Manchete do Dia

A luz da manhã atravessava as frestas da cortina como pequenas facas brilhantes, me fazendo gemer e apertar a cabeça. A ressaca era o preço pela comemoração exagerada de Cristina — e por algumas taças de espumante que eu juro que não pedi. Ou pelo menos… não lembro de ter pedido.

Levantei de mau humor, prendi meu cabelo loiro e longo num coque apressado e vesti o jaleco branco por cima da roupa simples. O laboratório me esperava, e eu não podia chegar atrasada. Nunca podia.

Saí apressada, caminhando pelas ruas ainda sonolentas do bairro. O ar fresco da manhã ajudava a clarear minha mente… até que algo me fez parar, como se eu tivesse trombado com uma parede invisível.

Eu olhei.

E con-ge-lei.

Na banca de jornal da esquina, em letras enormes:

“Alejandro Cruz González — O Solteirão do Ano.”

Mas não foi isso que fez meu coração falhar numa batida.

Foi a foto logo abaixo.

Eu.

Ao lado dele.

Meus olhos se arregalaram. Aquela era exatamente a cena da noite anterior — o momento em que o fotógrafo pediu que nos aproximássemos. Eu lembrava nitidamente do calor dele ao meu lado… e agora parecia que o mundo inteiro podia ver isso também.

E, logo abaixo:

“Quem será a felizarda?”

Peguei a revista com as duas mãos, quase sem acreditar. Como se não bastasse, outro jornal ao lado trazia outra foto — o instante em que Alejandro segurou meu braço.

“Alguém tocou o coração do CEO CruzPharma Scientific ?”

— Ai, meu Deus… — sussurrei, sentindo o rosto esquentar.

— Vai levar, moça? — perguntou o jornaleiro, completamente alheio ao meu colapso interno.

— N-não… — balbuciei, devolvendo a revista com as mãos trêmulas.

Saí quase tropeçando nos próprios pés.

Eu?

Numa capa de revista?

Nunca, em toda a minha vida, imaginei algo assim.

Quando cheguei ao laboratório, percebi imediatamente que a bomba já tinha estourado. Assim que passei pela porta, meus colegas se voltaram para mim com celulares erguidos e sorrisos maliciosos.

— Olha quem chegou! A celebridade!

— Mexeu com o coração do poderoso Alejandro Cruz, hein?

— Vocês se conhecem mesmo? Conta tudo!

Soltei um suspiro profundo, largando a bolsa sobre a mesa.

— Gente, vocês estão impossíveis… Foi só uma foto. Um mal-entendido.

— Mal-entendido ou destino? — provocou uma das meninas, levantando a sobrancelha.

Revirei os olhos. Eu conseguia sentir meu rosto quente — e não era de ressaca.

De repente, meu celular começou a tocar sem parar.

— Ih, olha lá! O CEO bonitão já tá ligando! — zoou alguém, arrancando risadas gerais.

Revirei os olhos de novo.

— É a Cristina, seus curiosos — respondi, atendendo.

— LAURA! — a voz dela veio alta e empolgada. — Você viu a notícia?!

— Vi, sim. Está em todo lugar… até na banca da esquina — resmunguei.

— Amiga, eu não sabia que ele tinha gostado de você! — Cristina ronronou de provocação. — Aquela foto dele segurando sua cintura… meu Deus, até eu arrepiei!

Eu bufei.

— Cris, nós mal conversamos! Foi só uma foto. Nada pra virar fofoca nacional!

— Ah, mas o destino adora brincar com você, Laura… — provocou Cristina do outro lado da linha.

Antes que ela soltasse mais alguma tirada, soltei um suspiro pesado.

— Eu tenho trabalho, Cris. Depois a gente se fala.

Desliguei o celular quase com força e o deixei sobre a bancada, virado para baixo.

Meus colegas trocaram olhares cúmplices, aqueles sorrisos mal disfarçados que me deixavam ainda mais irritada. Fingi que não via nada e tentei mergulhar nos relatórios, nos gráficos, nos reagentes… qualquer coisa que me tirasse daquela capa de revista, daquele toque no braço, daquele olhar dele queimando na memória.

Algumas horas se passaram.

O laboratório voltou ao ritmo normal: pipetas, café amargo, códigos, resultados.

Eu quase consegui esquecer.

Quase.

Até que a porta se abriu.

— Laura — chamou a recepcionista, meio trêmula — tem um senhor procurando por você.

Levantei os olhos devagar, sem entender.

— Eu?

Ela assentiu, abrindo mais a porta.

E então vi um homem elegante surgir no corredor — terno impecável, óculos finos, a cabeça completamente lisa brilhando sob a luz fria. Ele tinha aquele ar de autoridade silenciosa, de quem estava acostumado a ser ouvido e não a esperar.

— Senhorita Pérez? — perguntou com educação.

— Sou eu — respondi, já desconfiada.

— Meu nome é Carlos — disse ele, inclinando levemente a cabeça. — Vim a pedido do senhor González.

Meu peito travou por um segundo.

— González…? — murmurei, franzindo a testa. — Como ele me achou?

— Sim. Alejandro González — confirmou com tranquilidade irritante. — Ele pediu que eu viesse convidá-la para almoçar. Negócios, segundo ele.

Meu estômago deu um nó tão forte que quase me dobrei.

— O quê? Um almoço? Com… o CEO?

Carlos sorriu, profissional e imperturbável.

— Exato.

Segurei na borda da bancada como se ela fosse me impedir de cair.

— Acho melhor não aceitar — consegui dizer, mesmo sentindo o coração martelar.

Atrás dele, a recepcionista arregalou os olhos e fez um gesto claro de “aceita, sua maluca”. Fingi não ver.

Carlos manteve o tom educado, mas havia algo firme — e levemente ameaçador — em sua voz.

— Senhorita, o senhor González não costuma lidar bem com recusas. Sinceramente, acredito que ele ficaria… desapontado.

Respirei fundo, sentindo o corpo todo formigar, uma mistura de pânico e… algo que eu não queria nomear.

— Pois então vai ter que ficar desapontado. Diga a ele que agradeço, mas estou ocupada.

— Tem certeza? — perguntou ele, genuinamente surpreso.

— Absoluta.

Virei as costas antes que ele pudesse argumentar mais e fechei a porta atrás de mim, o coração correndo uma maratona, o rosto quente.

Meus colegas me cercaram imediatamente, como abelhas atraídas por mel.

— Era o assistente dele, né?!

— Meu Deus, Laura, você recusou um almoço com Alejandro González?!

— Você tá brincando com a sorte, mulher?!

Passei as mãos pelo rosto, cansada.

— Eu não vou virar manchete de fofoca outra vez — murmurei, tentando soar firme.

Mas, enquanto falava…

Uma parte de mim — a parte que eu tentava calar desde a noite do hotel — sussurrou baixinho, imprudente:

E se ele não desistir tão fácil?

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