A proposta

Antes de abrir a porta, me vi refletida no espelho estreito do corredor — e quase levei outro susto.

Cabelo rebelde em modo ninho de passarinho, avental amassado do laboratório, rosto cansado de quem claramente não esperava visitas… muito menos Alejandro González na porta de casa.

Arranquei o avental num movimento quase dramático, soltei o cabelo e tentei domar os frizz com as mãos trêmulas — missão impossível, mas tentei.

Respirei fundo. Uma vez. Duas.

Postura, Laura. Postura.

Abri a porta tentando manter o mínimo de dignidade.

Ele não esperou convite.

Entrou. Seguro. Elegante. Com aquela presença irritantemente confiante que fazia meu apartamento parecer menor.

— O que você quer? — perguntei rápido, antes que meu nervosismo resolvesse falar por mim.

— Boa noite, Laura — disse ele, numa voz baixa e sedutora, como se estivesse me tocando só por dizer meu nome. — Quero falar com você.

Senti tudo ao mesmo tempo: medo, vergonha… e uma vontade absurda de mandar ele embora e ao mesmo tempo pedir para ficar.

Respirei fundo outra vez, endireitei os ombros e forcei a versão mais educada — e bem-criada — de mim mesma.

— Boa noite, senhor González — respondi, firme, apesar do coração acelerado.

Olhei direto para ele, sem sorrir. — Como você achou o meu endereço?

Por dentro, eu já sabia: aquela visita não ia ser simples. E definitivamente não ia acabar rápido.

Ele fechou a porta com calma, como se aquele gesto já fosse um aviso silencioso de que eu não tinha mais para onde correr.

Encostou-se nela, o olhar firme demais para um apartamento tão pequeno.

— Eu simplesmente sei onde você mora, Laura — disse, num tom tranquilo que só conseguiu me irritar ainda mais. — Quando eu quero algo… eu consigo.

Revirei os olhos, tentando não demonstrar o impacto daquilo. Claro, pensei. Rico, poderoso, acostumado a ter tudo na palma da mão. Inclusive endereços alheios.

— Isso não é exatamente reconfortante — murmurei.

Ele deu um meio sorriso, daqueles perigosos, e deu alguns passos na minha direção. Meu coração decidiu entrar em maratona sem aviso prévio.

Engoli em seco. Antes que ele dissesse qualquer outra coisa, as palavras escaparam de mim, atropeladas pela culpa que eu vinha carregando desde o hotel.

— Se… se for sobre aquela noite — comecei, tropeçando nas próprias frases — eu juro que não sabia quem você era. Eu estava bêbada, confusa… e não agi como normalmente sou.

O silêncio se instalou por um segundo que pareceu longo demais.

Então Alejandro González sorriu de canto.

Foi um sorriso lento, calculado. Um sorriso que deveria vir com aviso de risco.

— Eu percebi que você não me reconheceu — respondeu, a voz baixa, carregada de algo que me deixou sem ar. — E isso… — ele fez uma breve pausa, os olhos percorrendo meu rosto como se revisse a cena inteira — sinceramente tornou tudo ainda mais interessante.

Meu estômago deu um salto. Meu corpo inteiro lembrou antes da minha cabeça.

Ele se afastou um pouco, como se tivesse controle absoluto da situação. Como se soubesse exatamente o efeito que causava.

— Mas não vim aqui para falar daquela noite — completou, com naturalidade.

Franzi a testa, completamente confusa.

— Não?

Se não era sobre o hotel…

Se não era sobre nós dois dividindo uma cama, um erro, uma coincidência absurda…

Eu o encarei, confusa. Se não era sobre aquilo… então sobre o quê?

Ele me encarou, sério agora, e pela primeira vez desde que entrou ali, senti que algo grande — e perigoso — estava prestes a cair no meu colo.

Alejandro caminhou até o meu sofá e sentou-se como se fosse a casa dele. Depois bateu na almofada ao lado, indicando o lugar.

— Senta aqui, Laura.

Sentei. Meio rígida, meio perdida. As mãos se esfregando nervosas no colo. Ele observava tudo — meus gestos, minha respiração, meu desconforto — como se estivesse analisando um experimento vivo.

Então disse, direto:

— Laura… tenho uma proposta para você.

Meu coração parou. Literalmente parou.

Olhei para ele assustada, mas também… inquieta. Curiosa.

Ele continuou, sem cerimônia:

— Preciso de uma esposa.

Eu o encarei, em choque.

Esposa?

A palavra ecoou dentro de mim como se tivesse explodido na sala.

Ele recostou no sofá, abriu um sorriso lento — aquele sorriso perigoso que parecia saber demais — e respondeu com a maior naturalidade do mundo:

— Sim, precioso. Me casar.

A voz dele saiu cheia de segurança, quase um deboche elegante.

— Faz um ano que fiquei viúvo… e desde então não tenho um minuto de paz. A mídia, os jornais, todos vivem decidindo minha vida por mim. “Quem será a sortuda?”, “O solteirão mais cobiçado do ano”… — ele revirou os olhos, impaciente. — Como se eu fosse um prêmio sendo disputado.

Ele ergueu o queixo, num gesto tão típico dele — altivo, confiante, como se fosse dono do ambiente.

— E aí você aparece. Você, que naquela noite não fazia ideia de quem eu era.

Ele sorriu, satisfeito, tocando o próprio peito com arrogância suave.

— Ficou comigo sem os títulos, sem manchetes, sem bajulação. Só… comigo.

Os olhos dele baixaram para minha boca por um segundo, como se lembrasse exatamente de tudo.

— E eu não me sentia tão bem há muito tempo.

A inclinação do sorriso aumentou, sedutora e provocadora.

— Imagino que você também tenha… apreciado. Afinal, era o seu aniversário.

Ele disse isso como se tivesse certeza absoluta de que eu tinha gostado.

Como se fosse impossível não gostar.

Eu ainda estava atordoada, completamente incapaz de acompanhar a velocidade com que tudo acontecia. Ele falava… e eu só conseguia olhar para aquela boca arrogante, aquele olhar escuro que parecia atravessar qualquer defesa que eu tentasse criar.

E então, sem pensar, as palavras escaparam:

— Sim… gostei muito. Foi maravilhoso.

Assim que percebi o que tinha dito, fechei os olhos com força, como se pudesse arrancar a frase do ar. Quando os abri, Alejandro estava me observando com aquele sorriso… aquele maldito sorriso que deixava minhas pernas fracas.

— Não acredito que falei isso… — murmurei, envergonhada.

Ele inclinou a cabeça, divertido.

— O importante é que você gostou, Laura. — disse com aquele sorrisinho satisfeito, cheio de confiança masculina.

Eu queria me enfiar debaixo do sofá.

Mas ele continuou, como se estivéssemos discutindo algo tão simples quanto o clima:

— Enfim… preciso de uma esposa. — A naturalidade com que ele disse aquilo quase me fez engasgar. — Uma mulher ao meu lado, para calar a mídia e encerrar as especulações idiotas. A proposta é simples: você me acompanha em eventos, aparições públicas… fingimos ser um casal normal e feliz. Um contrato de um ano pelo menos, se precisar a gente renova.

Meu coração pulou no peito.

Ele prosseguiu, frio e objetivo:

— Não precisamos dormir juntos. Teremos quartos separados.

— “Dormir juntos”…? Minha mente deu um nó.

— Você receberá uma mesada generosa. Suficiente para não precisar trabalhar se não quiser. É uma negociação limpa, clara… vantajosa.

Ele me olhou, como se estivesse oferecendo o mundo.

— O que você acha?

Eu abri a boca. Fechei. Abri de novo.

Nada saiu.

Eu não conseguia responder. Não conseguia sequer respirar direito.

Alejandro percebeu — claro que percebeu — e sua expressão suavizou levemente. Então ele pegou uma caneta que estava na mesa de centro e escreveu numa revista velha o seu telefone.

 — Não precisa responder agora, esse número é meu particular.

Ele se levantou do sofá com aquela elegância irritante e sedutora. Caminhou até a porta, e eu fui atrás, quase hipnotizada, seguindo o rastro do perfume dele. Um perfume que, por si só, já me levava de volta àquela madrugada… ao meu aniversário… à pele quente dele na minha.

Quando ele já estava na porta, virou-se, me olhando com um brilho curioso, quase íntimo.

— Você contou para Cristina sobre nós ?

— Não. — respondi rápido demais.

O sorriso dele cresceu, satisfeito.

— Sabia que você seria inteligente.

E então abriu a porta e saiu.

Ficou o silêncio.

E eu… parada no meio da sala, abraçando o próprio corpo sem saber se ria, chorava ou arrancava os cabelos.

— O que está acontecendo? — sussurrei para mim mesma.

A risada veio sozinha, nervosa, quase desesperada.

— O que diabos está acontecendo comigo?

Porque, no fundo, eu sabia:

Nada na minha vida seria igual depois dessa noite. Ecoava na minha mente “Um contrato de um ano pelo menos, se precisar a gente renova”

Que coisa louca ! Meu Deus!!

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