Primeiro Contato

O trigésimo andar exalava um perfume de couro italiano e sucesso financeiro, um contraste absoluto com o aroma de ozônio e café requentado do departamento de TI. Anne caminhava com passos decididos, mas discretos, sentindo a maleta de ferramentas pesar levemente em sua mão direita. Ela parou diante das portas duplas de jacarandá da sala da presidência. A secretária executiva, uma mulher de postura impecável chamada Clarice, apenas assentiu, indicando que a entrada de Anne já havia sido autorizada pelo sistema.

— Ele está em uma conferência com Londres, mas o hardware está apitando. Entre em silêncio — sussurrou Clarice.

Anne respirou fundo, empurrou a porta e entrou. A sala era vasta, com janelas do chão ao teto que emolduravam o horizonte de São Paulo como uma pintura viva. No centro, atrás de uma mesa de vidro maciço que parecia flutuar, estava Nicholas. Ele estava de pé, de costas para a porta, gesticulando enquanto falava em um inglês britânico perfeito e autoritário.

Mesmo de costas, a presença dele era esmagadora. Nicholas era alto, com ombros largos que preenchiam o corte impecável de seu terno grafite. Anne, no entanto, não tinha tempo para se intimidar pela aura de poder. Ela se ajoelhou rapidamente atrás da mesa, onde a torre do workstation emitia um bipe agudo e rítmico — o grito de socorro de um processador prestes a atingir o ponto de fusão.

— Eu não me importo com as projeções do terceiro trimestre, eu quero a execução do plano de fusão agora — a voz de Nicholas era profunda, um barítono que vibrava no ar denso da sala.

Anne ignorou a conversa e concentrou-se no hardware. Seus dedos agiram com a memória muscular de anos de prática. Com uma chave de fenda de precisão, ela removeu o painel lateral com um clique quase inaudível. O calor que emanava da máquina era evidente. O cooler principal estava travado, obstruído por uma pequena presilha plástica que se soltara do chassi.

— Atrasos não são uma opção — Nicholas continuava, sua voz subindo de tom. — Se a infraestrutura não suporta a carga, mude a infraestrutura.

Anne sentiu uma pontada de ironia. Ele falava de infraestrutura global, enquanto ela, literalmente, segurava as entranhas da infraestrutura dele nas mãos. Com um gesto firme, ela removeu a obstrução e aplicou uma gota de lubrificante térmico de alta performance que trouxera. O ventilador voltou a girar, primeiro com um esforço rouco, depois em um zumbido suave e constante.

— London, hold on a second — Nicholas disse abruptamente.

O silêncio que se seguiu foi mais alto que o barulho da cidade lá fora. Anne sentiu os pelos da nuca se arrepiarem antes mesmo de levantar os olhos. Nicholas havia desligado o microfone e se virado. Ele estava apoiado na borda da mesa, olhando-a de cima.

Seus olhos eram de um cinza gélido, mas penetrante, emoldurados por sobrancelhas densas que no momento estavam franzidas em sinal de estranhamento. O rosto era uma escultura de ângulos duros, com uma linha de mandíbula que parecia cortada em pedra.

— Você deve ser o "suporte técnico" — ele disse, com um tom que flutuava entre a impaciência e a curiosidade.

Anne levantou-se com elegância, sem perder a compostura, limpando as mãos em um pano de microfibra. Ela sustentou o olhar dele, algo que poucas pessoas na empresa ousavam fazer.

— Anne, da infraestrutura de sistemas — respondeu ela, mantendo a voz firme e profissional. — O cooler do seu workstation estava travado por uma falha de montagem mecânica. O processador estava a cinco graus do desligamento térmico de emergência.

Nicholas arqueou uma sobrancelha. Ele esperava um técnico trêmulo apresentando desculpas por um sistema lento, não uma mulher jovem, de olhar inteligente e respostas diretas que parecia não se abalar com sua figura.

— Cinco graus? — ele repetiu, dando um passo em direção a ela. O espaço pessoal entre eles encolheu drasticamente. — E por que ninguém previu que o hardware da presidência era "mal montado", Anne da infraestrutura?

— Porque a maioria das pessoas se preocupa com o software que aparece na tela, senhor — Anne retrucou, guardando a chave de fenda na maleta. — Poucos se dão ao trabalho de olhar o que acontece sob o capô até que as coisas comecem a queimar. Eu vi o alerta no log de temperatura e decidi intervir antes que o senhor perdesse o acesso durante sua conferência.

Houve uma pausa longa. Nicholas a estudou, descendo o olhar para o crachá e depois voltando para os olhos dela. Havia algo nela que não se encaixava no padrão corporativo submisso que ele estava acostumado a gerir. Era uma mistura de competência técnica bruta com uma dignidade silenciosa.

— Você salvou minha reunião com o conselho — Nicholas disse, sua voz perdendo a aspereza inicial, embora ainda mantivesse a autoridade. — Eu odeio interrupções.

— Então temos algo em comum — Anne comentou, fechando a maleta com um estalo metálico. — Eu odeio sistemas ineficientes. Se o senhor me der licença, o acesso está restaurado e a temperatura está normalizada.

Ela deu um passo para o lado, pretendendo sair, mas ele se moveu ligeiramente, bloqueando seu caminho de forma quase inconsciente.

— Espere. Como você disse que se chama?

— Anne. Anne Williams.

— Williams — ele repetiu o nome, como se estivesse testando o peso da palavra. — Paulo nunca me mencionou que tinha alguém do seu calibre no subsolo.

— Paulo prefere relatórios de progresso a resoluções de problemas, senhor. Eu prefiro o contrário.

Um lampejo de algo que poderia ser um sorriso surgiu no canto dos lábios de Nicholas — um movimento tão rápido que Anne quase acreditou ter imaginado. Ele era um homem moldado pelo controle, e aquela breve interação estava, de alguma forma, fora de seu script habitual.

— Eu notei — Nicholas disse, sua voz agora mais baixa, quase íntima. — Pode ir, Williams. Mas mantenha um olho nesse sistema. Não quero ver o bipe de erro novamente.

— O sistema não voltará a falhar enquanto estiver sob minha supervisão — Anne garantiu, encarando-o uma última vez.

Ela caminhou em direção à porta, sentindo o olhar dele queimando em suas costas como o calor que acabara de dissipar do computador. Ao sair para o corredor climatizado, Anne percebeu que suas mãos estavam levemente trêmulas. Não era medo — ela já enfrentara crises de sistema muito mais graves — era algo elétrico, uma tensão que não pertencia ao mundo dos circuitos e códigos.

Dentro da sala, Nicholas permaneceu imóvel por um momento, olhando para o lugar onde ela estivera ajoelhada. Ele sentiu o cheiro sutil de baunilha misturado ao álcool isopropílico que pairava no ar. Era um contraste estranho, assim como ela. Nicholas voltou para sua conversa com Londres, mas sua mente, pela primeira vez em anos, não estava focada nos números da fusão.

"Anne", ele pensou, ligando o microfone novamente.

Ele percebera a técnica discreta dela — não apenas na forma como consertara a máquina, mas na maneira como se portara diante dele. O workstation agora estava silencioso, funcionando de forma impecável graças ao toque dela. Nicholas, porém, percebeu que sua própria calma habitual havia sofrido um leve, mas significativo, superaquecimento. A interrupção que ele tanto odiava acabara de se tornar a parte mais interessante do seu dia, deixando uma marca que nenhum reset de sistema seria capaz de apagar.

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