Capitulo 05

Álvaro recostou-se na cadeira, como se precisasse daquele movimento para se afastar de algo que começava a perturbá-lo. Fechou a expressão, mas não conseguiu esconder a pequena tensão no maxilar.

— A senhorita é… diferente — murmurou, quase como uma constatação involuntária. — As outras professoras não tinham essa… insistência ou audácia.

— Talvez porque não tinham firmeza — respondeu ela, baixinho. — Ou talvez porque nunca olharam para as crianças além de seu trabalho.

Ele sentiu seus músculos enrijecerem por um momento de forma estranha. Ele a analisou longamente, até que seus olhos escurecidos suavizaram um pouco, o que qualquer pessoa não treinada não perceberia.

Mas Maria Clara percebeu.

E aquilo, de alguma forma, a deixou ainda mais firme. E ainda mais atraída por aquele mistério que era o Conde Alencastro.

— Muito bem, senhorita Duarte — disse ele por fim, com uma calma forçada. — Vejo que não será facilmente dobrada.

Maria Clara sorriu, gentil.

— Não, senhor. Não quando se trata do bem-estar das crianças.

Álvaro piscou devagar, e pela primeira vez, algo parecido com admiração brilhou em seus olhos… junto com algo inquietante e irresistível.

— Então veremos — murmurou ele — se a senhorita é tão competente quanto acredita. Está pronta para fazer o que ninguém consegue?

A voz dele era um desafio. Uma provocação. 

— Estou pronta. — respondeu ela, com doçura que não escondia a coragem.

Ele arqueou uma sobrancelha levantando-se devagar, seus olhos desceram para ela, de cima para baixo.

Maria Clara se levantou também.

Por um instante, ficaram ali, frente a frente, apenas a mesa os separaram, mas podiam sentir a proximidade um do outro como uma força silenciosa. 

Então Álvaro desviou o olhar pela primeira vez.

— E uma última coisa, senhorita Duarte, não me desafie tão facilmente — disse ele. — Pode não gostar do resultado.

Maria Clara sentiu um arrepio percorrer-lhe a nuca, não de medo, mas de uma estranha e perigosa vontade de continuar o desafiando.

— Talvez — respondeu ela, em voz suave — o senhor subestime minha capacidade de lidar com adversidades.

Álvaro ficou imóvel por um segundo, só um segundo.

— Isto é tudo por enquanto, Pode ir. 

— Com licença, senhor. 

Maria Clara fez uma breve reverência com a cabeça antes de sair, deixando-o sozinho no escritório e o seu coração batendo depressa demais.

Mas sentiu os olhos do conde acompanhando cada movimento seu.

Maria Clara saiu do escritório com o coração acelerado, sentindo ainda o peso da presença de Álvaro de uma forma como nunca sentiu nada parecido antes. Mal fechou a porta atrás de si quando ouviu risos altos, gritos e passos correndo pelo corredor que dava para o jardim interno.

Ao atravessar o saguão, ela encontrou Doralice à porta.

— Crianças! Crianças, pelo amor de Deus! — exclamava ela, tentando alcançá-las

No saguão ela viu Helena e Thomas, todos sujos de terra e lama.

Maria Clara ficou imóvel por um instante, sem saber se devia rir ou se preocupar.

— Oh, céus… — murmurou Doralice, quase chorando. — Eles me matam um dia desses.

Antes que ela pudesse reagir, uma sombra imponente se projetou no saguão.

Álvaro.

O homem não precisou dizer uma única palavra. Sua simples presença fez o riso das crianças morrer no ar. 

— Venham. — disse ele, a voz baixa, firme, autoritária.

Os dois se aproximaram devagar, como filhotes assustados pararam diante do pai. Ele pousou a mão na cabeça de cada um, depois ergueu o queixo de um e de outro, um gesto mais mecânico do que de afeto e franziu o cenho.

— Estão imundos outra vez. — disse, sem levantar a voz, mas cada sílaba era cortante. — Subam. Agora. Tomem banho e troquem de roupa.

— Sim, pai… — murmuraram quase em uníssono, sem ousar olhar para ele.

— Senhorita Duarte, acho que seus “cuidados” começam agora. — disse ele olhando para Maria Clara com um leve sorriso provocador.

As crianças finalmente ergueram os olhos, curiosos para a nova babá. Maria Clara sorriu gentilmente, mesmo sentindo o clima pesado ainda pairando sobre todos.

— Vamos — disse ela, em tom suave, convidativo. — Nada como um bom banho antes do jantar.

Eles assentiram timidamente como crianças obedientes que não eram.

Quando começaram a subir as escadas quase comportados, Maria Clara sentiu um aperto no peito. O contraste era gritante: a algazarra de segundos antes se transformara em silêncio respeitoso ou seria medo?

Ela se virou discretamente para observar Álvaro. Ele permanecia ali, imóvel, como uma estátua fria e sem vida, os olhos seguindo cada movimento dos filhos e dela.

Havia autoridade ali, mas também havia distância e frieza. Um muro construído para manter as crianças separadas e distantes. E, sem saber explicar porque, algo dentro dela surgiu, um instintivo de desafiar aquele muro, de atravessá-lo e descobrir o que havia do outro lado.

— É por aqui — disse Helena, abrindo a porta do quarto com um empurrão decidido.

Mal entraram, a travessura recomeçou.

O quarto, antes tão bem arrumado, estava um verdadeiro caos.

Maria Clara piscou algumas vezes.

— Certo… vamos começar pelo banho. — disse ela, ainda sorrindo e ignorando a bagunça.

Helena cruzou os braços imediatamente.

— Eu não quero tomar banho. Quem manda no meu banho sou eu.

Thomas repetiu o gesto, atrasado, tentando imitar a irmã:

— É! Quem manda no banho da Helena é… a Helena.

Helena virou-se para ele com autoridade.

— E o seu banho também.

— O meu banho também — repetiu o pequeno, convicto.

Maria Clara respirou fundo, mantendo o sorriso calmo.

— Entendo, mas o pai de vocês pediu que vocês tomassem banho agora.

Helena ergueu uma sobrancelha com ar desafiador.

— E você sempre faz o que o papai manda?

Apesar do tom provocador, havia tristeza escondida naquele olhar infantil, uma tentativa de chamar atenção? De testar limites? De entender até onde ia sua autoridade?

Maria Clara se abaixou para ficar na altura deles, apoiando-se nos joelhos.

— Às vezes fazemos as coisas porque é o certo, não só porque alguém mandou — respondeu ela, suave, sem perder a firmeza. — E tomar banho depois de brincar tanto é o certo.

Helena estreitou os olhos.

— Você fala como se fosse boazinha, mas aposto que vai embora também. Todas vão. Sempre.

A frase caiu pesada no ar.

Thomas, de repente a olhou com um misto de medo e esperança.

— Vai embora? — perguntou baixinho.

O peito de Maria Clara apertou. Ela pousou a mão com carinho na cabeça do menino.

— Não. Eu não pretendo ir embora. Estou aqui por vocês.

Helena virou o rosto bruscamente, como se quisesse esconder algo talvez mágoa, talvez desconfiança.

— Isso é o que todas dizem. — murmurou ela, andando até a cama e subindo nela com os pés sujos de terra e lama.

Maria Clara manteve a serenidade.

— Helena, desça da cama, por favor. Você vai sujar…

— Eu subo onde eu quiser. — retrucou a menina, com um meio sorriso teimoso. — A casa do papai é minha também. Faço o que quero.

Thomas, claro, subiu atrás e começaram a pular

Maria Clara percebeu que era o primeiro grande teste e que recuar agora seria perder toda a autoridade futura. Mas também sabia que rigidez demais só repetiria o que aquelas crianças já conheciam: ordens frias, distância, autoridade.

Ela inspirou, levantou-se devagar e falou com uma calma firme, quase doce:

— Helena… Thomas… eu quero conhecer vocês. Mas para isso, vocês precisam me ajudar também. Hoje começamos com o banho. Amanhã, se quiserem, podemos brincar juntos. Mas agora…

Ela deu um passo à frente.

— …por favor, desçam.

Helena a encarou desafiadora. A menina apertou os lábios, desconfiada da postura daquela mulher tão tranquila diante da guerra declarada.

Thomas olhou para a irmã, esperando instruções e então Helena falou, num sussurro amuado:

— Se eu descer… você tem que cantar uma música.

Maria Clara piscou, surpresa.

— Uma música?

— É. As outras não cantavam. E eu quero saber se você sabe cantar de verdade. — Helena ergueu o queixo, altiva. — Porque eu gosto de música. Mas ninguém canta aqui. O papai não gosta de música.

A revelação pesou no ambiente.

Maria Clara sorriu, mas dessa vez um sorriso cheio de compaixão.

— Eu canto, sim. Se descerem… canto para vocês no final do banho. 

Thomas arregalou os olhos de empolgação.

Helena hesitou por um instante… e então desceu da cama devagar, com dignidade de pequena rainha, puxando o irmão junto.

— Tá. Mas tem que ser bonita.

— Vai ser. — prometeu Maria Clara.

E então, pela primeira vez, ela viu um brilho diferente nos olhos de Helena não mais pura rebeldia… mas curiosidade.

E era um começo.

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