Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena passou a noite quase inteira acordada.
Não por causa da festa. Nem pelo escândalo com Gustavo. Mas por uma presença incômoda que havia se instalado em sua rotina sem pedir permissão: Rodrigo. Ridículo, pensou. Um segurança mandão, convencido, que se achava algum tipo de herói. Irritante. Invasivo. Totalmente fora do lugar. E, ainda assim, não conseguia afastar a imagem daqueles olhos atentos — sempre um passo à frente de tudo. Na manhã seguinte, desceu para o café com óculos escuros e paciência reduzida. Augusto estava à mesa, absorto no tablet. Rodrigo também. Em pé. Discreto. Atento. Como parte da mobília. — Bom dia — disse Augusto, sem levantar os olhos. — Soube do ocorrido ontem. Helena puxou a cadeira com força calculada. — Soube ou foi informado pelo seu novo cão de guarda? Augusto ergueu o olhar, avaliando-a por tempo demais. — Rodrigo fez o que foi contratado para fazer. — Ninguém pediu para ele me seguir — rebateu ela. — Muito menos para se envolver. Rodrigo manteve o olhar à frente. Mandíbula tensa. Nenhuma reação. — Você correu um risco desnecessário — disse ele, por fim. Helena virou-se devagar. — Eu mandei você ficar do lado de fora. — Eu avaliei que— — Você não avalia nada sobre mim — cortou. — Eu não sou sua missão. O silêncio caiu pesado. Augusto pousou o tablet com calma excessiva. — Chega. Rodrigo responde a mim. A partir de agora, ficará responsável pela sua segurança. Goste você ou não. Helena se levantou. Parou diante de Rodrigo, invadindo um espaço que ele claramente não estava acostumado a ceder. — Eu não preciso de babá — disse, firme. — Não invada minha vida. Não ultrapasse limites. Estamos claros? Rodrigo sustentou o olhar dela. Sem desafio. Sem recuo. — Absolutamente. A resposta veio rápida demais. Ensaiada demais. Helena virou-se e saiu antes que dissesse algo irreversível. Rodrigo só relaxou os ombros quando ouviu a porta bater. ⸻ Horas depois, Helena saiu da mansão decidida a retomar o controle de algo — qualquer coisa. Rodrigo a acompanhava a uma distância exata. Nem perto demais para provocar. Nem longe o suficiente para relaxar. — Você não fala muito, fala? — disse ela, sem olhá-lo. — Você pediu silêncio. — Você não parece ser do tipo que gosta de seguir regras. — Gosto de entender por que elas existem. Helena virou o rosto, encarando-o de lado. — E quando não fazem sentido? — Eu observo quem as criou. Ela soltou uma risada curta, inesperada, e parou em frente a uma cafeteria. — Eu vou entrar. — Certo. — Sozinha. Rodrigo hesitou por uma fração mínima de segundo. Ela percebeu. — Eu fico aqui fora — disse ele. Helena entrou satisfeita demais com a própria vitória. Rodrigo permaneceu do lado de fora, atento aos reflexos no vidro, aos movimentos ao redor do balcão, aos corpos que se aproximavam demais. Controle. Quando ela saiu, segurando um copo de café, parecia provocadoramente tranquila. — Viu? Sobrevivi. Rodrigo assentiu. — Nunca duvidei. Ela franziu o cenho. — Então por que age como se eu fosse quebrar a qualquer momento? — perguntou Helena, sem desviar o olhar. Rodrigo demorou um segundo antes de responder. — Porque você entra em lugares sem pensar nas consequências. — E você acha que eu não sei me virar? — Acho que você confia demais nisso. Helena o encarou por alguns instantes, avaliando cada linha do rosto dele. — Inclusive quando confio em você? Rodrigo respirou fundo. — Principalmente. O silêncio que se seguiu não foi confortável. Nenhum dos dois sorriu. Nenhum recuou. ⸻ No fim da tarde, Helena decidiu ir até o antigo estúdio de dança. Rodrigo reconheceu o endereço antes mesmo de estacionar. — Não estava no cronograma. — Eu não sigo cronogramas. Ela saiu do carro sem esperar resposta. Rodrigo avaliou o entorno. Área antiga. Pouco movimento. Muitas entradas. Entrou. Helena alongava-se com movimentos lentos, concentrados. Ali, parecia respirar sem vigilância. Rodrigo manteve-se próximo à parede. Ela começou a dançar. Não para alguém. Para si. Movimentos intensos, quase agressivos. Como se descarregasse algo antigo demais para nomear. Rodrigo desviou o olhar. Não por respeito. Por foco. Ainda assim, percebeu quando ela perdeu o equilíbrio. Avançou por reflexo. Segurou-a pelo braço. — Cuidado. Helena se afastou imediatamente. — Eu disse pra não me tocar. — Você escorregou. — E eu me levantaria sozinha. Rodrigo assentiu e recuou. — Anotado. Ela respirou fundo. — Você age como se estivesse sempre esperando algo dar errado. — Porque costuma dar. — Comigo não. Rodrigo sustentou o olhar. — Ainda. O arrepio veio antes da razão. Naquela noite, Helena teve certeza de uma coisa: Rodrigo Almeida não era apenas um segurança incômodo. Era uma presença. E presenças assim nunca entram na vida de alguém sem alterar o equilíbrio.






