Mundo de ficçãoIniciar sessão
Aurora sempre acreditou que existiam amores destinados a sobreviver ao tempo.
Era por isso que, mesmo depois de sete anos, ainda sorria toda vez que olhava para Vicente.
Naquela manhã, enquanto organizava os últimos detalhes do casamento na mesa da cozinha, ela o observava em silêncio.
Ele estava sentado diante do notebook, concentrado em uma reunião online, usando uma camisa social azul-marinho que combinava perfeitamente com seus olhos escuros.
Bonito.
Elegante.
Familiar.
Seu lar.
Dentro de dez dias, ele deixaria de ser apenas seu noivo para se tornar oficialmente seu marido.
Aurora sorriu sozinha.
Durante anos, imaginou aquele momento.
Não porque precisasse de uma cerimônia luxuosa.
Nem porque sonhasse com vestidos caros.
Mas porque queria construir uma família ao lado dele.
Queria envelhecer ao lado dele.
Queria todos os dias que viessem depois do casamento.
— Por que está me olhando desse jeito?
A voz dele interrompeu seus pensamentos.
Aurora percebeu que havia sido pega observando-o.
— Que jeito?
— Como se eu fosse uma obra de arte.
Ela riu.
— Talvez você seja.
Vicente fechou o notebook.
— Você está impossível hoje.
— E você está nervoso.
— Não estou.
— Está sim.
Ela se levantou da cadeira e caminhou até ele.
Com delicadeza, ajustou a gravata que ele nem precisava usar para uma reunião virtual.
— Senhor Vicente Aragão, você está nervoso porque vai se casar comigo.
— Acho que qualquer homem ficaria nervoso.
— Medroso.
— Realista.
Aurora deu um tapa leve em seu braço.
Vicente segurou sua cintura imediatamente.
— Violência doméstica antes do casamento?
— Estou repensando nossa união.
— Tarde demais.
Ele a puxou para perto.
Aurora fechou os olhos quando sentiu os lábios dele em sua testa.
Era simples.
Era tranquilo.
Era exatamente por isso que ela amava aquele homem.
Não existiam jogos.
Não existiam dúvidas.
Não existiam inseguranças.
Ao menos era o que ela acreditava.
— Hoje eu vou passar no salão para verificar os arranjos florais — contou.
— De novo?
— É o meu casamento.
— Nosso casamento.
— Ainda mais motivo para eu conferir.
— Você está obcecada.
— Você deveria agradecer.
— Eu agradeço.
Ele sorriu.
Aurora sentiu o coração aquecer.
Durante anos, Vicente foi seu porto seguro.
Ela esteve ao lado dele quando a empresa quase faliu.
Quando ele adoeceu.
Quando parte da própria família o abandonou.
Quando os amigos desapareceram.
Ela ficou.
Sempre ficou.
E faria tudo novamente.
Sem hesitar.
Porque amava aquele homem.
Mais do que a si mesma.
O celular de Vicente tocou.
Ele olhou para a tela.
E algo mudou.
Foi rápido.
Muito rápido.
Mas Aurora percebeu.
O sorriso desapareceu.
Os ombros enrijeceram.
O rosto perdeu a cor.
— Vicente?
Ele continuou encarando a tela.
Sem responder.
— O que aconteceu?
Ele finalmente atendeu.
— Alô?
Silêncio.
Aurora observou.
Os segundos passavam.
E a expressão dele piorava.
— Tem certeza?
Mais silêncio.
— Onde você está?
Aurora sentiu um desconforto estranho surgir dentro dela.
Vicente raramente ficava abalado.
Na verdade, ela nunca o tinha visto assim.
— Estou indo.
A ligação terminou.
— O que aconteceu?
Ele demorou alguns segundos para responder.
Segundos demais.
— É alguém do meu passado.
Aurora franziu a testa.
— Quem?
Vicente passou a mão pelos cabelos.
Como fazia sempre que estava nervoso.
— Lavínia.
O nome atingiu Aurora como uma corrente de ar gelado.
Lavínia.
A única mulher que existira antes dela.
A mulher que abandonou Vicente quando ele estava doente.
A mulher que desapareceu quando ele mais precisou.
A mulher cujo nome nunca mais foi mencionado naquela casa.
— O que ela quer?
Vicente desviou o olhar.
— Ela voltou.
Aurora sentiu o estômago apertar.
— Voltou?
— Sim.
— Depois de sete anos?
— Sim.
O silêncio entre eles tornou-se pesado.
Desconfortável.
Estranho.
Pela primeira vez em muito tempo.
Aurora não gostou da sensação que surgiu dentro dela.
Uma sensação que não conseguia explicar.
Como se algo estivesse prestes a mudar.
Como se o destino tivesse acabado de abrir uma porta que deveria ter permanecido fechada.
Então Vicente disse as palavras que mudariam tudo.
— Ela está morrendo.







