Mundo de ficçãoIniciar sessãoParte 2...
Ayla
Quando o relógio marcou quase meia-noite, me deitei na cama estreita e deixei o corpo afundar no colchão velho.
Eu estava cansada.Exausta de um jeito que parecia vir dos ossos. A casa estava em silêncio. Narin estudava no quarto e minha tia dormia depois de um dia difícil. Eu estava quase apagando quando ouvi passos leves no corredor.
— Ayla? - Narin chamou baixinho.
— O que foi? - perguntei, sentando na cama.
Ela entrou devagar, segurando um envelope amassado.
— Chegou isso hoje. Estava na caixa de correio. Quase esqueci de te entregar.
Peguei o envelope e virei de um lado para o outro. Era do hospital. Meu estômago apertou.
— Você não abriu?
— Não. - ela balançou a cabeça. — Mas eu sei o que é. A conta da tia. A nova.
Respirei fundo antes de rasgar o envelope.
E, quando tirei a folha, senti o ar sumir dos meus pulmões.— Quanto deu? - Narin perguntou, ansiosa. — Ayla?
Eu tentei falar, mas a voz não saiu.
Mostrei o valor para ela. Bem mais alto do que pensei. Os olhos dela se encheram de lágrimas.— A gente… A gente não tem isso.
E não tinha mesmo. Nem trabalhando duas vidas seguidas.
— Ayla… O que vamos fazer? É muito dinheiro.
Eu olhei para a folha na minha mão.
Para a porta do quarto da tia. Para o futuro que parecia sempre fugir da gente.— Amanhã - disse finalmente — Eu vou atrás de algo. Algum extra. Qualquer coisa que pague um pouco mais. Vai surgir alguma coisa.
— Mais? Você já trabalha demais…
— Não importa. - forcei um sorriso. — Eu dou um jeito. Eu sempre dou, não é?
Narin me abraçou forte, quase desesperada.
— Eu queria te ajudar mais - ela sussurrou.
— Você já ajuda sendo quem é - respondi, beijando o topo da cabeça dela. — Vai dormir. Amanhã você tem aula cedo.
Quando ela saiu, fiquei só eu e o silêncio. Eu e aquela conta absurda. Eu e a velha sensação de que, para sobreviver, eu sempre precisava correr mais um pouco.
E, enquanto guardava o envelope na gaveta, um detalhe preso ao rodapé da folha chamou minha atenção:
“Vencimento: amanhã.”
Amanhã. Meu Deus! Como se eu pudesse simplesmente tirar dinheiro do concreto da parede.
Foi aí que meu celular vibrou na mesa. Uma mensagem do dono do bar onde eu fazia limpeza noturna:
“Ayla, uma das garotas vai faltar. Preciso que venha amanhã depois do seu turno. Pagamento é em dinheiro.”
Meu coração bateu mais rápido. Era exaustivo.
Era perigoso voltar tão tarde para casa. Era exatamente o tipo de trabalho que eu prometi não pegar mais, porque vira e mexe dava algum problema.Mas… Eu olhei para o envelope de novo. Eu não tinha escolha. Peguei o celular e respondi:
“Eu vou se me pagar em dobro.” – enviei.
“Dobro?”
“Sim, pela urgência”. – respondi.
Ainda bem que não demorou e ele disse que tudo bem. Fechei os olhos e virei de lado.
***** *****
Narin
Eu estava na cozinha, abanando o rosto da tia Farida com um caderno velho para tentar aliviar sua febre, quando ela começou a tossir daquele jeito seco, áspero, que fazia o peito dela chiar.
— Tia… Respira devagar, por favor… - pedi, inclinando o copo de água. — Toma mais um pouco.
Ela tentou beber, mas a tosse pegou de novo. A água escorreu pelo canto da boca.
— Está doendo, meu amor… - disse com a voz rasgada. — Parece que tem fogo no meu peito.
Meu coração apertou. Eu detestava sentir que não podia ajudar. Detestava ainda mais a casa vazia sem a Ayla, parecia que tudo ficava maior, mais escuro.
Ayla estava trabalhando no turno da madrugada outra vez. Desde que ela arrumou aquele emprego no restaurante, e mais os bicos de limpeza, quase nunca pegava nesses horários, porque é perigoso tão tarde. E, quando pegava, era só por necessidade maior, parecia sempre exausta demais para respirar.
A tosse da tia veio mais forte, dobrando ela para frente.
— Ok, chega. - fiquei de pé. — Eu vou ligar pra Ayla agora.
Peguei o celular e disquei antes que ela pudesse protestar. A ligação caiu com o barulho do bar no fundo.
— Narin? - Ayla atendeu com a voz cansada. — O que houve?
— A tia está piorando. A tosse está mais forte. Não adianta só chá e vapor… Acho que ela precisa daquele xarope que o Dr. Murat passou.
— Mas nós temos em casa.
— Tinha. Acabou ontem. Eu falei, lembra?
Silêncio. O tipo de silêncio que Ayla fazia quando estava tentando acertar o problema.
— Ok, então chama a farmácia. Pede pra entregar aí.
— A entrega dá quase o preço do remédio, Ayla…
— Narin, não sai de casa à noite. Você sabe como…
— A farmácia é a três quadras daqui. - revidei, tentando parecer mais segura do que estava. — Eu vou e volto rápido.
— Narin… Não inventa. – a voz dela ficou séria. — Você sabe muito bem que essa cidade não é...
— Eu vou de tênis, vou pelo caminho iluminado. - interrompi. — Não precisa ficar preocupada. Só não quero gastar dinheiro à toa. A gente está se virando com migalhas.
Do outro lado, Ayla respirou fundo. Eu conhecia essa respiração. Era o momento exato em que ela decidia parar de brigar porque não dava tempo.
— Tá. - ela cedeu. — Mas me liga quando chegar na porta da farmácia. E quando sair. E quando entrar em casa. Você me entende?
Eu sorri um pouco, apesar da tensão.
— Sim, irmãzinha-mãe.
— Estou falando sério.
— Eu sei. Eu te amo. Vou ser rápida.
— Eu também. Se cuida.
Desligamos. Peguei minha mochila, enfiei o dinheiro dentro e olhei para a tia. Ela estava recostada no sofá, respirando devagar, os olhos meio pesados.
— Eu já volto, tia. Prometo. Cinco minutos.
Ela levantou o olhar, com aquele sorriso fraco.
— Vai com Deus, minha filha.
***** *****
O ar estava úmido, carregando um cheiro de chuva que talvez viesse mais tarde. Os postes de luz estalavam, iluminando as calçadas estreitas do bairro onde morávamos.
Passou um grupo de jovens rindo alto do outro lado da rua. Um carro preto arrancou com velocidade numa via transversal. Uma senhora fechava a barraca de verduras, guardando tudo com movimentos apressados.
Eu caminhava rápido, o suor nas mãos apesar do frio leve. Nova Karam não era o tipo de cidade onde você andava distraída. Tinha muito brilho, muito concreto, muitos prédios novos… E entre eles, sombras suficientes para ninguém se meter onde não devia.
Três quadras. Só isso. Quando cheguei à porta da farmácia, cumpri a promessa. Liguei para a Ayla.
— Já cheguei.
— Compra duas unidades, se tiver promoção. - ela pediu. — E anda logo.
Comprei o xarope, mais uns comprimidos de pastilha, e coloquei na sacola. Saí da farmácia sentindo uma tensão que eu não sabia explicar. Talvez fosse só o medo de deixar a tia sozinha. Liguei de novo.
— Já estou voltando.
— Vai pela rua do colégio, não pela avenida.
— Tá.
Guardei o celular e comecei o caminho de volta. Eu virei a última rua antes de chegar em casa. Foi aí que eu ouvi.
— PARA DE GEMER, CARALHO!
A voz masculina ecoou forte, carregada de crueldade. Meu corpo inteiro congelou.
Meu primeiro impulso foi olhar para trás. Meu segundo impulso foi continuar andando fingindo que não ouvi nada. Mas a curiosidade ou o medo ou os dois juntos me puxaram um passo adiante, bem devagar.
A rua estava meio escura, mas eu reconheci os reflexos das luzes de um carro preto estacionado do lado do galpão abandonado. E então ouvi outra voz.
Fraca. Ofegante. Chorando.
— Por favor… Eu já falei tudo… Por favor… Não faz isso…
Me aproximei só mais um pouco e fiquei atrás de uma caminhonete estacionada. Meu coração batia tão forte que eu ouvi a própria circulação nos ouvidos.
Eu olhei e vi a cena.
Um homem estava ajoelhado no chão, com as mãos presas atrás das costas. O rosto dele estava inchado, sangrando. Parecia um advogado ou alguém importante, terno caro, relógio brilhando na calçada.
Diante dele havia três homens. Dois seguravam armas. E o terceiro…
O terceiro parecia comandar tudo sem precisar levantar a voz. Alto, ombros largos, terno escuro impecável, o cabelo puxado para trás.
Um rosto frio. Tão frio que parecia feito de pedra. Ele não gritava. Falava baixo, mas com controle.
— Você teve a chance de falar antes. - disse o homem do terno escuro. — Agora já não importa mais.
O que parecia um advogado começou a chorar, rastejando, as palavras embolando.
— Emir, por favor… Emir… Eu imploro… Eu tenho uma filha… Uma filha pequena…







