Mundo de ficçãoIniciar sessãoAinda aflita, volto ao quarto, certificando-me de fechar a porta da varanda e trancá-la novamente. Pego o livro que Fernanda me deu e o coloco cuidadosamente na estante, tentando disfarçá-lo entre os outros, para que não chame a atenção de Davi.
Em seguida, pego a chave da varanda e a levo de volta para o closet. Subo na mesinha, estico o braço e a coloco no mesmo lugar de antes, em cima da caixa empoeirada. Me certifico de que está tudo exatamente como estava, para que Davi não perceba que mexi ali. Preciso ser cautelosa, discreta, quase invisível. Ele é muito observador, detalhista, e qualquer mudança, por menor que seja, pode levantar suspeitas. —Calma, Alice... calma — murmuro para mim mesma. Minha voz sai num sussurro que quase não consigo ouvir, perdido no silêncio do quarto. Os dedos se entrelaçam com força, apertando até sentir um leve formigamento na pele. O coração b**e tão forte que parece querer sair pela garganta - é um martelar rápido, descontrolado, como se estivesse prestes a confessar algo terrível, algo que pudesse me custar caro. Sei que não é nada disso, mas a ansiedade aperta o meu peito de tal forma que parece que sim. Estou tão nervosa... parece que estou cometendo um crime. Fecho os olhos e tiro uma respiração funda - tão profunda que sinto o ar enchendo meus pulmões, tentando acalmar o frio que percorre minhas costas. Controlo cada músculo, cada movimento, como se estivesse treinando para isso há anos. Devagar, solto o ar aos poucos, sentindo um pouco da tensão saindo com ele. Então, finalmente, me levanto e saio do quarto. Meus passos são leves, quase imperceptíveis, ao percorrer o corredor. Os pés parecem pesados mesmo assim, como se cada centímetro fosse uma batalha. Desço as escadas devagar, segurando na corrimão com uma mão trêmula. Passo pela sala, olhando rapidamente para o sofá onde ele costuma sentar à noite... já estou imaginando o rosto dele quando provar o que eu fiz. E vou para a cozinha. A luz da luminária de teto acende ao meu passar, iluminando cada canto do lugar que conheço como a palma da minha mão. Lá está a pia limpa, as panelas arrumadas e a bancada organizada. Eu preparei tudo para que ficasse perfeito. Sempre perfeito. —Tenho que preparar o jantar dele... tem que estar perfeito — digo em voz alta. A voz sai mais firme, mas há um tremor no final da frase. Meu olhar percorre a bancada, revendo cada detalhe. Ele só come da minha comida, do meu tempero - diz que ninguém mais sabe fazer as coisas do jeito que ele gosta. É uma coisa boa, eu sei, mas também é um peso enorme sobre os meus ombros. Se eu errar... se ele não gostar... Abro a geladeira e sinto o ar frio bater no meu rosto, fazendo-me estremecer por um instante. Vou preparar alguma coisa, mas naquele momento a minha mente está em branco, como se nunca tivesse cozinhado nada na vida. Meus olhos percorrem prateleira por prateleira - frango, carne, legumes, temperos... tudo ali, mas eu não consigo decidir. O medo aperta meu estômago: e se eu escolher errado? E se ele achar sem graça? E se disser que eu não me importo mais com ele? E então... —Já sei... vou preparar filé de frango à parmegiana. Davi vai gostar — digo, quase como um pedido, não uma afirmação. Pego os ingredientes um por um - o frango já cortado em bifes, a farinha, os ovos, o pão ralado, o queijo parmesão ralado fresco. Meus dedos tentam se concentrar na tarefa que conheço tão bem, que já fiz mil vezes antes. Mas as mãos tremem um pouco ao passar o frango na farinha, e eu tenho que segurar o prato com força para não derrubar nada. Cada movimento é cuidadoso, meticuloso - não posso deixar que nada dê errado. O queijo tem que estar na medida certa, a panada tem que ficar uniforme, o óleo tem que estar na temperatura exata. Porque se alguma coisa não estiver como ele gosta... eu não quero pensar no que pode acontecer.






