Sombras do Passado

Capítulo 5

O almoço no Gero era uma extensão estratégica do campo de batalha, mas com talheres de prata e taças de cristal. Gustavo escolhera uma mesa posicionada no centro do salão, onde a luz do sol incidia diretamente sobre nós, transformando-nos no espetáculo principal para a elite paulistana. Ele agia como o marido perfeito, servindo o meu vinho com uma elegância ensaiada e mantendo uma conversa polida sobre a reestruturação da Tecidos Silva. Mas, por baixo da toalha de linho, a realidade era outra. A sua mão apertava o meu joelho de forma possessiva cada vez que um homem passava perto da nossa mesa, um lembrete constante de que eu era um território conquistado.

— Estás tensa, Ana — murmurou ele, a voz baixa, logo após um gole de vinho tinto. — Devias estar a celebrar. Acabaste de destruir a influência do teu tio Roberto numa única manhã. Foi uma execução brilhante, digna de uma Almeida.

— Não destruí nada, Gustavo. Apenas fiz o que era tecnicamente correto para salvar o patrimônio da minha família. Não sinto prazer em ver o meu próprio sangue ser humilhado, mesmo que eles tenham cavado a própria cova. — Tentei afastar a mão dele discretamente, mas o aperto tornou-se mais firme, os dedos dele pressionando o tecido da minha saia.

— O que é correto é o que eu decido. Lembra-te: tu és o meu braço direito agora. E o meu braço direito não deve tremer perante abutres, mesmo que eles partilhem o teu apelido. Se queres salvar a tua mãe, precisas de aprender a ser implacável.

Antes que eu pudesse responder, uma sombra projetou-se sobre a nossa mesa. Ergui os olhos e senti o meu coração falhar uma batida. Parado à nossa frente, com um sorriso que misturava surpresa e amargura, estava Lucas Duarte.

Lucas fora o meu primeiro amor, o rapaz que me incentivara a estudar economia quando o meu pai insistia que eu deveria ser apenas uma peça decorativa. Tínhamos terminado anos atrás, quando ele partiu para um mestrado em Londres e eu fiquei para trás, presa à decadência dos Silva, limpando as bagunças que Pérola e o meu pai deixavam. Olhar para ele agora era como ver um fantasma de uma vida que eu nunca teria.

— Ana? — A voz de Lucas era suave, mas carregada de choque. — Eu li as notícias, mas recusei-me a acreditar. Casaste-te... realmente com o Gustavo Almeida? O homem que o teu pai chamava de carrasco?

Senti o ar na mesa mudar instantaneamente. A temperatura pareceu descer dez graus. Gustavo largou o talher com um estalo metálico e recostou-se na cadeira, os olhos transformando-se em fendas de puro gelo.

— Lucas... — consegui dizer, a voz trêmula. — É bom ver-te. Quando chegaste?

— Voltei ontem. — Lucas ignorou a presença imponente de Gustavo, focando apenas em mim. Havia uma decepção genuína nos seus olhos. — Pensei que fosses a última pessoa no mundo a vender a alma por um apelido, Ana. O que aconteceu com todos aqueles planos de independência? Com a mulher que jurou que nunca seria propriedade de homem nenhum?

— A minha esposa não vendeu a alma, Duarte — a voz de Gustavo soou como um trovão baixo, carregada de uma perigosidade que fez Lucas finalmente desviar o olhar para ele. — Ela simplesmente amadureceu e percebeu que sonhos de estudante não pagam dívidas de cem milhões. Ela escolheu um império real em vez de uma fantasia de adolescente pobre que vive de esperança.

Lucas finalmente encarou Gustavo. A tensão entre os dois era tão palpável que eu temia que os copos de cristal pudessem rachar. Era um choque de mundos: o passado que me via como uma igual e o presente que me via como uma posse.

— Gustavo Almeida. Sempre a colecionar o que pertence aos outros e a colocar preços em pessoas, não é? — Lucas disse, com uma coragem imprudente. — Ouvi dizer que o contrato era para a outra irmã. O que fizeste para a obrigar a trocar de lugar?

Gustavo levantou-se lentamente, exalando uma ameaça silenciosa. Ele era muito mais imponente que Lucas, e sua presença física parecia sufocar o ambiente.

— O que me pertence, eu protejo. E o que eu protejo, ninguém toca. — Gustavo colocou a mão no meu ombro, os dedos cravando-se no blazer. — O almoço acabou. Ana, vamos embora agora.

— Gustavo, por favor, as pessoas estão a olhar — tentei intervir, sentindo o suor frio descer pelas minhas costas, mas ele não me deu ouvidos.

— Agora — ordenou ele, o tom gélido.

Lucas deu um passo à frente, mas o segurança de Gustavo aproximou-se imediatamente. Percebi que um escândalo estava prestes a explodir.

— Lucas, por favor, vai-te embora — pedi, com súplica. — Eu estou bem. Não tornes as coisas piores.

Lucas olhou para a mão de Gustavo no meu ombro e depois para os meus olhos. Ele viu o medo, mas interpretou-o de forma errada; ele achava que eu era apenas uma vítima, sem entender o peso da minha escolha.

— Se algum dia decidires que queres ser livre, Ana... tu sabes onde me encontrar — disse Lucas, antes de se virar e sair do restaurante.

O trajeto até à limusine foi um borrão de fúria silenciosa. Gustavo caminhava com passos largos, obrigando-me a quase correr. No momento em que a porta pesada da **limusine** se fechou, isolando-nos, ele explodiu.

— Quem é ele? — rugiu Gustavo, virando-se para mim, os olhos injetados de raiva. — E não te atrevas a mentir-me. Eu não tolero ser feito de idiota.

— Foi um namorado da faculdade! — respondi, tentando manter a dignidade enquanto a limusine arrancava. — Isso foi há anos, Gustavo. Terminou muito antes de tu apareceres com os teus contratos. Não tens o direito de ficar assim por algo que aconteceu no meu passado.

— Eu tenho todos os direitos! — Ele segurou o meu rosto com uma mão firme, forçando-me a olhar diretamente para ele. — Tu és a minha esposa agora. O teu passado, o teu presente e o teu futuro pertencem-me. Se eu voltar a ver aquele idiota perto de ti, eu juro que o destruo.

— Tu não podes controlar o meu passado! Isso não estava no contrato!

— Posso e vou. — A respiração dele estava pesada contra a minha pele. — Tu não és a Pérola, Ana. Tu tens fogo, tens inteligência, e eu descobri hoje que tens um passado que te faz tremer. Eu não vou permitir que nenhum outro homem tente tocar no que eu comprei. Tu és minha, Ana Silva Almeida. Começa a agir como tal.

Ele puxou-me para um beijo bruto e possessivo, uma marcação de território que me deixou sem fôlego. Não havia amor, apenas uma sede de domínio. Quando a limusine parou diante da mansão, eu sabia que a minha vida de "substituta" tinha acabado; eu era agora o alvo principal de Gustavo.

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