Mundo de ficçãoIniciar sessãoO ambiente de trabalho, que antes era um cenário de lógica pura para Anne, transformara-se em um campo minado de estímulos sensoriais. Cada vez que ela digitava o nome de Nicholas no diretório da empresa para encaminhar um log de erro, a ponta de seus dedos parecia queimar. Ela se pegava divagando durante as longas compilações de dados, imaginando como seria o toque dele sem as camadas de lã e seda que os separavam no escritório. A imagem dele retirando o pulôver de cashmere naquela noite no café voltava como um loop de vídeo em sua mente, processando em segundo plano enquanto ela fingia analisar vulnerabilidades de rede.
A tensão no andar da tecnologia era quase palpável. Anne mantinha os olhos fixos nos monitores, mas seus ouvidos estavam sintonizados na frequência dos elevadores. Ela conhecia o som sutil do elevador privativo da presidência; era um acorde metálico específico que fazia seu estômago dar um solavanco antes mesmo de as portas se abrirem. Nicholas, por sua vez, habitava um estado de inquietação produtiva. Ele assinava contratos milionários e liderava conferências globais, mas sua mente era uma aba de navegador que ele não conseguia fechar, constantemente exibindo a imagem de Anne concentrada, com aquela mecha de cabelo rebelde caindo sobre o rosto. Ele passara a usar o sistema de mensagens instantâneas da empresa, o CorporateLink, com uma frequência que não condizia com sua posição. — Williams, a latência no módulo de segurança da nuvem subiu 0.5ms — escreveu ele em uma tarde chuvosa, as palavras aparecendo na tela de Anne em uma janela de chat privada. — Estou ciente, senhor. O tráfego de saída está pesado devido ao backup mensal — ela respondeu rapidamente, o coração batendo contra as costelas. — Talvez o sistema precise de uma intervenção manual — Nicholas digitou. Após um segundo, ele adicionou: — Ou talvez eu só queira um motivo para ver se você ainda está usando aquele perfume de baunilha que me distraiu na última reunião. Anne parou de digitar. O cursor piscava na tela, um pequeno traço vertical esperando por uma resposta que atravessasse a barreira do decoro. Ela olhou ao redor; Marcos estava absorto em um jogo de código e Paulo discutia prazos ao telefone. — O perfume é o mesmo — ela escreveu, sentindo uma audácia perigosa correr por suas veias. — Mas os protocolos de segurança foram reforçados. Sugiro que o senhor não tente forçar a entrada. — Eu sempre prefiro encontrar vulnerabilidades do que usar a força bruta, Anne — veio a resposta dele, quase instantânea. — É mais satisfatório quando o sistema decide se abrir por vontade própria. Ela fechou a janela do chat com o rosto ardendo. O desejo entre eles não era mais apenas uma possibilidade teórica; era uma infecção que se espalhava pelos servidores da empresa, codificada em metáforas técnicas e subentendidos eletrizantes. A noite não trazia alívio. No isolamento de seu apartamento, Anne fechava os olhos e se via novamente na sala de Nicholas. Em sua fantasia, as luzes da cidade eram a única iluminação enquanto ele se aproximava dela por trás. Ela conseguia sentir o calor de sua respiração em seu pescoço, o contraste de suas mãos grandes contra a pele de seus ombros. No sonho acordado, não havia Paulo, não havia conselho de administração, não havia o medo de perder a carreira. Havia apenas a colisão inevitável de dois corpos que vinham se atraindo como partículas em um acelerador. Nicholas também lutava contra suas próprias projeções. Ele se via retirando o crachá de Anne, um gesto simbólico de despojar as identidades corporativas, deixando apenas a mulher determinada e brilhante que o desafiara desde o primeiro dia. Ele imaginava o som da risada dela em um ambiente que não fosse um café escondido ou uma sala de TI. A repressão exercida pelo firewall emocional apenas servia para aumentar a pressão interna. Cada mensagem trocada, por mais trivial que parecesse, era uma carícia digital, um teste de resistência das paredes que tentavam manter. As trocas sutis continuavam ao longo da semana. Um comentário em um documento compartilhado, um olhar prolongado por cima da xícara de café na cafeteria comum, um ajuste desnecessário no nó da gravata de Nicholas quando ele a via passar pelo corredor. Eram migalhas de intimidade que sustentavam uma fome crescente. Eles estavam operando em uma rede paralela, onde cada "bom dia" carregava o peso de uma promessa e cada silêncio era uma confissão de desejo. Anne percebia que Nicholas estava perdendo a batalha contra a distância. E ela, apesar de todos os seus avisos lógicos, estava permitindo que as portas dos fundos de sua vontade permanecessem entreabertas. Eles eram como dois hackers tentando invadir o sistema um do outro, cada um consciente das defesas do oponente, mas fascinado pela complexidade do que encontrariam se conseguissem romper a última camada. O desejo contido atingira o ponto de saturação; a fantasia já não bastava mais para alimentar os códigos e os olhares. O sistema estava pronto para o próximo nível, e nenhum dos dois teria força para cancelar o comando quando o encontro inevitável finalmente acontecesse.






