Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 4
Acordar com o braço de Gustavo Almeida prendendo meu corpo contra o dele foi o despertar mais amargo da minha vida. A luz da manhã de São Paulo filtrava-se pelas cortinas automáticas que se abriam lentamente, revelando um céu cinzento que combinava com o meu estado de espírito. Por um segundo, na semiconsciência do sono, o calor do corpo dele pareceu um refúgio, mas a realidade me atingiu como um balde de água gelada quando senti o metal da aliança em seu dedo roçar minha pele. Eu me desvencilhei dele com cuidado, mas Gustavo já estava acordado. Ele abriu os olhos — escuros e alertas, sem o menor sinal de sonolência — e me observou sentar na beirada da cama. — São seis horas — ele disse, sua voz rouca de sono, mas com a autoridade de sempre. — Temos exatamente quarenta e cinco minutos para estarmos prontos. O conselho da Tecidos Silva não é conhecido pela paciência. — Você não perde tempo, não é? — Respondi, sem olhá-lo, enquanto procurava meu robe no chão. — O tempo é a única coisa que eu não posso comprar, Ana. E eu já gastei demais com o casamento ontem. O banho foi rápido e silencioso. No closet, encontrei um conjunto de alfaiataria que ele certamente mandou colocar lá durante a madrugada. Um blazer azul-marinho de corte impecável e uma saia lápis que gritavam "mulher de negócios". Ao me vestir, percebi o jogo dele: ele queria que eu parecesse uma Almeida, não uma Silva em apuros. Descemos para o café em silêncio absoluto. Gustavo lia notícias no tablet enquanto tomava café preto, sem açúcar. Eu mal conseguia engolir um pedaço de torrada. O nó no meu estômago não era apenas medo; era a antecipação do confronto que viria a seguir. O carro que nos esperava não era a limusine de ontem, mas um SUV blindado e discreto. Durante o trajeto até a sede da fábrica que meu avô fundou, Gustavo não disse uma palavra até estarmos a poucos metros do prédio. — Ouça bem, Ana — ele começou, fechando o tablet e fixando seu olhar em mim. — Seu pai e seus tios vão tentar te desestabilizar. Eles veem você como a garota que cuidava da contabilidade nos fundos. Eles não sabem que eu tenho o aditivo que te dá plenos poderes de decisão como minha representante. Se você fraquejar, eles vão te devorar viva. E se eles te devorarem, eu executo a dívida antes do almoço. — Eu conheço aqueles homens melhor do que você, Gustavo — respondi, sentindo uma chama de determinação começar a queimar. — Eu limpei a bagunça que eles fizeram por anos enquanto Pérola gastava o que não tínhamos. Eu não vou fraquejar. Ao entrarmos na sala de reuniões, o clima estava carregado. Meu pai, Arthur, estava sentado na cabeceira, parecendo dez anos mais velho. Meus tios cochichavam, mas o silêncio se instalou quando Gustavo entrou. Ele não se sentou na cabeceira; ele puxou a cadeira para mim e ficou de pé, atrás de mim, como uma sombra intimidante. — Onde está a Pérola? — Meu tio Roberto perguntou, com desdém. — O que essa menina está fazendo aqui com esse anel? — Pérola está em "lua de mel prolongada" — Gustavo respondeu por mim, sua mão pousando pesadamente no meu ombro. — Ana é agora a detentora de 51% das ações votantes, através da holding Almeida. Ela fala por mim. E ela tem alguns números para mostrar a vocês. Abri a pasta que trazia comigo. Meus dedos não tremeram. Por um momento, esqueci o contrato, esqueci a noite forçada e o medo. Ali, naquele terreno de números e falhas fiscais, eu era a mestre. — A Tecidos Silva teve uma queda de 40% nos lucros não porque o mercado esfriou, tio Roberto — comecei, minha voz projetando-se com uma firmeza que fez meu pai erguer a cabeça. — Mas porque houve um desvio de verbas para uma subsidiária fantasma em nome da sua esposa. A sala explodiu em protestos. Meu pai tentou intervir, mas eu bati a pasta na mesa, o som ecoando como um tiro. — Silêncio! — ordenei. — Eu não estou aqui como a sobrinha de vocês. Estou aqui como a mulher que vai decidir se vocês vão para a cadeia ou se saem desta sala com uma aposentadoria antecipada e discreta. Gustavo comprou a dívida, mas eu sou quem detém os nomes nas ordens de pagamento fraudulentas. Olhei para o lado e vi Gustavo. Ele não estava mais olhando para o tablet ou para os meus parentes. Ele estava me olhando. Havia um brilho de surpresa e algo mais profundo, um desejo sombrio, em seus olhos. Ele não esperava que a "substituta" tivesse garras tão afiadas. A reunião durou duas horas sangrentas. Ao final, os termos de Gustavo foram aceitos. A Tecidos Silva estava sob novo comando. O meu comando. Quando voltamos para o carro, a adrenalina ainda corria em minhas veias. Gustavo se sentou ao meu lado e, pela primeira vez desde que nos conhecemos, ele não parecia estar apenas cumprindo uma cláusula. — Você foi... eficiente — ele admitiu, sua voz baixa. — Mais do que eu previ. — Você achou que eu era apenas um rosto parecido com o da Pérola que sabia usar uma calculadora, não foi? Gustavo se inclinou em minha direção. O SUV blindado parecia pequeno demais para a eletricidade que agora flutuava entre nós. — Eu achei que você seria uma ferramenta útil, Ana. Mas começo a suspeitar que você é um perigo muito maior. — Ele estendeu a mão e tocou uma mecha do meu cabelo, enrolando-a no dedo. — A cláusula de disponibilidade total não se aplica apenas aos negócios. Você sabe disso, não sabe? — Eu cumpri minha parte hoje — respondi, sentindo meu coração acelerar por um motivo diferente. — Salvei seu investimento. — Você não salvou meu investimento, Ana. Você o tornou interessante. — Ele se aproximou mais, seu rosto a milímetros do meu. — E eu sou um homem que se entedia facilmente. Mas você... você está me deixando muito curioso. Ele não me beijou. Ele apenas ficou ali, testando meu autocontrole, até que o carro parou diante de um restaurante de luxo. — Vamos comemorar nossa vitória, Sra. Almeida. Mas não se engane: na Tecidos Silva você manda. Mas nesta noite, e em todas as outras que o contrato prevê... o comando continua sendo meu. Saí do carro sentindo que, embora tivesse ganhado uma batalha na empresa, eu estava perdendo a guerra dentro de mim mesma. Eu odiava Gustavo Almeida com todas as minhas forças, mas o jeito que ele me olhou naquela sala de reuniões despertou algo que não estava em nenhum contrato: uma fome de ser reconhecida, mesmo que fosse pelo meu carrasco. Entramos no restaurante e o peso dos olhares da elite paulistana caiu sobre nós como uma sentença. Gustavo manteve a mão possessiva em minha cintura, um gesto que para o mundo parecia proteção, mas que para mim era o lembrete físico de cada cláusula que eu acabara de selar com meu desempenho. Eu havia provado meu valor nos negócios, mas o brilho predatório nos olhos dele deixava claro: eu acabara de me tornar o alvo mais cobiçado de sua própria caça.






