deu um passo à frente, mas um dos guardas cruzou uma lança pesada diante do peito dela, barrando-lhe o caminho.

— Apenas a convocada.

Olhei para Eller, vendo o desespero e o luto recente brilharem em suas pupilas. Se eu lutasse, os guardas a matariam ali mesmo. Se eu fosse, talvez pudesse descobrir o que estava acontecendo. Magnus, o dono da taverna, apareceu na porta dos fundos, o rosto pálido e a cicatriz rígida. Ele apenas balançou a cabeça para mim, um aviso silencioso de que contrariar a guarda real em Silverthorne era uma sentença de morte rápida.

— Está tudo bem, Eller — menti, desfazendo o aperto dos nossos dedos com o coração na boca. — Eu vou. Cuide das coisas aqui. Eu volto em uma semana.

Subi as escadas do sótão sob a vigilância de um dos soldados. Minhas mãos tremiam tanto que mal consegui amarrar a trouxa com minha única troca de roupa limpa e a capa de viagem. Minha mente trabalhava em alta velocidade, tentando encontrar uma lógica. Se o Rei de Ferro soubesse que eu era a princesa fugitiva de Crimson Moon, ele não teria me mandado uma convocação de trabalho; ele teria enviado carrascos. Seria apenas uma terrível coincidência? Uma triagem aleatória de servos estrangeiros para preencher vagas no palácio?

Ou seria algo pior?

Fui escoltada para fora d’O Refúgio do Lobo sob os olhares curiosos e assustados dos moradores do distrito baixo. Uma carruagem preta, sem janelas e blindada com placas de metal, esperava na rua estreita. Fui colocada lá dentro em silêncio. O som da tranca de ferro correndo pelo lado de fora selou meu destino.

O trajeto até a Cidadela de Ferro foi um tormento de solavancos e escuridão. Encolhida no banco de couro gasto, apertei minha trouxa contra o peito. Eu estava indo direto para o covil do lobo mais temido do continente. O homem que desafiara o Oráculo, o monstro mascarado que governava com punho de ferro. E se ele descobrisse o segredo que residia dentro do meu peito? As almas de meus pais e irmãos estavam adormecidas, mas e se o poder daquele lugar as forçasse a despertar?

Quando a carruagem finalmente parou, as portas foram abertas por servos de libré escura. Eu estava no pátio interno da Cidadela. O lugar era monumental, construído inteiramente de mármore negro e colunas de aço que pareciam navalhas cortando o céu cinzento. Não havia flores, não havia cores; a opulência de Silverthorne era fria, geométrica e implacável.

Fui conduzida por uma governanta de expressão severa chamada Sra. Martha. Ela me guiou por um labirinto de corredores silenciosos até os alojamentos dos servos do palácio superior. O quarto que me foi designado era imensamente melhor do que o sótão da taverna — tinha uma cama de verdade e uma janela alta —, mas parecia uma cela de luxo.

— Suas obrigações começam hoje à noite — Sra. Martha explicou, jogando um uniforme de algodão cinza escuro sobre a cama. O tecido era impecável, sem manchas, mas pesado. — Você fará parte do corpo de servos ocultos. Quando os nobres e os oficiais estiverem nos salões privados para as reuniões da corte, você servirá as bebidas. Você não fala. Você não olha nos olhos de ninguém. E, acima de tudo, você não se aproxima do trono a menos que seja solicitada. Entendeu?

— Sim, senhora — respondi, engolindo em seco.

— Vista-se. Uma das governantas juniores virá buscá-la em duas horas. E reze para não cometer nenhum erro, garota. O Rei de Ferro não tolera falhas na sua corte.

Quando ela saiu, trancando a porta por fora, desabei na cama. O peso do uniforme cinza parecia o de uma armadura que eu não sabia como carregar. Eu estava no coração do império inimigo. Longe de Eller, longe de qualquer segurança.

Duas horas depois, eu estava posicionada no grande salão anexo à sala do trono. O ambiente estava imerso em uma penumbra luxuosa, iluminado por candelabros de prata cujas velas vertiam cera negra. Nobres de alto escalão, generais de Silverthorne vestindo uniformes militares condecorados e mulheres da alta sociedade lupina conversavam em tons baixos e aristocráticos. O poder ali era palpável, uma pressão no ar que fazia minha loba adormecida vibrar timidamente no fundo do meu ser.

Segurei a bandeja de prata com taças de cristal cheias de vinho escuro, mantendo a cabeça baixa, exatamente como fui instruída. Meus olhos focavam apenas nos sapatos polidos e nas barras dos vestidos caros que passavam por mim.

De repente, as grandes portas de bronze no final do salão se abriram. O burburinho cessou no mesmo instante.

O Soberano de Ouro e Ferro entrou.

O som de suas botas de metal contra o mármore negro era um eco idêntico ao que eu ouvira na avenida da cidade. Ele vestia sua armadura completa, o aço escuro rúnico que parecia absorver a pouca luz do salão. E, cobrindo-lhe a face, estava a máscara de caveira dourada, com os rubis faiscando de forma assustadora sob as chamas das velas.

O medo voltou a me golpear o peito com a força de um aríete. Encolhi-me contra a parede, mantendo a bandeja firme contra o corpo, tentando me transformar em apenas mais uma sombra decorativa naquele salão monumental.

O Rei caminhou pelo centro do salão, os nobres curvando-se profundamente à sua passagem. Ele exalava uma aura avassaladora de dominância, o peso de um Alfa Supremo que fazia os instintos de todos os presentes se ajoelharem. Mas, quando ele passou a poucos metros de onde eu estava, algo estranho aconteceu.

Ele diminuiu o passo. Por uma fração de segundo, a máscara de ouro virou-se levemente na minha direção.

Através das fendas estreitas e sombrias da caveira de metal, eu vi seus olhos. Dois pontos de um azul tão profundo e escuro que pareciam abismos negros. Uma sensação térmica violenta correu pela minha espinha. Era uma familiaridade bizarra, um choque de reconhecimento que não fazia sentido nenhum na minha mente. Aqueles olhos... aquela forma de se mover, a largura daqueles ombros por trás do metal...

Balancei a cabeça discretamente, afastando o pensamento insano. Eu estava ficando louca pelo isolamento e pelo terror. Aquele era o Rei de Silverthorne, um monstro impiedoso e lendário. O homem com quem eu conversara no beco era Norman, um viajante, um homem de palavras calmas e toque humano. Não havia como estarem no mesmo universo. O Rei era um monumento de guerra; Norman era um refúgio na escuridão.

O Soberano continuou sua marcha até o estrado do trono, sentando-se com uma imponência que silenciou até o vento que uivava do lado de fora das janelas do palácio.

Passei o resto da noite servindo as taças sob a tensão constante daquele olhar oculto por trás do ouro. Eu sentia que, mesmo quando ele conversava com seus generais, os rubis da máscara pareciam rastrear meus movimentos pelo salão.

Quando a noite finalmente terminou e os servos foram dispensados para seus alojamentos, voltei para o meu quarto de luxo exausta, com o corpo doendo e a mente exaurida. Deitei-me na cama, olhando para o teto de pedra, sentindo o peso do isolamento.

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