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Capítulo 2 — Ela Está Morrendo

Aurora permaneceu imóvel.

Por alguns segundos, não conseguiu reagir.

As palavras de Vicente ficaram suspensas no ar, pesadas demais para serem assimiladas de imediato.

Ela está morrendo.

Lavínia.

A mulher que desapareceu quando ele mais precisou.

A mulher que o abandonou durante o período mais difícil de sua vida.

A mulher que nunca mais havia sido mencionada dentro daquela casa.

Aurora observou o rosto do noivo.

O choque ainda estava ali.

Misturado a algo que ela não conseguia identificar.

Preocupação.

Culpa.

Inquietação.

Talvez tudo ao mesmo tempo.

— O que aconteceu exatamente? — perguntou com cuidado.

Vicente demorou alguns segundos para responder.

— Ela está internada.

— Internada onde?

— No Hospital São Lucas.

Aurora conhecia o hospital.

Era um dos mais respeitados da cidade.

— Quem te ligou?

— Ela mesma.

Aquilo a surpreendeu.

Se Lavínia estava tão debilitada quanto ele dizia, por que teria ligado justamente para Vicente?

Depois de tantos anos.

Depois de simplesmente desaparecer.

— E o que ela disse?

Vicente caminhou até a janela da cozinha.

Passou as mãos pelos cabelos.

— Disse que precisava me ver.

Aurora ficou em silêncio.

Algo dentro dela parecia desconfortável.

Não era ciúme.

Ao menos não ainda.

Era estranheza.

A situação inteira parecia estranha.

— Você pretende ir?

Vicente virou-se.

— Aurora...

— É uma pergunta simples.

— Sim.

Ela assentiu devagar.

Tentando parecer compreensiva.

Tentando ser racional.

Porque uma mulher estava doente.

Porque ninguém deveria morrer sozinho.

Porque era isso que pessoas boas faziam.

Mas uma pequena voz dentro dela insistia em perguntar por que o coração estava tão apertado.

— Tudo bem.

— Você não parece achar isso.

— Eu só fui pega de surpresa.

Vicente se aproximou.

Segurou suas mãos.

— Ela faz parte do meu passado.

Nada mais.

Aurora tentou sorrir.

Tentou acreditar.

Tentou ignorar a sensação desagradável que continuava crescendo.

— Vá.

— Tem certeza?

— Sim.

Ele beijou sua testa.

Pegou as chaves do carro.

E saiu.

Aurora ficou sozinha na cozinha.

Observando a porta fechada.

Sem perceber que aquele simples telefonema acabara de mudar o rumo de sua vida.

Duas horas depois.

Aurora estava sentada no escritório improvisado que montara em casa.

Planilhas do casamento ocupavam a tela do notebook.

Lista de convidados.

Distribuição das mesas.

Cardápio.

Músicas.

Detalhes que normalmente a deixavam animada.

Mas não naquele dia.

Sua atenção continuava voltando para o relógio.

Vicente ainda não havia retornado.

Ela pegou o celular.

Nenhuma mensagem.

Nenhuma ligação.

Nada.

Suspirou.

Tentando se convencer de que estava exagerando.

Então o aparelho vibrou.

Seu coração acelerou.

Mas não era Vicente.

Era Marina.

Uma das amigas mais próximas dele.

"Você está em casa?"

Aurora estranhou.

"Estou. Por quê?"

A resposta chegou rapidamente.

"Preciso passar aí."

Aurora franziu a testa.

"Está tudo bem?"

Alguns segundos se passaram.

"Não sei."

O desconforto aumentou.

Quarenta minutos depois.

Marina entrou na casa com uma expressão que Aurora nunca tinha visto.

Parecia nervosa.

Incomodada.

Como alguém que carregava uma notícia que não queria dar.

— O que aconteceu?

Marina sentou-se no sofá.

— Você falou com Vicente?

— Não.

— Ele ainda está no hospital?

— Acho que sim.

Marina desviou o olhar.

Aurora sentiu um arrepio percorrer sua coluna.

— Marina.

— Eu não sei se deveria estar me metendo nisso.

— Em quê?

A amiga respirou fundo.

— Algumas pessoas viram Vicente.

— No hospital?

— Sim.

Aurora esperou.

— E?

— Ele não parecia alguém visitando uma ex-namorada.

O coração dela bateu mais forte.

— O que isso significa?

— Significa que ele passou o dia inteiro lá.

— Ela está doente.

— Eu sei.

— Então qual é o problema?

Marina hesitou.

— Aurora... ele estava segurando a mão dela.

O silêncio tomou conta da sala.

Aurora tentou rir.

Mas o som morreu antes mesmo de sair.

— Você está falando sério?

— Estou.

— E isso deveria significar alguma coisa?

— Não sei.

A resposta sincera foi pior do que qualquer acusação.

Porque significava que Marina também estava confusa.

Quando Vicente finalmente voltou para casa, já passava das nove da noite.

Aurora estava sentada no sofá.

Esperando.

Ele entrou cansado.

Com os ombros pesados.

Mas algo em seu rosto parecia diferente.

Distante.

Como se parte dele ainda tivesse ficado naquele hospital.

— Oi.

— Oi.

Vicente percebeu imediatamente o clima.

— O que aconteceu?

— Como ela está?

Ele suspirou.

— Mal.

— O que ela tem?

— Uma doença rara.

— Os médicos têm certeza?

— Sim.

Aurora observou seu rosto.

Cada expressão.

Cada movimento.

Tentando entender por que ele parecia tão abalado.

— Vocês conversaram?

— Sim.

— Sobre o quê?

— Sobre muita coisa.

— Sete anos de coisas?

Vicente fechou os olhos por um instante.

— Aurora...

— Estou tentando entender.

— Entender o quê?

— Por que você voltou tão diferente.

A frase saiu antes que ela pudesse impedir.

Vicente ficou imóvel.

— Diferente como?

— Eu não sei.

E era verdade.

Ela realmente não sabia.

Mas sentia.

Sentia uma mudança.

Pequena.

Quase imperceptível.

Mas presente.

Como uma rachadura surgindo numa parede aparentemente perfeita.

Na manhã seguinte.

Aurora acordou sozinha.

Estendeu a mão na cama.

O lado de Vicente estava vazio.

Frio.

Levantou rapidamente.

Encontrou um bilhete sobre a mesa da cozinha.

"Precisei voltar ao hospital. Conversamos depois."

Aurora ficou olhando para aquelas palavras.

Uma vez.

Duas.

Três.

O casamento aconteceria em apenas nove dias.

Nove dias.

E, de repente, parecia que tudo estava escapando por entre seus dedos.

Ela tentou afastar o pensamento.

Tentou se concentrar nos preparativos.

Tentou continuar acreditando que nada havia mudado.

Mas enquanto observava a cadeira vazia diante dela, uma sensação inquietante tomou conta de seu peito.

Lavínia tinha voltado.

E o retorno dela estava ocupando mais espaço na vida de Vicente do que Aurora gostaria de admitir.

Muito mais.

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