Capítulo 2

O ar frio do outono ainda dominava as ruas, mesmo perto do horário do almoço.

Sarah deixou o prédio da universidade segurando o casaco fechado até o pescoço enquanto atravessava a calçada movimentada sem realmente prestar atenção nas pessoas ao redor.

O celular vibrava dentro do bolso desde o fim da prova.

Ela já sabia quem era antes mesmo de olhar.

Peter.

Atendeu enquanto continuava andando.

— Se você me disser que ainda não comeu nada hoje, eu juro por Deus que atravesso Chicago só pra te agredir.

Sarah soltou uma pequena respiração pelo nariz, quase um riso.

— Você ameaça violência com uma frequência preocupante.

— Porque você facilita meu trabalho.

Ela atravessou a rua junto do sinal aberto.

— Eu tô indo comer agora.

— Mentira.

Sarah sorriu de leve pela primeira vez desde a conversa no corredor da universidade.

Peter sempre percebia.

— Você tá ocupado?

— Pra você? Nunca. Me encontra no café perto do metrô em vinte minutos.

Ela hesitou por um segundo, rápido demais para ser percebido.

— Tá.

O café era pequeno, quente e apertado o suficiente para embaçar completamente os vidros por causa do frio lá fora.

Peter já estava sentado perto da janela quando Sarah entrou.

Mesmo usando roupas simples, havia alguma coisa naturalmente chamativa nele.

Talvez o jeito expressivo, a confiança ou o fato de parecer confortável demais sendo exatamente quem era.

Sarah sempre invejou um pouco aquilo.

Ele abriu um sorriso imediato ao vê-la.

— Meu Deus, você tá com uma cara péssima.

Ele disse com seu jeito exageradamente dramático.

— Você também.

— Mas no meu caso é estético.

Ela finalmente riu de verdade enquanto se sentava.

Peter empurrou um copo de café quente na direção dela sem perguntar se queria.

Já conhecia a resposta.

Por alguns minutos, conversaram sobre coisas pequenas: a prova, o frio, um cliente estranho que Peter tinha atendido no salão naquela semana.

A conversa desacelerou por alguns segundos.

Peter apoiou o cotovelo na mesa.

— Quanto tá faltando?

Sarah baixou a cabeça.

Ele suspirou baixo.

— Sarah.

Ela demorou alguns segundos antes de responder:

— Bastante.

Peter observou Sarah por um instante mais longo.

— E você tá pensando em fazer o quê?

Ela soltou uma pequena risada sem humor.

— Honestamente? Não faço ideia.

Os dedos apertaram o copo quente entre as mãos.

— Eu tô cansada, Peter.

A frase saiu mais baixa do que pretendia. Mais honesta também.

— Parece que eu tô sempre correndo atrás de alguma coisa e nunca alcanço.

O olhar dele suavizou.

Peter conhecia aquela versão dela.

A garota cansada do abrigo, que fingia estar bem, mesmo quando claramente não estava.

— Você já pensou em usar essa sua beleza absurda pra ganhar dinheiro?

Sarah ergueu os olhos.

— O quê?

Peter deu de ombros.

— Não tô falando de prostituição antes que você faça essa cara.

Ela continuou encarando ele em silêncio.

Então Peter pegou o celular.

Abriu um aplicativo.

Nyx.

Sarah franziu levemente o cenho.

— Que site é esse?

— Plataforma de conteúdo adulto por assinatura.

Ela estreitou um pouco os olhos.

Peter virou a tela na direção dela.

Perfis começaram a deslizar rapidamente: fotos cuidadosamente construídas, corpos bonitos, fantasias, desejo.

Alguns explicitamente sexuais. Outros mais sensuais do que realmente explícitos.

Tudo construído em torno de fantasia, atenção e desejo.

— Tem gente aqui que vende nude, vídeo explícito, essas coisas — Peter explicou casualmente. — Mas também tem gente que nunca fica nua.

Sarah continuava olhando a tela sem saber exatamente como reagir.

— E as pessoas pagam por isso?

Peter soltou uma pequena risada nasal.

— Amiga… homens solitários pagam por atenção feminina desde que o mundo existe.

Ela desviou o olhar da tela imediatamente.

Aquilo a incomodava.

— Eu não conseguiria fazer isso.

— Conseguiria sim.

Ela balançou a cabeça.

— Não, Peter. Isso não tem nada a ver comigo.

Ele apoiou o celular sobre a mesa.

— Você acha que esses caras tão procurando só pornografia? Porque não tão.

Sarah permaneceu em silêncio.

Peter continuou:

— Alguns querem putaria, claro. Mas outros só querem alguém olhando pra eles, conversando, dando atenção. Fantasia vende muito mais do que nude.

Ela apertou o copo entre as mãos.

Ainda desconfortável.

— Ainda assim… eu não consigo me imaginar fazendo isso.

Peter inclinou levemente a cabeça, encarando ela como se a resposta fosse genuinamente absurda.

— Gata, você tem noção da aparência que você tem?

Ela soltou uma pequena expressão desconfortável.

— Peter…

— Não, eu tô falando sério.

Ele apontou discretamente pra ela com o copo de café na mão.

— Você é alta, loira, tem esses olhos hazel estranhos que mudam de cor dependendo da luz… às vezes verdes, às vezes quase dourados.

Sarah sentiu o rosto esquentar na mesma hora.

Peter continuou sem dar espaço pra ela interromper.

— E ainda tem esse corpo ridículo de bonito sem nem tentar. Magra, cintura fina, pernas longas… sinceramente, isso devia ser ilegal pra alguém que vive de café e estresse.

Ela acabou rindo pelo nariz apesar do constrangimento.

— Você exagera demais.

— Não exagero. Você só passou a vida inteira ocupada sobrevivendo e nunca percebeu como as pessoas olham pra você.

O sorriso dela diminuiu um pouco.

— Você fala isso pra me manipular.

— Claro que falo. E tá funcionando um pouco.

Sarah balançou a cabeça, mas dessa vez sem conseguir esconder completamente o pequeno sorriso.

Peter então voltou a deslizar os perfis devagar.

— Olha isso aqui.

Mostrou uma garota usando cosplay.

Outra usando máscara.

Outra simplesmente fazendo live conversando.

— É personagem, maquiagem, iluminação, câmera certa. Você aprende tudo.

Sarah observava em silêncio agora.

Não exatamente interessada.

Mas também não totalmente resistente.

Peter percebeu na mesma hora.

— Você não precisa fazer nada que não queira.

A voz dele ficou mais calma.

Mais séria.

— Você não precisa continuar se matando assim só porque acostumou a sobreviver no modo difícil.

Nenhum dos dois disse nada por um longo momento.

Sarah desviou os olhos para o vidro embaçado.

Do lado de fora, o vento frio continuava castigando as ruas de Chicago.

Ela considerou a ideia por alguns segundos.

Não respondeu. Mas também não se moveu.

E Peter percebeu isso na mesma hora.

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