143: Luna Castilho

O descanso de Fernando dura menos do que deveria. Não porque o corpo dele não precise — precisa, e muito —, mas porque certas guerras não respeitam pontos, nem esperam cicatrização. Elas farejam hesitação. E avançam. Fico sentada ao lado da cama, escutando o ritmo irregular da respiração dele, memorizando cada pausa como quem aprende a reconhecer a própria sobrevivência.

Quando o telefone vibra no bolso do meu casaco, o som é curto. Discreto. Quase educado. Ainda assim, meu corpo inteiro reage. Não é susto. É memória. Reconheço o número antes mesmo de atender, como se ele já estivesse impresso em mim.

Ele nunca liga duas vezes.

— Luna.

A voz do meu pai atravessa a linha sem esforço, como sempre atravessou paredes, decisões e vontades. Fria. Calculada. Sem pressa. Uma voz que não pede — convoca.

— Precisamos conversar.

Não há ameaça explícita. Não há afeto. Só a certeza tranquila de quem sempre acreditou ter o direito à última palavra. De quem construiu poder suficiente para confundir
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