Ele na minha porta

O corredor silencioso do laboratório parecia ainda ecoar os passos de Carlos, que deixava mais um dia de trabalho na CruzPharma Scientific para trás. Ele afrouxou a gravata, respirou o ar e caminhou até o carro, finalmente sentindo o peso das horas se dissipar.

Assim que entrou, jogou o crachá no banco do passageiro e ligou o motor. O visor do celular iluminou-se. Ele hesitou um instante — mas sabia que precisava avisar Alejandro. “Melhor ele saber por mim do que interpretar tudo errado…”, pensou.

Discou.

Alejandro? — disse quando o amigo atendeu. — Acabei de falar com a Laura. Ela… recusou o convite.

Do outro lado da linha houve um silêncio breve, mas carregado.

— Recusou? — a voz de Alejandro não demonstrava raiva, apenas um interesse mais profundo.

— Sim. — Carlos ajeitou-se no banco, tentando organizar as palavras. — Acho que ela não gosta de holofotes… sabe? Ela é tímida. Muito. Uma garota simples. Você sabe como é.

Alejandro soltou um riso baixo, quase incrédulo.

Simples? Carlos, ninguém é tão simples quanto você acredita. E a timidez… — ele deu outra risada curta.

Carlos franziu o cenho, já prevendo problemas.

— Estou falando sério. Ela não se sente confortável com destaque, com exposição. Acho que para ela o convite foi… demais.

— Ótimo — disse Alejandro, com naturalidade demais. — Então vou ver ela pessoalmente.

Carlos respondeu  — Você quem sabe senhor.

 Alejandro respondeu com uma calma: — Se ela não for quem eu acho que é.

— Obrigado por avisar.

E desligou.

Anoiteceu…

A frente do prédio estava quase deserta quando Alejandro a viu sair Cortexa BioLabs a concorrente de sua empresa. Laura não sabia — não fazia ideia — que ele estava ali, parado na sombra, dentro do carro, encostado como se tivesse todo o tempo do mundo.

Ele esperou ela sair.

Ela atravessa a rua com o avental branco e seu coque desarrumado prendendo seus cabelos loiros. Laura não morava longe do laboratório, mas ele a seguiu de longe, apenas o suficiente para não perder seus passos — queria saber onde ela vivia.

Quando ela entrou no prédio, Alejandro estacionou do outro lado da rua, observando. Viu Laura entrar no elevador pequeno, subir até o quinto andar. Depois, esperou alguns minutos antes de atravessar.

Lá dentro, Laura já estava exausta demais para pensar em qualquer coisa. Abriu a porta do apartamento, jogou a bolsa no sofá e respirou aliviada.

Pensando:  Preciso de um banho.

A campainha tocou.

Três toques curtos, firmes… como se quem estivesse do outro lado soubesse exatamente o que queria.

Laura levou um susto, quase deu um pulo — não esperava ninguém.

Ainda com a mão na maçaneta, foi até o olho mágico.

E então ela viu.

Alejandro.

Meu Deus… não pode ser.

Quando olhei pelo olho mágico, meu corpo inteiro congelou. Era ele. Ele. O homem que eu tinha recusado, o homem que estava a um oceano de distância do meu mundo… parado ali, diante da minha porta, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Meu primeiro pensamento foi:

“O que ele está fazendo aqui?”

E o segundo foi:

“Como ele me encontrou?”

Quase tropecei para trás, bati a mão no peito tentando controlar a respiração. Ele levantou o rosto na direção da porta, como se soubesse que eu estava ali observando. E sorriu. Aquele sorriso perigoso, carregado de certeza… e de uma ousadia.

Laura… eu sei que você está aí. — ele disse, com a voz grave que atravessou a porta e atingiu direto meu estômago. — Podemos conversar?

Eu fechei os olhos.

Não, não, não. Isso não está acontecendo.

Abri os olhos novamente.

Sim. Estava acontecendo.

Eu fiquei parada ali, minha mão suando na maçaneta, o coração batendo tão alto que podia ser ouvido no corredor. Nunca imaginei que ele — Alejandro — fosse capaz de vir pessoalmente atrás de mim. Achei que Carlos estivesse exagerando quando disse que ele era insistente.

Mas agora…

Ele estava no meu corredor. Na minha porta. Me esperando.

E eu ainda não sabia se queria fugir…

…ou abrir a porta.

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