Saulo Prado
Uma sensação estranha me habitava, uma euforia silenciosa que mais parecia um delírio. No fundo, eu mesmo não sabia a origem daquele turbilhão: se era o fim com Otávio, ou se era algo mais profundo e inexplicável. Para mim, o tempo havia perdido a medida; para Dona Laura, cada minuto era um renascimento.
Na segunda-feira de manhã, deixei sua casa. Ela permaneceu na porta, os braços envoltos do próprio corpo seu olhar perseguindo até eu desaparecer na curva da rua. Ao voltar para Sobral, ao encarar a cama vazia que me aguardava, nenhum remorso veio, peso, culpa. Apenas a estranha sensação de que havia renascido, sem sequer perceber o momento exato da transformação.
Passei a noite imerso na chácara, mergulhado nos autos do processo de terça-feira. E foi justo no meio da audiência, naquela manhã decisiva, que o celular começou a vibrar com uma insistência frenética. Ignorei, focando no juiz, mas ao sair do fórum e revisar as notificações, um número me saltou aos olhos: oitent