Mundo de ficçãoIniciar sessãoParte 6...
Ayla
— É justamente por isso - respondi, apertando os ombros dela — Se a gente falar qualquer coisa, eles matam você. Me matam. E matam a tia. Você ouviu o que ele disse. Você viu o que ele faz. Você acha que a gente tem chance contra pessoas assim?
Ela balançou a cabeça, soluçando.
— Mas… Mas é errado… É errado demais…
— Eu sei. - minha voz engasgou. — Mas eu prefiro viver com medo do que ver você no chão como aquele homem. Ou a tia. Eles não pensam duas vezes, Narin. Eles fazem. Eles não têm limite nenhum. Por isso a gente não abre a boca. Não agora.
Ela se jogou de novo no meu ombro.
— Ayla… Eu tô com tanto medo…
— Eu também. - passei a mão nas costas dela. — Mas eu tô aqui. Eu tô com você. Vou pensar em algo.
Ficamos assim por alguns minutos. Narin respirou fundo, levantou a cabeça devagar.
— O que a gente vai fazer amanhã?
Eu engoli em seco.
— A gente vai… - minha voz falhou, mas eu continuei — Fazer o que eles mandarem. Pelo menos até eu entender como manter você e a tia vivas.
Narin apertou minha mão com força.
— Eu não quero voltar pra lá. Eu não quero ver aquele homem nunca mais, Ayla…
Ela tremia tanto quanto eu e a segurei forte, tentando passar uma segurança que eu não tinha.
— Vamos tentar dormir, está bem? Amanhã nós vamos encontrar uma saída para isso. Vá para seu quarto.
— Não sei se vou poder dormir – abriu a porta.
— Tente – a empurrei de leve — É o que podemos fazer agora. Tentar dormir para não ter um surto.
Ela assentiu e saiu de cabeça baixa.
***** *****
Eu não dormi. Não consegui. Passei a madrugada inteira sentada na beirada da cama, com as mãos no cabelo, tentando respirar devagar enquanto pensava em qualquer saída que não matasse a gente.
A casa estava silenciosa. Só o relógio da parede marcava o tempo, cruel, acelerado.
Tia tinha tossido muito cedo. Dei outro remédio e agora ela dormia de novo, tranquila, como se nada estivesse acontecendo. Meu estômago deu um nó. Como eu ia proteger ela? E a Narin?
A porta do quarto rangeu. Narin apareceu com o rosto amassado, olhos inchados.
— Você não dormiu? - sussurrou.
— Como que eu ia dormir? - falei baixo. — Senta aqui.
Ela se aproximou, sentando do meu lado, segurando meu braço como se tivesse medo de eu desaparecer.
— Ayla… Ele vai vir hoje de manhã. O homem disse. E se…
— A gente não vai ficar esperando morrer. – a cortei. — A gente vai fugir.
Os olhos dela arregalaram.
— Fugir? Como? Ele vai atrás da gente. E a tia?
— Eu sei. - esfreguei as mãos no rosto. — Passei horas pensando. A gente só consegue fugir se antes, a gente tiver dinheiro.
— Dinheiro? De onde?
— Eu vou ter que conseguir nem que seja dele. - falei, como se aquilo tivesse gosto amargo. — De algum jeito. Ele me quer trabalhando pra família dele, certo? Deve pagar. Eu posso… Pedir adiantamento. Inventar alguma coisa. Qualquer coisa.
— Ayla, isso é perigoso demais.
— Perigoso é continuar aqui. Eu não sei como escapar sem ter grana pra levar a gente pra longe - virei o rosto pra ela. — Se a gente abrir a boca, morre. Se a gente ficar parada, morre. Se a gente fugir sem plano, morre.
Parecia que cada palavra me furava por dentro, mas eu continuei:
— Narin… A tia precisa de tratamento. A mensalidade retrasou de novo. Se a gente tentar colocar ela no hospital agora, sem pagar, eles vão recusar. Ela não vai ter pra onde ir. A gente só pode fugir se deixar ela segura.
— Então… Você quer pagar a mensalidade e depois… Fugir? É assim?
— Isso. - confirmei, finalmente respirando fundo. — A gente arruma o dinheiro. Paga o mês atrasado. Deixa ela internada. E aí some daqui até a poeira baixar. A gente só volta quando conseguir denunciar. Direto pra polícia. Não pra delegacia de bairro. Pra um lugar grande. Onde a gente consiga proteção.
Narin me olhou como se eu estivesse propondo um salto no escuro.
— E como você vai pedir esse dinheiro pra ele? E a tia? O hospital pode colocar ela pra fora.
— Eu ainda não sei. - admiti. — Mas de manhã, quando ele vier… Eu vou inventar algo. Vou dizer que a tia piorou. Que eu preciso ficar aqui. Que preciso comprar remédios, exames, sei lá. - soltei um suspiro duro — Preciso fazer ele não querer entrar na casa. Se ele vê a tia dormindo bem, ferrou tudo... E se fizermos a denúncia, a polícia não vai deixar que joguem a tia pra fora do hospital.
— Será? Você acha que ele vai cair nisso?
— Ele não precisa cair. Só precisa não desconfiar. - olhei bem nos olhos dela. — Se ele achar que o problema é doença, e não fuga, ele me deixa sair pra resolver. - toquei a mão dela, firme — E enquanto isso você fica com a tia. Quietinha. Sem falar nada. Sem levantar suspeita.
Narin respirou fundo, nervosa.
— Ayla, eu tenho medo de você ir sozinha.
— Eu também tenho. - admiti. — Mas não tem outra saída. Se ele descobre que a gente tá escondendo alguma coisa… Acaba. - engoli em seco. — Eu vou descobrir onde ele guarda o dinheiro. Ou vou convencer ele a me dar. Não sei. Mas alguma coisa eu vou conseguir arrumar e tem que ser logo.
Narin voltou a morder o lábio com força.
— E se ele perceber?
— Então eu improviso. Mas se eu não tentar… Ninguém sai viva.
— Tá bom... Seja o que Deus quiser, não temos outra coisa pra fazer – ela engoliu seco — Mas estou com muito medo. Aquele homem não parece ser alguém que tenha paciência ou que perdoe ser enganado.
— É, eu sei – esfreguei o rosto — Mas o que podemos fazer, Narin? Você viu o que ele disse. Ele quer que eu trabalhe pra ele, fazendo sabe Deus o que – ergui a mão agitada — E se ele quiser... – mordi o lábio — Ai... Quiser que eu vire uma prostitua pra dar dinheiro a ele?
Narin arregalou os olhos.
— Eu devia ter ouvido você – começou a chorar — É minha culpa que estamos nessa confusão.
— Nã é sua culpa, você não cometeu nenhum crime, aquela gente, sim – alisei sua mão — A gente vai sair dessa, você vai ver.
Eu disse isso mais pra mim do que pra ela. Estou morrendo de medo, mas se eu cair agora, Narin não vai sustentar, ela é muito mais delicada do que eu.
Olhei para fora pela cortina aberta. Queria tanto que Deus me ajudasse a sair dessa enrascada sem prejudicar minha família.







