O que vai fazer?

Parte 8...

Emir

Ayla ficou em silêncio durante quase todo o trajeto.

Mas não era o silêncio comum, era aquele que respira fundo, que pensa rápido, que observa cada rua, cada curva. Eu conhecia esse tipo de silêncio de quem procura saída.

E, curiosamente, aquele silêncio me despertava mais interesse do que deveria.

Quando passamos pelos portões da mansão, ela engoliu em seco, mas não desviou o olhar. Muita gente baixava a cabeça. Ela não. Ela olhava tudo, como se quisesse memorizar cada detalhe.

— Você mora aqui? -  a voz dela era baixa mas estável.

— Sim. - estacionei. — E, a partir de hoje, você vai entrar e sair comigo. Sempre.

Ela apertou os dedos no colo. Nervosa, mas tentando parecer firme. Eu saí primeiro e abri a porta pra ela.

Quando ela colocou os pés no chão, vi seu corpo estremecer. A casa impressionava todo mundo. Mas nela, o impacto foi diferente. Em vez de deslumbrada, parecia… Alerta.

— Venha. - fiz um gesto com o queixo. — Quero mostrar onde você vai trabalhar.

Ela andou ao meu lado, mas mantendo uma distância calculada. Quando entramos no hall, ela parou por um segundo, olhando ao redor: piso polido, janelas altas, corredores longos, quadros antigos.

E ela ali. Roupa simples, cabelo preso às pressas, tentando esconder a respiração acelerada.

— Isso tudo é seu?

— Sim.

— E você quer que… Eu trabalhe aqui?

— Não “aqui” na mansão inteira. - respondi, seguindo até o corredor da ala norte. — Você vai trabalhar para mim. Diretamente.

Ela caminhava atrás de mim, mas de cabeça erguida. Percebi seus olhos passando por todo o lugar. Curiosa.

Quando chegamos à porta do meu escritório, abri.

O ambiente era amplo, imponente, escuro, madeira, couro, livros, computador, documentos, armas guardadas num armário trancado.

Ela entrou devagar, olhando tudo. De novo, aquele olhar que guardava informações.

— Pensei que ia ser faxina. - Ayla disse, cruzando os braços. — Talvez ficar na cozinha, algo assim.

Virei para ela.

— Não. Faxina qualquer uma faz. Eu preciso de outra coisa.

— O quê, exatamente?

— Organização. Controle. Confidencialidade. - falei simplificando. — Alguém que cuide de documentos, faça chamadas, organize compromissos, escreva relatórios. E que esteja disponível quando eu precisar.

Ela franziu a testa.

— Então você quer uma… Assistente?

— Pode chamar assim.

— Assistente pessoal. - ela insistiu. — É isso?

— Mais ou menos. - dei de ombros. — Algumas tarefas são mais delicadas.

Ela deu um passo para trás. E então, como se juntasse coragem de repente, falou:

— Você quer que eu me prostitua pra você?

Meu corpo inteiro ficou duro por um segundo.

— O quê? - perguntei devagar.

— É isso que homens como você fazem, não é? Vocês pegam garotas pobres, ameaçam a família e esperam que...

Dei um passo à frente e ela recuou automaticamente, encostando na mesa. A respiração dela acelerou.

— Ayla. - falei firme. — Se eu quisesse isso, você já teria percebido ontem. Eu não preciso pedir permissão.

Ela engoliu em seco.

— Eu não sei o que pensar.

— Então vou deixar claro. - me aproximei mais, um palmo só separando nossos corpos. — Eu não trouxe você aqui para isso. Eu não compro mulheres. Não obrigo mulheres. Não uso mulheres desse jeito.

Ela olhou direto para mim, os olhos escuros, aceleração visível na garganta.

— Então por que eu? - perguntou, com uma sinceridade que atravessou minha paciência. — Pode contratar alguém formada nisso.

Eu fiquei calado por um instante.

“Porque você enfrentou um homem com arma na cabeça da sua irmã. Porque você me olhou como igual, mesmo tremendo inteira. Porque você fala comigo como se eu não fosse quem eu sou. Porque eu fiquei pensando no seu rosto a noite inteira”.

Eu pensei tudo isso. Mas eu não disse nada disso.

— Porque é útil. - respondi seco. — E porque quero alguém que não seja do meu círculo. Nem da minha organização.

— Alguém que você possa descartar depois? - ela soltou, afiada.

Eu me aproximei ainda mais e ela prendeu o ar, mas não desviou.

— Você tem coragem demais pra alguém tão… pequena. — murmurei.

— Não sou pequena. — respondeu, irritada.

— Para o meu mundo, é.

Ela ergueu o queixo.

— Meu tamanho não importa. O que importa é o que você quer que eu faça. E eu não vou fazer nada que prejudique minha irmã ou minha tia. Se for isso, me mate agora.

A audácia dela me atingiu como um soco inesperado.

Meu peito apertou, não sei se de raiva ou interesse.

— Não fale de morte desse jeito. - falei baixo. — Não gosto.

— Mas você mata pessoas, não? - ela provocou.

Eu respirei fundo.

— Não pedi sua opinião sobre meu trabalho.

— E eu não pedi pra entrar nele. – ergueu o queixo.

Quase sorri. Quase. Ela tem audácia.

— Você vai trabalhar comigo. - finalizei. — E ponto.

— Quero saber exatamente o que vou fazer. - ela insistiu. — Não vou entrar em nada às cegas.

Ela era irritantemente sincera. Irritantemente corajosa.

Irritantemente… Bonita daquele jeito bravo.

“Ficou idiota?”

Me recriminei, balançando a cabeça.

— Você vai organizar meus arquivos. - listei com calma. — Vai transcrever áudios. Vai responder mensagens quando eu mandar. Vai lidar com papéis que ninguém pode saber que existem. E… - aproximei o rosto do dela — Vai acompanhar cada reunião que eu permitir.

— Reuniões com criminosos? - Ayla devolveu. — Eu prefiro não me misturar com essa gente.

— Com empresários. – corrigi com um suspiro. — Nem tudo é o que parece.

Ela estreitou os olhos, desconfiada.

— E o que eu ganho, além da promessa de que você não mata minha irmã?

— Dinheiro. Bastante. O suficiente pra pagar hospital, remédios, aluguel... O que precisar - respondi, observando a reação dela. — Isso não te interessa?

Por um segundo, a expressão dela se quebrou.

Não por ambição, por necessidade.

— Interessa. - admitiu. — Mas não confio em você. Estou aqui por pura ameaça.

— Não precisa confiar. Só precisa obedecer.

— Eu não sou um cachorro.

— Não disse que era.

— Mas fala como se eu fosse.

A irritação dela me arrancou um sorriso que tentei esconder. Ela viu.

— Você está rindo de mim? – franziu a testa.

— Não. - recuperei o controle. — Estou avaliando.

— Avaliando o quê?

— Você. Seu comportamento. Se vai ser útil.

Se vale o risco.

Ela deu um passo para trás.

— Risco pra quem? Pra você?

— Pra mim, pra minha família… E pra você também. Se abrir a boca sobre o que viu, Ayla… - aproximei o rosto até meus lábios quase tocarem sua orelha — Pode acabar num buraco frio antes que perceba que falei sério.

O corpo dela tremeu. Mas ela não caiu em silêncio como os outros. Ela murmurou:

— Você fala isso pra todo mundo?

— Não. - respondi, olhando diretamente pra ela. — Só pra quem tem tendência a fuçar demais.

— Eu não estou fuçando. Só quero entender... Narin não fez por mal. Você poderia ter deixado ela ir.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App