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O Contrato de Divórcio
O Contrato de Divórcio
Por: Alexa Vinsmoke
Capítulo 1 – A caneta na mesa

(Ponto de vista de Pamela)

Finalmente vou me livrar de dividir a cama com o diabo.

Essa era a única frase que passava pela minha cabeça quando o táxi parou em frente ao edifício de vidro e aço que carregava o sobrenome dele em letras douradas. Alencar Corporate.

O sol da manhã refletia nas janelas como se o próprio prédio quisesse me cegar de propósito, ou talvez fosse só uma metáfora barata para o inferno que eu estava prestes a deixar para trás.

Peguei a pasta de couro no banco ao lado. Dentro dela, a salvação.

Três anos. Três anos de contratos assinados à meia-noite, de sorrisos ensaiados para fotografias de festas beneficentes, de noites em que eu dormia na ponta extrema do colchão king size para não encostar no diabo que dividia o mesmo edredom.

Hoje isso acabava.

O segurança me reconheceu e abriu a porta com um aceno tímido. Eu nem lembrava o nome dele. Fazia questão de não lembrar de nada que pertencesse àquele universo. O elevador privativo cheirava a dinheiro velho – aquele perfume amadeirado que Lucas Alencar usava e que eu aprendi a odiar antes mesmo de saber o nome dele.

No 27º andar, a porta se abriu e a secretária Mercedes levantou os olhos com um sorriso profissional que não escondia o brilho de curiosidade.

— Bom dia, Pamela. Ele está esperando.

Claro que está.

O corredor para a sala de Lucas era longo e silencioso, como uma passarela para o paredão. A cada passo, meu salto fazia um clique metálico no piso de mármore. Eu apertei a pasta contra o peito e respirei fundo.

Você consegue, Pamela. Você já sobreviveu a três anos. Sobrevive a mais cinco minutos.

A porta de madeira escura estava entreaberta. Não bati. Ele nunca gostou que eu batesse – e hoje era o último dia em que eu precisava me importar com o que Lucas Alencar gostava.

Empurrei a porta.

Ele estava atrás da mesa, como sempre. Impecável. O terno cinza-escuro, a gravata bordô, os cabelos pretos perfeitamente penteados para trás. Os olhos cor de mel me avaliaram do mesmo jeito que um jogador de xadrez avalia o tabuleiro antes de derrubar a rainha adversária.

— Pamela.

A voz dele era baixa, sem calor. Um simples cumprimento de guerra.

— Lucas. — Respondi com o mesmo tom congelante. Coloquei a pasta na borda da mesa e abri o zíper. — Vamos resolver isso rápido. Tenho reunião com pedreiros às duas.

Ele arqueou uma sobrancelha, divertido.

— Pedreiros. É mesmo. A arquiteta agora trabalha com as mãos.

— Alguém aqui precisa trabalhar de verdade. — Puxei a minuta do divórcio e deslizei o papel polido até o centro da mesa. — Assina. Eu assino. Cada um segue seu caminho.

Lucas não tocou no papel. Cruzou os braços e inclinou a cabeça.

— Você está nervosa.

— Eu estou livre, Lucas. São coisas diferentes. Você devia tentar algum dia.

Ele se levantou. Lentamente. Como um predador que tem tempo de sobra. Contornou a mesa com as mãos nos bolsos e parou a menos de um metro de mim. O cheiro amadeirado invadiu minhas narinas e eu recuei meio passo.

— Três anos não apagam com uma assinatura, Pamela.

— Três anos de inferno não, mesmo. — Ergui o queixo. — Por isso eu quero ver esse papel assinado hoje. Comemoro com champanhe ainda esta noite.

Os olhos dele brilharam. Não sei se era raiva ou... alguma outra coisa que eu me recusava a nomear.

— Inferno. É assim que você chama uma cobertura de trezentos metros com vista para o parque?

— É assim que eu chamo qualquer lugar onde eu precise dividir a cama com você.

Agora o brilho sumiu. O rosto de Lucas endureceu. A mandíbula contraiu daquele jeito que eu aprendi a reconhecer – um segundo antes da explosão.

— Você nunca reclamou da cama.

— Porque eu nunca falei com você, Lucas. Só o necessário. Como dizia o contrato.

— Ah, o contrato. O contrato sagrado. — Ele deu um passo à frente. Eu não recuei dessa vez. — Você adorou os cheques que aquele contrato depositou na sua conta todos os meses.

Meu sangue ferveu.

— Meu pai estava morrendo. Você sabia disso. Usou isso.

— Usei? — A voz dele subiu meio tom. — Eu ofereci uma solução. Você aceitou. Assinou. Dormiu na mesma cama. Fingiu sorrir em todos os eventos. E agora quer me chamar de demônio?

— Porque é o que você é.

O silêncio entre nós dois era pesado como concreto. Nossos olhos se encaravam num duelo silencioso. Eu sentia meu coração batendo rápido demais – não de medo, juro. De ódio. Ódio puro e velho.

Foi então que eu disse as palavras que ensaiei no banho, no trânsito, no elevador:

— Não vejo a hora de me livrar de você.

Lucas soltou um riso seco. Amargo. Ele estendeu a mão e pegou a caneta preta em cima da mesa. Girou entre os dedos. Por um momento, achei que ele fosse assinar.

Em vez disso, ele me encarou e respondeu:

— Finalmente hoje é o último dia que verei você.

Ele ia colocar a caneta no papel.

Ia assinar.

Minha garganta apertou. Alívio. Só podia ser alívio.

Foi quando a porta se abriu e Mercedes entrou com os olhos arregalados – algo que eu nunca tinha visto na secretária impecável.

— Desculpe interromper. — A voz dela tremia levemente. — O Dr. Rocha está na linha. Ele disse que é urgente. Muito urgente. Ele precisa falar com os dois. Agora.

Lucas franziu a testa. Sua mão ainda segurava a caneta.

— O que ele quer?

Mercedes engoliu em seco.

— Ele disse para não assinarem nada. Que a cláusula 14... que ela ainda está valendo.

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