7

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O carro finalmente para em frente à casa de Fernanda. O motorista vira-se para mim, um olhar de preocupação estampado em seu rosto.

—Moça, a senhora está bem? Precisa de ajuda? — pergunta, com voz suave.

Tento sorrir, mas o movimento faz meu lábio rachado doer. Balanço a cabeça negativamente.

—Estou bem... obrigada — respondo, com a voz rouca.

Pego minha bolsa com as mãos trêmulas e desço do carro. As pernas ameaçam ceder, mas me apoio na porta do veículo até ele se afastar. A casa de Fernanda está iluminada - ela deve ter deixado todas as luzes acesas para mim.

Antes que eu consiga dar três passos, a porta se abre e Fernanda aparece, seus olhos se arregalando ao ver meu estado.

—Meu Deus, Isa! — ela corre em minha direção, me envolvendo em um abraço cuidadoso, como se tivesse medo de me quebrar. — O que ele fez com você?

Eu não consigo responder. As lágrimas que pensei ter secado voltam com força, e meu corpo inteiro começa a tremer. Fernanda me conduz para dentro, fechando a porta atrás de nós.

—Vem, vem... senta aqui. Vou pegar gelo, um pano...

Ela me coloca no sofá e some na cozinha. Eu fico ali, olhando para minhas mãos - os nós dos dedos estão arroxeados, algumas unhas quebradas. Levanto a mão para tocar meu rosto e sinto o inchaço, a pele quente e esticada.

Fernanda volta com uma bolsa de gelo envolta em um pano e se senta ao meu lado. Com movimentos delicados, ela pressiona o gelo contra minha bochecha. Eu estremeço com o contato.

—Foi ele, né? — a voz dela está carregada de uma raiva contida. — Davi fez isso com você.

Eu apenas assinto, sem forças para falar.

—Eu sabia... eu sempre soube que ele ia acabar fazendo algo assim. Eu vi os sinais, Isa. Aquelas marcas no seu braço mês passado, as vezes que você sumia por dias... — sua voz falha. — Por que você não me contou tudo?

—Eu tinha medo... — minha voz sai rouca, quase inaudível. — Medo do que ele faria comigo, com você. Medo de não ter para onde ir. Medo de...

—De quê, Isa? — ela pergunta, segurando minha mão com força.

—De ser fraca. De admitir que eu tinha me enganado sobre ele. Que todo aquele conto de fadas... era mentira.

Fernanda segura minha mão com mais força.

—Você não é fraca, Alice. Você é a pessoa mais forte que eu conheço. Você sobreviveu a anos disso. Mas agora acabou. Você está aqui, comigo, e eu não vou deixar ele chegar perto de você nunca mais.

Eu quero acreditar nela. Quero muito acreditar que isso realmente acabou.

—Ele disse... ele disse que eu não sou nada sem ele. Que eu sou um peso morto, uma parasita... — sussurro, sentindo o nó na garganta.

—Ele é um mentiroso, Isa. Um covarde que precisa diminuir os outros para se sentir grande. Você vale muito mais do que ele jamais vai ser.

Ela se levanta e caminha até a cozinha, voltando com um copo de água e alguns comprimidos.

—Toma isso para a dor. Depois a gente vai pensar no que fazer. Mas primeiro, você precisa descansar.

Engulo os comprimidos com dificuldade, a garganta ainda dolorida. Fernanda me ajuda a me deitar no sofá, cobrindo-me com uma manta.

—Fica aqui. Amanhã a gente conversa melhor. Eu vou dormir no quarto ao lado, se precisar de qualquer coisa, é só me chamar — diz ela, com voz doce.

—Fernanda... obrigada. Por tudo — digo, sentindo as lágrimas escorrerem novamente.

—Não precisa me agradecer, abelhinha. É para isso que servem as amigas.

Ela apaga a luz da sala, deixando apenas um abajur aceso. Eu fico ali, olhando para o teto, sentindo cada parte do meu corpo doer. Mas, em meio à dor, há uma sensação estranha - um alívio. Como se um peso imenso tivesse sido tirado dos meus ombros.

Pego o celular na bolsa. Tela escura. Hesito, mas não resisto - ligo o aparelho.

O que vejo me faz o coração parar.

Dezenas de mensagens. Não de Fernanda. De Davi.

Abro a primeira:

Davi: Cadê você?

Davi: Volta aqui agora, sua puta.

Davi: Você acha que pode fugir de mim?

Davi: Eu vou te encontrar, Alice. Você sabe que eu vou. E quando eu te encontrar...

Eu não consigo ler o resto. Jogo o celular no chão como se ele fosse uma cobra venenosa. Meu coração dispara novamente, o medo apertando meu peito.

Ele não vai me achar, repito para mim mesma. Ele não vai me achar.

Mas no fundo, sei que Davi é capaz de tudo. Ele tem recursos, tem dinheiro, tem contatos. Ele pode me encontrar em qualquer lugar.

A porta do quarto de Fernanda se abre. Ela aparece, sonolenta.

—Tudo bem, Isa? Ouvi um barulho... — pergunta, com a voz ainda embargada pelo sono.

—Ele está me procurando. Davi. Ele mandou um monte de mensagens... — digo, com a voz trêmula.

Fernanda pega o celular do chão, lê as mensagens, e seu rosto se fecha.

—Filho da puta — ela desliga o aparelho e o guarda na gaveta da mesa. — Ele não vai te encontrar, Isa. E mesmo que encontre, ele vai ter que passar por mim primeiro.

Ela se senta no chão, ao lado do sofá, e segura minha mão novamente.

—A gente vai dar um jeito. Amanhã a gente vai na delegacia, faz um BO, pede uma medida protetiva... — diz ela, com determinação.

—Ele é do BOPE, Fernanda. Ele tem amigos na polícia. Eles não vão me proteger... — respondo, sentindo o desespero tomar conta de mim.

—A gente vai achar um jeito. Tem defensoria pública, tem organizações que ajudam mulheres vítimas de violência... a gente vai dar um jeito.

Eu quero acreditar. Mas o medo é mais forte.

—E se ele achar a gente antes? — pergunto, sentindo as lágrimas escorrerem novamente.

Fernanda aperta minha mão com mais força.

—Então a gente luta. Juntas. Como sempre foi.

Eu fecho os olhos, exausta. A dor física e emocional se misturam em uma névoa densa que parece me engolir. Mas, em algum lugar lá no fundo, uma pequena chama ainda brilha.

—Vai ficar tudo bem — sussurro para mim mesma. — Vai ficar tudo bem.

E, pela primeira vez em muito tempo, quase acredito nisso.

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