O CEO Viúvo e a Bailarina
O CEO Viúvo e a Bailarina
Por: Ana Fischer
1.

As cortinas ainda estavam fechadas. A plateia aguardava em um silêncio sepulcral. Atrás de Sophia, os demais bailarinos se concentravam para o início do primeiro ato. Suas expressões eram um misto de nervosismo e empolgação: alguns tinham as sobrancelhas tensas enquanto sorriam, outros desviavam os olhos para as próprias sapatilhas e a maioria mantinha a cabeça erguida, embora houvesse um toque de aflição em seus semblantes.

Era o primeiro ato de Sophia como Aurora, a protagonista de A Bela Adormecida, um dos espetáculos mais clássicos da história do ballet. Aos vinte e dois anos, ela havia conquistado o impossível: estava prestes a se apresentar como primeira bailarina na Ópera de Paris. Trocar todo o tempo livre por ensaios exaustivos tinha valido a pena. 

— Trinta segundos! — Alguém falou nos bastidores.

Sophia fechou os olhos e se lembrou da mãe, que sempre dizia que dançar ballet era como respirar depois de muito tempo de fôlego preso. Sentiu o coração doer e um nó se formar na garganta. Daria tudo para que sua mãe pudesse vê-la ali, no palco, pronta para conquistar o mundo com a ponta de seus pés. Mas Joanne tinha falecido em um acidente de carro há oito anos.

As luzes se acenderam. A cortina abriu. O medo desapareceu.

E naquele momento, foi como se só existissem a música da orquestra, o palco e o corpo se movendo com a leveza de uma pluma. O sorriso de Sophia nunca foi tão verdadeiro. Ela sabia que todos os olhares a acompanhavam, mas se sentia confiante. E viva. Havia se esforçado muito. Merecia brilhar diante de todos.

Estava quase na metade do solo quando aconteceu.

Seu pé escorregou.

Não houve tempo para reagir. O impacto contra o palco roubou o ar de seus pulmões. A música parou. Sussurros incrédulos ecoaram na plateia. O mundo perdeu os contornos, embaçado pelas lágrimas de humilhação que escaparam dos olhos azuis. Alguém gritou: “Não pode ser! Sophia Dashwood!” Ela reprimiu um soluço.

Diante de centenas de pessoas, Sophia soube que sua breve carreira tinha acabado.

--- Nova York, cinco anos depois

— Na pontinha do pé, Melissa.

A menina tentou novamente, mas se desequilibrou e quase caiu no chão. No entanto, em vez de fechar a cara, ela soltou uma risada sapeca que preencheu todo o estúdio. As outras pequenas bailarinas riram junto. Nem Sophia conseguiu se segurar. Dar aulas de ballet para crianças era sempre uma delícia.

— Está tudo bem, Melissa. Cair faz parte — disse descontraída.

Mas assim que pronunciou as palavras, seu sorriso desapareceu.

Uma queda havia arruinado sua carreira.

— Vamos tentar de novo.

As cinco alunas repetiram os movimentos. Quatro delas ainda eram um tanto desajeitadas, mas uma demonstrava bastante talento. Quando Sophia observava Alice dançar, lembrava-se dos vídeos de suas apresentações de infância. Se a menina quisesse levar o ballet a sério e tivesse incentivo da família, poderia se tornar uma grande bailarina.

Assim que a aula terminou e a música foi desligada, as garotinhas correram pelo estúdio, suas sapatilhas fazendo barulho no piso de madeira. Elas abraçaram e beijaram a professora antes de dispararem para a recepção, onde seus responsáveis as aguardavam.

Sophia sentiu uma pontada de melancolia quando o silêncio substituiu o som das risadas infantis.

Quando a última aluna foi embora, ela caminhou lentamente pelo estúdio. Notou que as barras já estavam gastas pelo tempo. O espelho possuía uma rachadura discreta na parte de cima, à direita. E havia um pouco de pintura descascando perto da janela. Ainda assim, aquele espaço era perfeito aos seus olhos.

O nome “Studio de Ballet Joanne Dashwood” era uma homenagem à sua mãe, que lhe ensinara os primeiros pliés e incentivara seu sonho.

Sophia soltou o cabelo do coque. Os fios loiros e lisos caíram em cascata até sua cintura, espalhando o cheiro cítrico do shampoo no ambiente. 

Foi até o balcão da recepção e abriu a gaveta. O aluguel estava três meses atrasado. A água e a energia haviam aumentado. Suspirando, pegou a calculadora para fazer as contas. Era a terceira vez no dia que conferia os números. O resultado continuava o mesmo. Se não encontrasse uma solução, o estúdio ia falir em poucos meses.

A campainha tocou.

Sophia ergueu a cabeça e viu uma mulher entrar. Ela usava um terno elegante e não segurava a mão de nenhuma criança. Seus cabelos castanhos estavam presos em um coque arrumado. Um batom rosé discreto realçava seus lábios.

— Boa tarde. Você é Sophia Dashwood?

— Sim.

A mulher colocou um envelope no balcão.

— Preciso que assine o recebimento — disse com frieza.

— O que é isso? — Sophia franziu o cenho.

— Notificação extrajudicial.

O coração deu um salto doloroso.

Tentando controlar o tremor das mãos, a professora abriu o envelope. Só teve coragem de ler a primeira linha. “Prazo para regularização do aluguel.” Engoliu em seco. Sabia que aquele momento chegaria, mas não imaginava que fosse agora. Piscou os olhos algumas vezes, como se esperasse acordar de um pesadelo. Por um momento, tudo pareceu distante demais.

— Boa sorte. — A mulher forçou um sorriso e se retirou.

Nem um minuto havia se passado quando o celular de Sophia vibrou sobre o balcão. Ela atendeu sem hesitar.

— Pois não?

— Senhorita Sophia Dashwood?

— Sou eu.

— Acredito que, a essa altura, você já tenha sido notificada. Estou ligando para reafirmar que o prazo de pagamento não poderá ser descumprido. Caso o dinheiro não caia em nossa conta, iniciaremos o processo de despejo.

Sophia fechou os olhos e apertou o pingente de sapatilha preso à gargantilha dourada; uma herança de sua mãe.

Surpreendeu-se ao perceber que perder a escola ia doer tanto quanto perder o palco.

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