O Segredo no Portão

Capítulo 6

O trajeto de volta após o almoço foi mergulhado em um silêncio sepulcral. Dentro da limusine, a fúria de Gustavo não era mais explosiva; era algo muito pior: uma frieza calculada que parecia drenar o calor do ambiente. Ele não me tocou, não me olhou. Apenas mantinha os olhos fixos em seu tablet, mas eu sabia, pelo modo como sua mandíbula estava travada, que cada palavra de Lucas Duarte ainda ecoava em sua mente.

Eu olhava pela janela, observando os muros altos das mansões do Morumbi passarem como vultos. O peso da aliança no meu dedo parecia ter triplicado. Eu acabara de assinar o aditivo. Eu acabara de confirmar que, pelos próximos dois anos, minha vida não me pertencia mais.

Quando a limusine finalmente parou diante dos portões de ferro da mansão Almeida, algo estava diferente. O motorista não avançou imediatamente. Um dos seguranças da guarita se aproximou da janela de Gustavo com uma expressão severa, segurando um envelope pardo lacrado dentro de um saco plástico transparente.

— Senhor Almeida, desculpe interromper — disse o segurança, com a voz baixa. — Encontramos isto preso à grade do portão lateral logo após a saída de vocês. Não há remetente, mas o destinatário é específico.

Gustavo baixou o vidro lentamente. Suas sobrancelhas se juntaram em uma linha de suspeita.

— O que diz no envelope? — a voz dele saiu como um chicote.

— Está endereçado à "Nova Senhora Almeida".

Um calafrio percorreu minha espinha. Gustavo pegou o envelope com brutalidade e o abriu ali mesmo, no banco da limusine. De dentro, não saiu uma carta de ameaça ou um pedido de resgate. O que caiu sobre o banco de couro preto foi o iPhone de última geração, cravejado de cristais, que eu conhecia tão bem.

Era o celular de Pérola.

Minha irmã nunca se separava daquele aparelho; ele continha toda a sua vida social, suas fotos, seus segredos. Ver aquele objeto ali, vindo do nada, era como receber um pedaço do seu corpo.

— É dela... — minha voz falhou, e estendi a mão para pegá-lo, mas Gustavo foi mais rápido. Ele me bloqueou com o braço, seus olhos brilhando com uma desconfiança renovada.

— Fique longe disso, Ana.

— É o celular da minha irmã, Gustavo! Ela pode estar em perigo!

Ele não me deu ouvidos. Ligou o aparelho, que estranhamente não solicitou senha. Assim que a tela brilhou, um vídeo já estava carregado na galeria, pausado no primeiro segundo. Gustavo apertou o *play*.

A imagem estava tremida, gravada às pressas em um ambiente escuro que parecia o interior de um carro em movimento. Pérola apareceu na tela. O cabelo estava desfeito, a maquiagem borrada pelo choro, e o terror em seus olhos era algo que eu nunca tinha visto em minha irmã fútil e confiante.

> "Ana... se você está recebendo isso, é porque o papai realmente fez o que prometeu. Por favor, não me odeie por ter fugido. Eu não fugi por causa do Lucas, nem porque não queria casar com o Gustavo... eu fugi porque descobri o que eles esconderam de nós o tempo todo. O contrato não é sobre a dívida, Ana. É sobre o que aconteceu há vinte anos. O papai vendeu a nossa mãe para o pai do Gustavo e..."

O vídeo cortou abruptamente. A tela ficou preta, refletindo meu rosto pálido de horror no vidro escurecido.

— O que ela disse? — sussurrei, sentindo o ar fugir dos meus pulmões. — Gustavo, o que significa isso? Do que ela está falando?

Gustavo desligou o aparelho com um movimento brusco e o guardou no bolso interno do seu paletó. Ele se virou para mim, e o que vi em seu rosto não foi surpresa. Foi uma confirmação sombria.

— Saia da limusine — ele ordenou, sua voz tão fria que parecia vir do fundo de um túmulo.

— Eu não vou sair a menos que você me explique o que minha irmã quis dizer! — gritei, a coragem do desespero superando o medo. — O que aconteceu há vinte anos? O que meu pai vendeu além da fábrica?

Gustavo se inclinou sobre mim, seu rosto a centímetros do meu. A proximidade, que antes despertava uma tensão elétrica, agora trazia apenas um pavor gélido.

— Você assinou o contrato, Ana. Você concordou em ser minha esposa e em me dar "disponibilidade total". Isso inclui não fazer perguntas sobre coisas que não lhe dizem respeito. — Ele segurou meu queixo com força, obrigando-me a olhar em suas fendas escuras. — O destino de Pérola não é mais da sua conta. Sua única preocupação agora é como você vai me compensar pelo insulto que aquele seu namoradinho me causou hoje.

Ele abriu a porta do carro e desceu, deixando-me para trás no silêncio da limusine. Eu olhei para a mansão à minha frente. Aquela estrutura de vidro e aço não era mais um refúgio para minha família; era um mausoléu de segredos.

Eu desci, meus pés pesados no cascalho. Ao entrar no hall, vi Gustavo entregando o celular de Pérola para um de seus especialistas em tecnologia.

— Quero o vídeo completo. E descubra de onde veio esse sinal — ele ordenou, sem nem olhar para trás.

Eu subi as escadas correndo, querendo me trancar em qualquer lugar, mas eu sabia que não havia fechaduras para mim naquela casa. Entrei na suíte master, o "quarto do lobo", e me encostei na porta fechada. O vídeo de Pérola ecoava na minha mente. *O papai vendeu a nossa mãe...*

O que meu pai tinha feito? E o que Gustavo realmente queria de mim?

Ouvi os passos pesados dele no corredor. A porta se abriu com um estrondo controlado. Gustavo entrou, retirando o relógio de pulso e a gravata com uma lentidão predatória. Ele fechou a porta atrás de si e caminhou em minha direção, o brilho de posse voltando a seus olhos, mas agora misturado com a fúria do segredo revelado.

— O dia foi longo demais, Ana — ele murmurou, encurtando a distância entre nós até que eu pudesse sentir o cheiro do uísque e da fúria em seu hálito. — Está na hora de você começar a pagar a primeira parcela da sua dívida. Sem perguntas. Sem passado. Apenas você e eu.

Eu queria lutar, queria exigir a verdade, mas quando ele me prensou contra a madeira da porta, o peso do contrato assinado pareceu esmagar minha vontade. Eu era a Sra. Almeida agora. E o preço do silêncio de Gustavo seria o meu próprio corpo.

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