O dia seguinte não traz alívio

Natália

Acordar não foi um evento. Foi uma constatação lenta e dolorosa, como o retorno da sensibilidade a um membro que passou horas adormecido. O sol de São Paulo, sempre invasivo e desprovido de qualquer cortesia matinal, atravessava as frestas das cortinas do quarto de hóspedes no apartamento de Vitor com uma insistência que eu não tinha forças, nem vontade, de combater. A luz cortava o ar em feixes carregados de poeira em suspensão, revelando a transitoriedade da minha nova vida.

Meu corpo pesava. Não era apenas o peso biológico da gravidez, que agora se manifestava em uma pressão constante na base da coluna e em uma fadiga que parecia ter se infiltrado até a medula dos meus ossos. Era um peso metafísico. Uma âncora invisível feita de palavras não ditas, de revelações tardias e de uma raiva que, em vez de se dissipar com o sono, havia fermentado durante a noite, tornando-se algo mais denso, mais escuro.

Eu não estava devastada. A devastação implica um colapso, uma ruína fumegante
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