Mundo de ficçãoIniciar sessãoApós o jantar, assim que as crianças saíram da presença do pai, elas subiram as escadas correndo, quando chegaram no quarto Maria Clara já as esperava.
As camas já estavam arrumadas e os pijamas em cima de cada uma delas.
— Chegaram. Agora vamos nos preparar para dormir. Escovar os dentes e trocar de roupa e se quiserem posso contar uma história para vocês.
— História para dormir é coisa de criancinha. — Helena a olhou com pouco caso e pegou o celular, já havia um tempo que ela não jogava. Ela foi para a cama e deitou com o aparelho na mão desafiadora.
Maria Clara apenas sorriu. Helena esperava que ela fosse mandar largar o celular e a obedecer, em vez disso, ela virou-se para Thomas.
— Você quer que eu conte uma história pra você? — Perguntou ela se abaixando para ficar na altura do menino.
Ele fez um gesto com a cabeça de negativo.
— Você pode cantar outra música? — A voz do menino era um fio e sempre que falava parecia ter medo.
— Mas é claro que posso. Mas primeiro vamos escovar os dentes e trocar de roupa.
O menino assentiu e sem olhar para Helena, foram para o banheiro. Assim que eles entraram Helena que jogava aparentemente concentrada no celular, ficou olhando para o banheiro e ouvindo a voz suave de Maria Clara que ensinava Thomás a escovar os dentes.
Logo que retornaram, Maria Clara ajudou Thomas a se trocar.
Helena percebeu como Maria Clara fazia diferente das outras babás, ela parecia carinhosa com Thomas.
— Você vai mesmo cantar? — Perguntou ela.
— Sim vou, mas antes nós vamos rezar.
— Rezar?
Os dois pareceram surpresos. Nunca tinham rezado antes, nem sabiam o que era.
— Nunca ninguém rezou com a gente. — Disse Helena. — É chato.
— Como você sabe que é chato, se nunca rezou antes?
Helena deu de ombros.
— Vai demorar? — Perguntou ela curiosa.
— Não. É rapidinho.
— E como a gente faz? — perguntou Thomas, também curioso.
— Eu aprendi desde pequenininha, menor que o Thomas. Primeiro a gente se ajoelha perto da cama assim.
Maria Clara se ajoelhou e Thomas fez igual, Helena permaneceu sentada.
— Depois a gente junta as mãozinhas assim.
Maria Clara juntou as mãos e fechou os olhos.
“Obrigada Papai do céu pelo dia de hoje, que amanhã seja melhor que hoje e me proteja durante o meu sono. Amém”
— Só isso? — perguntou Helena.
— Hoje só. Depois eu ensino vocês a rezar o Pai Nosso e a Ave Maria.
— A gente já ouviu, mas não sabemos falar.
Maria Clara sorriu.
— Não tem problema, eu ensino a vocês, tudo bem?
Thomas assentiu, já que tinha sido rápido.
— Agora você pode cantar? — Perguntou ele tímido.
— Claro. Você quer ouvir também, Helena?
A menina assentiu.
— Mas você tem que escovar os dentes primeiro. — Disse Thomas
— Quer que eu a ajude? — Perguntou Maria Clara ao ver que a menina estava dividida entre se mostrar rebelde e obedecer.
— Não precisa. Já sou grande.
Helena foi para o banheiro com o rosto fechado, mas era nítido que ela queria ouvir Maria Clara cantando de novo.
Assim que ela voltou com a cara amarrada, Maria Clara com paciência e carinho ajudou ela a colocar a camisola.
Depois os dois irmãos sentaram um do lado do outro da cama e Maria Clara na outra.
Ela encheu os pulmões, sua voz encheu o quarto com uma doçura inesperada. Era uma canção antiga, quase perdida no tempo, uma dessas que as freiras cantavam ao anoitecer, como se quisessem acalmar o mundo.
Helena tentou resistir. Mas, pouco a pouco, a barreira invisível dela foi caindo.
Thomas levantou e sentou ao lado de Maria Clara, deitou a cabeça no colo dela, a música os envolveu como um abraço.
Quando Maria Clara terminou, o silêncio que ficou não era vazio. Era um silêncio quente, de coração aquecido, como se aquele quarto tivesse sido banhado de luz.
— É… bonita mesmo… — murmurou Helena, a voz triste de uma criança que era ignorada. — Você canta… bonito… como… — sua expressão se perdeu por um instante, até que ela encontrou a palavra, trêmula — …mamãe.
A frase caiu suave, mas feriu fundo. Maria Clara respirou devagar, guardando o impacto para si.
Thomas, se inclinou ainda mais sobre o colo dela. Maria Clara afagou seus cabelos com carinho, e ele finalmente cedeu ao descanso, a respiração ficando lenta e profunda.
Um aperto doce e triste tomou o peito dela.
Helena, tentando esconder as lágrimas com um gesto rápido, acabou vencida pela própria carência. Aproximou-se, deitou-se devagar no outro lado do colo de Maria Clara e suspirou, entregando-se àquele afeto tão raro.
Maria Clara ficou ali, com os dois aninhados como passarinhos buscando calor. Acariciava um e outro, desenhando círculos leves com os dedos, enquanto o ambiente inteiro parecia respirar afeto pela primeira vez.
Foi então que uma batida suave na porta.
— Entre — disse ela, num sussurro.
A porta abriu devagar e Álvaro entrou.
Ele parou na soleira. Seus olhos se fixaram na cena: Helena e Thomas, ambos refugiados no colo de Maria Clara, quietos e tranquilos.
A expressão dele mudou. Algo duro se acendeu por trás do olhar. O maxilar se contraiu. O corpo inteiro pareceu tensionar-se, como se um golpe inesperado tivesse sido desferido.
— Senhor Alencastro — sussurrou Maria Clara, surpresa.
Ele recompôs a postura e avançou dois passos com sua habitual frieza elegante.
— Vim dar boa-noite às crianças.
Nenhuma emoção na voz. Nada que lembrasse um pai.
— Papai!
Helena se apressou, quase caindo ao se levantar do colo de Maria Clara. Correu para a cama e deitou, ajeitando-se depressa, ansiosa por atenção, mesmo que fosse pouca.
Álvaro se aproximou. Tocou de leve a cabeça da menina; tão leve que parecia medo, não carinho.
Helena encolheu-se sob o gesto, mas seus olhos brilhavam com o pedido que ela não ousava declarar.
— Boa noite, Helena.
— Boa noite… papai.
Ele então olhou para Thomas, ainda dormindo nos braços de Maria Clara.
— Vejo que conseguiu fazê-lo dormir antes de eu lhe dar boa-noite.
— Ele estava muito cansado — respondeu ela, procurando manter a voz firme.
Álvaro apenas assentiu, o olhar voltando a se endurecer.
— Boa noite, senhorita Duarte.
— Boa noite, senhor.
Ele hesitou um segundo antes de virar-se. Mas algo a porta fechou atrás dele.
Maria Clara ficou olhando a madeira escura por longos instantes.
Aquele homem… havia uma dor ali. Uma sombra que ele não deixava ninguém ver.
Quando voltou os olhos para Helena, percebeu que a menina havia puxado a manta cobrindo o rosto. Mas o leve tremor dos ombros a entregou.
Helena estava chorando em silêncio.
Maria Clara colocou Thomas na cama com cuidado e depois de cobri-lo, aproximou-se da cama de Helena e abaixou-se ao lado, ajeitou delicadamente a manta.
— Boa noite, minha querida — sussurrou, beijando-a por cima do cobertor.
Helena não respondeu, mas a respiração trêmula denunciava sua necessidade desesperada por amor.







