9

Acordo com a cabeça explodindo em mil pontadas, a ressaca me consumindo como um fogo implacável. Levanto-me lentamente, o corpo pesado e cansado, mas nada disso importa - só existe uma coisa na minha mente, uma obsessão que queima tão forte que parece rasgar minha pele. Caminho até o banheiro em automático, cumpro a higiene com olhos vazios, tomo um banho rápido, mas a água escorrendo pelo meu corpo não apaga essa chama insaciável que arde no peito - ela está lá, pulsando, dominando cada pensamento. Vou à cozinha e encontro Camila preparando o café, seu olhar direto e aquela mistura de preocupação e provocação que só ela sabe ter. Minha irmã, que parece ler tudo sem dizer demais. Sento à mesa, mas minha mente está distante - perdida em pensamentos que só falam dela.

Ela solta, com um sorriso que carrega uma pitada de ironia:

—E aí, maninho, você chegou quebrado ontem, hein? Virado no último fio — diz Camila, servindo o café.

Não respondo. Mas quando o nome dela escapa da boca da Camila, é como se um trovão cortasse o silêncio da cozinha.

—Então, brigou com a Isa de novo? Ou melhor, bateu nela outra vez? — pergunta ela, com a voz carregada de reprovação.

O impacto dessas palavras reverbera dentro de mim. Por um instante, a dúvida até passa pela minha cabeça, mas logo dá lugar a outra coisa - não arrependimento, não fraqueza, mas uma chama intensa que consome: é desejo, é posse, é a certeza de que não vou deixar escapar o que é meu, custe o que custar.

Eu saio disparado, agarrando as chaves do carro que estão largadas em cima do sofá. Não perco tempo, arremesso a porta com violência e entro no carro. Ligo o motor e o ronco bruto invade o silêncio da manhã. O pé esmagando o acelerador sem piedade, cortando o asfalto como um animal em fúria. O sinal vermelho? Ignorado. Contra-mão? Uma mera distração para quem está pronto pra arrancar qualquer coisa que tente fugir.

Chego em casa como uma força que não pode ser contida. Desço do carro com passos largos e pesados, entro correndo, como um caçador atrás da presa.

—ALICE! ONDE VOCÊ ESTÁ? VOCÊ NÃO VAI ME ESCAPAR! — grito, minha voz como um trovão cortando o ar.

Procuro em cada canto. Ela não está no quarto. Na cômoda, a aliança dela reluz, fria e solitária, como um troféu que nunca deveria ter deixado escapar. Abro o guarda-roupa de um golpe, vasculho desesperadamente. Nada, nem uma roupa. O silêncio escuro grita em minha mente. Ando de um lado para o outro, as mãos pressionando a cabeça até sentir os ossos doerem, a raiva fermentando dentro do meu peito. A possessividade que sinto é uma tempestade - não há espaço para dúvidas ou remorsos, só um desejo bruto de tê-la de volta.

Olho para o espelho. Meu rosto está duro, olhos incendiados pela fúria. Num impulso, mando um soco no vidro. Ele estilhaça em mil pedaços, espalhando farpas pelo chão. Mas nada disso importa: a violência é só um reflexo do que arde dentro de mim. Não deixo nada inteiro - os móveis, as paredes, as coisas que nos pertenciam. Tudo vai pagar pelo que ela fez: fugir.

Caio no chão, encosto na parede, os punhos em volta da cabeça, enquanto meus pensamentos gritam o único nome que não sai da minha boca:

—Onde você foi se esconder, Alice? Você pode até tentar escapar, mas eu vou te encontrar — murmuro, com a voz rouca.

Fico ali no chão, o corpo rígido, a mente louca de obsessão. Não é arrependimento que me queima - é a fúria de perder o que é meu, o desejo de tê-la, de controlá-la, de mostrar que ninguém pode arrancar ela de mim. Eu não vou desistir. Por mais que ela tente, por mais que fuja, eu vou estar lá, em cada sombra da vida dela, até que ela volte aos meus braços.

Então ouço a voz de Camila, distante, mas firme, tentando me puxar de volta.

—Davi? — ela chama, com a voz preocupada.

Mas eu não quero ser puxado para a razão, quero a posse, a força, o domínio. Quero Alice, inteira, só minha. Minha respiração acelera, os olhos queimam, e eu sei: isso só está começando. Nada vai me parar. Porque ela é minha - e eu vou fazer com que ela saiba disso, custe o que custar.

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