Mundo de ficçãoIniciar sessãoO dia amanheceu com um peso que Rodrigo conhecia bem.
Não havia ameaça clara, nenhuma informação concreta que justificasse o alerta constante que se instalara em seu corpo desde cedo. Ainda assim, revisou rotas, horários e pontos de entrada com atenção meticulosa. Não por paranoia — por experiência. Intuição não era prova. Mas ignorá-la já lhe custara caro demais. Helena desceu para o café atrasada, falando ao telefone, atravessando o ambiente como se a presença dele fosse parte da arquitetura da casa. — Não, eu não vou cancelar — disse, impaciente. — Já adiei demais. Augusto ergueu o olhar. — Do que estamos falando? Ela encerrou a ligação antes de responder. — De uma exposição. No centro. Hoje à noite. Rodrigo endireitou a postura quase por reflexo. — Não estava no cronograma. — Porque eu não pedi autorização — retrucou Helena. — É arte, não uma operação militar. — Centro à noite é imprevisível — respondeu ele. — Precisamos avaliar o trajeto, os acessos, o tempo de permanência— — Não precisamos de nada — interrompeu. — Eu vou. Com ou sem você. O ar na sala mudou. Augusto observava os dois com interesse calculado. — Você vai — decidiu. — Com segurança reforçada. Helena cruzou os braços. — Ótimo. Mais gente para me vigiar. — Não — corrigiu Augusto, voltando-se para Rodrigo. — Só ele. Ela virou-se de imediato. — Não. — Sim — respondeu o pai, frio. — Confio no critério dele. Rodrigo sentiu o peso da palavra. Confiança, ali, não era elogio. Era responsabilidade. — Saímos às dezenove — disse, encerrando o assunto. Helena lançou-lhe um olhar que não era raiva pura. Era algo mais afiado. — Você não manda em mim. — Hoje, mando no trajeto. O centro estava cheio demais para o gosto de Rodrigo. Luzes irregulares, ruas estreitas, gente demais ocupando pouco espaço. Ele estacionou a três quadras do local. — Vamos a pé. — Por quê? — Menos previsível. Ela não discutiu, mas assumiu a dianteira. O passo firme denunciava mais desafio do que tranquilidade. Rodrigo caminhava próximo o suficiente para agir, distante o bastante para não invadir. Na segunda quadra, o alerta veio. Não visual. Corporal. A pressão sutil entre as escápulas, o instinto antigo despertando. — Continue andando — murmurou, sem olhá-la. — E não vire a cabeça. — O que foi? — Confie em mim. Helena fez exatamente o oposto. Virou-se. Reconheceu Gustavo no mesmo instante. O andar calmo era apenas fachada; o olhar prometia acerto de contas. — Droga — sussurrou. Rodrigo já havia traçado três rotas de saída. — Entra aqui — disse, segurando-a pelo braço e desviando para uma rua lateral. — Eu disse pra não— Ela não terminou. Gustavo acelerou o passo. — Helena! Rodrigo fechou a mão com mais força do que pretendia. — Continua — ordenou. A rua estava quase vazia. Iluminação falha. Lojas fechadas. O som dos próprios passos parecia alto demais. Rodrigo identificou uma galeria lateral e parou de repente. Posicionou-se à frente dela, empurrando-a suavemente contra a parede. Proteção. Nada além disso. Sentiu a respiração dela acelerar. O corpo tenso atrás do seu. Cada sentido em alerta. — Fica aqui — disse, baixo. — Não se mexe. — Você enlouqueceu? — sussurrou ela. — Ele não vai— Gustavo surgiu na entrada. — Olha só — disse, com um sorriso torto. — Se não são os dois fugitivos. Rodrigo não respondeu. — Você gosta de homem mandando em você agora, Helena? — continuou. — Seu pai sabe disso? — Sai daqui — disse ela, a voz firme demais para quem estava acuada. Gustavo riu. — Ou o quê? Ele vai me bater de novo? Rodrigo deu um passo à frente. — Último aviso. — Ou você o quê? Vai me matar? Por um instante mínimo, tudo ficou suspenso. Rodrigo sabia exatamente o que poderia fazer. E sabia que não podia. — Vai embora — disse. — Agora. Gustavo hesitou. Cuspiu no chão. — Isso não acabou. Virou-se e sumiu na rua. Rodrigo permaneceu imóvel, sentindo os batimentos desacelerarem. Quando se virou, encontrou Helena observando-o com atenção nova. — Você me empurrou contra a parede. — Foi necessário. — Você me tocou. — Foi proteção. Ela respirou fundo. — Eu não pedi isso. — Não era uma escolha. — Sempre é. Rodrigo deu um passo para trás, criando espaço. — Ameaça neutralizada — disse, retomando o tom profissional. — Vamos. Ela não se moveu. — Você estava pronto para machucá-lo. — Eu estava pronto para impedir. — Você gosta disso? — perguntou, a voz baixa. — Da violência? A pergunta atingiu mais fundo do que ele esperava. — Eu gosto de controle — respondeu. — Violência é falha. Ela observou as mãos dele. — Então por que estão tremendo? Rodrigo fechou os punhos. — Adrenalina. — Mentira. Ele não respondeu. A exposição perdeu o sentido. No caminho de volta, o silêncio não precisava ser nomeado. As luzes da cidade passavam rápidas demais pela janela. — Quem é ele? — perguntou Rodrigo, por fim, observando-a pelo retrovisor. — Alguém do passado. — Devemos nos preocupar? Helena virou-se devagar. — Pessoas como ele não lidam bem com contrariedade — respondeu. — Mas não acredito que vá além disso. Rodrigo assentiu, os olhos fixos na estrada. Não insistiu. Mas não relaxou.






