Capítulo 07

Após o jantar, assim que as crianças saíram da presença do pai, elas subiram as escadas correndo, quando chegaram no quarto Maria Clara já as esperava. 

As camas já estavam arrumadas e os pijamas em cima de cada uma delas. 

— Chegaram. Agora vamos nos preparar para dormir. Escovar os dentes e trocar de roupa e se quiserem posso contar uma história para vocês.

— História para dormir é coisa de criancinha. — Helena a olhou com pouco caso e pegou o celular, já havia um tempo que ela não jogava. Ela foi para a cama e deitou com o aparelho na mão desafiadora.

Maria Clara apenas sorriu. Helena esperava que ela fosse mandar largar o celular e a obedecer, em vez disso, ela virou-se para Thomas.

— Você quer que eu conte uma história pra você? — Perguntou ela se abaixando para ficar na altura do menino.

Ele fez um gesto com a cabeça de negativo. 

— Você pode cantar outra música? — A voz do menino era um fio e sempre que falava parecia ter medo.

— Mas é claro que posso. Mas primeiro vamos escovar os dentes e trocar de roupa.

O menino assentiu e sem olhar para Helena, foram para o banheiro. Assim que eles entraram Helena que jogava aparentemente concentrada no celular, ficou olhando para o banheiro e ouvindo a voz suave de Maria Clara que ensinava Thomás a escovar os dentes.

Logo que retornaram, Maria Clara ajudou Thomas a se trocar.

Helena percebeu como Maria Clara fazia diferente das outras babás, ela parecia carinhosa com Thomas.

— Você vai mesmo cantar? — Perguntou ela.

— Sim vou, mas antes nós vamos rezar.

— Rezar? 

Os dois pareceram surpresos. Nunca tinham rezado antes, nem sabiam o que era.

— Nunca ninguém rezou com a gente. — Disse Helena. — É chato.

— Como você sabe que é chato, se nunca rezou antes?

Helena deu de ombros.

— Vai demorar? — Perguntou ela curiosa.

— Não. É rapidinho.

— E como a gente faz? — perguntou Thomas, também curioso.

— Eu aprendi desde pequenininha, menor que o Thomas. Primeiro a gente se ajoelha perto da cama assim.

Maria Clara se ajoelhou e Thomas fez igual, Helena permaneceu sentada.

— Depois a gente junta as mãozinhas assim. 

Maria Clara juntou as mãos e fechou os olhos.

“Obrigada Papai do céu pelo dia de hoje, que amanhã seja melhor que hoje e me proteja durante o meu sono. Amém”

— Só isso? — perguntou Helena.

— Hoje só. Depois eu ensino vocês a rezar o Pai Nosso e a Ave Maria.

— A gente já ouviu, mas não sabemos falar.

Maria Clara sorriu.

— Não tem problema, eu ensino a vocês, tudo bem? 

Thomas assentiu, já que tinha sido rápido.

— Agora você pode cantar? — Perguntou ele tímido.

— Claro. Você quer ouvir também, Helena? 

A menina assentiu.

— Mas você tem que escovar os dentes primeiro. — Disse Thomas

— Quer que eu a ajude? — Perguntou Maria Clara ao ver que a menina estava dividida entre se mostrar rebelde e obedecer.

— Não precisa. Já sou grande. 

Helena foi para o banheiro com o rosto fechado, mas era nítido que ela queria ouvir Maria Clara cantando de novo.

Assim que ela voltou com a cara amarrada, Maria Clara com paciência e carinho ajudou ela a colocar a camisola.

Depois os dois irmãos sentaram um  do lado do outro da cama e Maria Clara na outra.

Ela encheu os pulmões, sua voz encheu o quarto com uma doçura inesperada. Era uma canção antiga, quase perdida no tempo, uma dessas que as freiras cantavam ao anoitecer, como se quisessem acalmar o mundo.

Helena tentou resistir. Mas, pouco a pouco, a barreira invisível dela foi caindo.

Thomas levantou e sentou ao lado de Maria Clara, deitou a cabeça no colo dela, a música os envolveu como um abraço.

Quando Maria Clara terminou, o silêncio que ficou não era vazio. Era um silêncio quente, de coração aquecido, como se aquele quarto tivesse sido banhado de luz.

— É… bonita mesmo… — murmurou Helena, a voz triste de uma criança que era ignorada. — Você canta… bonito… como… — sua expressão se perdeu por um instante, até que ela encontrou a palavra, trêmula — …mamãe.

A frase caiu suave, mas feriu fundo. Maria Clara respirou devagar, guardando o impacto para si. 

Thomas, se inclinou ainda mais sobre o colo dela. Maria Clara afagou seus cabelos com carinho, e ele finalmente cedeu ao descanso, a respiração ficando lenta e profunda.

Um aperto doce e triste tomou o peito dela.

Helena, tentando esconder as lágrimas com um gesto rápido, acabou vencida pela própria carência. Aproximou-se, deitou-se devagar no outro lado do colo de Maria Clara e suspirou, entregando-se àquele afeto tão raro.

Maria Clara ficou ali, com os dois aninhados como passarinhos buscando calor. Acariciava um e outro, desenhando círculos leves com os dedos, enquanto o ambiente inteiro parecia respirar afeto pela primeira vez.

Foi então que uma batida suave na porta.

— Entre — disse ela, num sussurro.

A porta abriu devagar e Álvaro entrou.

Ele parou na soleira. Seus olhos se fixaram na cena: Helena e Thomas, ambos refugiados no colo de Maria Clara, quietos e tranquilos.

A expressão dele mudou. Algo duro se acendeu por trás do olhar. O maxilar se contraiu. O corpo inteiro pareceu tensionar-se, como se um golpe inesperado tivesse sido desferido.

— Senhor Alencastro — sussurrou Maria Clara, surpresa.

Ele recompôs a postura e avançou dois passos com sua habitual frieza elegante.

— Vim dar boa-noite às crianças.

Nenhuma emoção na voz. Nada que lembrasse um pai.

— Papai!  

Helena se apressou, quase caindo ao se levantar do colo de Maria Clara. Correu para a cama e deitou, ajeitando-se depressa, ansiosa por atenção, mesmo que fosse pouca.

Álvaro se aproximou. Tocou de leve a cabeça da menina; tão leve que parecia medo, não carinho.

Helena encolheu-se sob o gesto, mas seus olhos brilhavam com o pedido que ela não ousava declarar.

— Boa noite, Helena.

— Boa noite… papai.

Ele então olhou para Thomas, ainda dormindo nos braços de Maria Clara.

— Vejo que conseguiu fazê-lo dormir antes de eu lhe dar boa-noite.

— Ele estava muito cansado — respondeu ela, procurando manter a voz firme.

Álvaro apenas assentiu, o olhar voltando a se endurecer.

— Boa noite, senhorita Duarte.

— Boa noite, senhor.

Ele hesitou um segundo antes de virar-se. Mas algo a porta fechou atrás dele.

Maria Clara ficou olhando a madeira escura por longos instantes.

Aquele homem… havia uma dor ali. Uma sombra que ele não deixava ninguém ver.

Quando voltou os olhos para Helena, percebeu que a menina havia puxado a manta cobrindo o rosto. Mas o leve tremor dos ombros a entregou.

Helena estava chorando em silêncio.

Maria Clara colocou Thomas na cama com cuidado e depois de cobri-lo, aproximou-se da cama de Helena e abaixou-se ao lado, ajeitou delicadamente a manta.

— Boa noite, minha querida — sussurrou, beijando-a por cima do cobertor.

Helena não respondeu, mas a respiração trêmula denunciava sua necessidade desesperada por amor.

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