Mundo de ficçãoIniciar sessãoPonto de vista: Pamela
Cláusula 14?
Que diabos de cláusula 14? Eu nunca ouvi falar nada disso.
Meu coração ainda martelava contra as costelas quando olhei para Lucas, buscando algum sinal no rosto dele. Pela expressão dele – a testa franzida, os olhos estreitados, a mandíbula contraída – ele também não fazia a menor ideia do que a Mercedes estava falando.
O alívio que eu senti segundos atrás virou cinza na minha boca.
— Obrigado, Mercedes. — A voz de Lucas voltou ao tom controlado, mas eu já aprendi a perceber quando ele está fingindo calma. Agora era uma dessas vezes. — Pode mandar o Dr. Rocha vir. Nós esperamos.
A secretária assentiu e fechou a porta atrás de si com um clique suave.
Silêncio.
Lucas largou a caneta em cima da mesa. O barulho minúsculo ecoou pelo escritório como um tiro. Ele não sentou de volta na cadeira. Ficou de pé, de costas para mim, olhando pela janela de vidro do chão ao teto. A silhueta dele recortada contra o céu azul parecia uma estátua de mármore – bonita, fria e vazia.
Fui eu que quebrei o silêncio.
— Você sabia?
Ele virou a cabeça lentamente. O perfil afiado, a luz do sol pegando em cheio no rosto.
— Se eu soubesse, Pamela, você acha que eu estaria aqui com a caneta na mão?
— Não sei do que você é capaz. — Cruzei os braços. — Você já me enganou uma vez.
— Eu nunca te enganei. — Ele se virou de frente para mim. — O contrato foi lido por você e pelo seu advogado. Linha por linha. Palavra por palavra. Eu não escondi nada.
— Então por que está aparecendo uma cláusula agora? No momento exato em que a gente ia assinar o divórcio? — Dei um passo à frente. Apontei o dedo na direção dele. — Conveniente, não acha?
Lucas deu um passo à frente também. Agora estávamos a menos de meio metro um do outro. Eu podia ver uma veia pulsando na têmpora dele.
— Você está me acusando de arquitetar isso? — A voz dele estava baixa, perigosa. — Eu passei três anos esperando esse maldito divórcio. Três anos preso num casamento que nenhum dos dois quis. E agora você acha que eu inventei uma cláusula secreta para adiar minha liberdade?
— Talvez você queira me atormentar por mais tempo.
Ele soltou um riso curto, sem humor nenhum.
— Você não é tão interessante assim, Pamela.
— E você não é tão bom ator assim, Lucas. — Minha voz saiu mais alta do que eu queria. — Eu sei o que você fez. Eu sei o tipo de homem que você é.
— Ah, sim. O demônio, não é? — Ele arqueou as sobrancelhas. — Já estamos de volta ao demônio.
— Você nunca saiu dessa categoria.
Nós nos encarávamos como dois boxeadores no fim do round. Os punhos fechados, os músculos tensos, a respiração pesada. Qualquer pessoa que entrasse agora pensaria que estávamos prestes a nos matar.
E talvez estivéssemos.
— Sabe o que eu acho? — Lucas falou primeiro, a voz carregada de veneno. — Eu acho que você está com medo.
— Medo de quê?
— De descobrir do que se trata essa cláusula. E que você vai ter que aturar minha presença por mais tempo. — Ele sorriu. Um sorriso feio. Cruel. — Porque aí o dinheiro do seu pai vai continuar preso nas minhas contas. A sua liberdade financeira vai demorar mais tempo. E você vai ter que continuar fingindo que me odeia o suficiente para não perceber...
— Perceber o quê?
Ele inclinou a cabeça. Os olhos de mel brilharam.
— Que você nunca me odiou de verdade.
O sangue subiu para meu rosto. Foi tão rápido que me queimou as bochechas.
— Você é doente.
— E você é uma mentirosa.
Eu ia responder. Ia dizer alguma coisa realmente cruel, realmente certeira. Mas a porta se abriu de novo antes que eu pudesse formar as palavras.
— Dr. Rocha chegou. — Mercedes anunciou, e um homem de cabelos grisalhos entrou atrás dela, carregando uma pasta grossa debaixo do braço.
O advogado.
O homem que escreveu o contrato.
O responsável por aquele pesadelo.
Dr. Rocha nos encarou – primeiro a mim, depois a Lucas – com uma expressão de desculpas que não me convenceu nem por um segundo.
— Sinto muito pela situação. — Ele fechou a porta e se aproximou da mesa. — Vou ser direto, porque sei que os dois estão ansiosos para resolver isso.
— Direto, então. — Lucas voltou para trás da mesa, mas não sentou. Apoiou as mãos no mármore frio. — O que é a cláusula 14?
O advogado abriu a pasta. Folheou alguns papéis com cuidado de ourives até encontrar a página que procurava. Virou o documento na nossa direção e apontou para um parágrafo minúsculo no meio da página.
— Cláusula décima quarta. "Reintegração temporária pré-divórcio". — Ele leu em voz alta, como se estivesse anunciando uma sentença de morte. — "Caso o divórcio seja solicitado antes do período de três anos, as partes deverão cumprir um período de coabitação assistida de seis meses, no mesmo domicílio, mantendo as aparências de casal perante a sociedade. Durante este período, não haverá obrigação de relações íntimas, mas os compromissos sociais como casal deverão ser mantidos."
O escritório ficou em silêncio.
Um silêncio tão absoluto que eu ouvi o relógio de parede fazer tique-taque. Cada segundo era uma facada.
Lucas ficou pálido.
Não é uma metáfora. Ele realmente empalideceu. A pele bronzeada dele ganhou um tom acinzentado. O rosto que segundos atrás era pura arrogância agora parecia uma máscara de cera. Ele puxou o contrato para perto de si, leu com os próprios olhos, leu de novo, como se o texto fosse magicamente mudar.
Não mudou.
Eu, por outro lado, senti o ódio subir pela espinha como um choque elétrico. Minha mão voou até a mesa, agarrou a primeira coisa que encontrou – a caneta preta que ele tinha largado – e joguei com toda a força que eu tinha.
A caneta bateu no peito do Dr. Rocha e caiu no chão com um barulho patético.
— Você está brincando com a minha vida! — Minha voz ecoou pelas paredes de vidro. Eu nem me reconhecia. Tinha fogo saindo pelos meus olhos, pela minha boca, pelos meus poros. — SEIS MESES? Eu já dei três anos para esse casamento falso. Três anos da minha vida que eu não vou recuperar. E agora vocês querem mais seis?
— Senhora Alencar, eu entendo a frustração, mas...
— Não me chama de "Senhora Alencar"! — Eu avancei na direção dele. Lucas segurou meu braço no último segundo. — Meu sobrenome não é Alencar. Nunca foi. Nunca será.
— Pamela. — A voz de Lucas era estranha. Baixa. Controlada demais. Ele ainda estava pálido. — Não adianta gritar com ele. Ele só cumpriu o contrato que nós assinamos.
— Nós não assinamos cláusula nenhuma! — Tirei o braço do seu alcance com um puxão brusco. — Isso não existia quando eu li.
— Existia. — Dr. Rocha ajeitou os óculos com mãos trêmulas. — A cláusula estava na página 47. Era a letra pequena, mas... existia.
Página 47.
Eu li até a página 30. Meu advogado na época disse que o resto era juridiquês padrão.
Eu confiei.
Nunca mais confiaria em ninguém.
Caí na cadeira de couro preta em frente à mesa. Minhas pernas simplesmente desistiram de me sustentar. A pasta com a minuta do divórcio ainda estava aberta ali, tão perto e tão longe.
— Eu não vou fazer isso. — Minha voz saiu falhada. — Não vou morar com ele. Não vou fingir mais nada.
— Se não cumprir a cláusula — Dr. Rocha pigarreou — o divórcio pode ser anulado. E o contrato original continua valendo por tempo indeterminado.
Indeterminado.
A palavra ecoou no meu crânio como um sino fúnebre.
Eu levantei os olhos e encontrei os de Lucas. Ele ainda estava pálido. Mas agora, no fundo daqueles olhos cor de mel, eu vi alguma coisa que nunca tinha visto antes.
Desespero.
Ele também queria se livrar de mim.
E nenhum dos dois conseguiu.







