Minha Obsessão Proibida Era Você
Minha Obsessão Proibida Era Você
Por: Caroline Fonseca
Capítulo 1

Era início de outubro, e o outono já coloria as ruas de Chicago.

Pelas janelas do bar, Sarah observava folhas douradas e avermelhadas sendo arrastadas pelo vento enquanto as luzes da cidade se espalhavam pela madrugada.

Já passava das duas quando seu turno finalmente terminou.

Ela saiu sem pressa. O corpo inteiro pedia descanso, e o ar frio a atingiu antes mesmo que a porta fechasse atrás dela.

No caminho até o metrô, caminhava rápido, mantendo o casaco fechado contra o corpo. As ruas estavam quase vazias, ocupadas apenas por pessoas claramente mais acostumadas à noite do que ao dia.

Sarah evitava encarar demais.

Aquela parte da cidade era o oposto da Chicago dos cartões-postais. Menos vidro e luz. Mais concreto gasto, isolamento e exaustão.

Na plataforma do metrô, ela parou.

O vento atravessava as estruturas metálicas, e o som distante dos trilhos tornava a espera ainda mais longa. Ela cruzou os braços e permaneceu imóvel por alguns segundos.

O cansaço a esmagava de verdade agora.

Quando o relógio se aproximou das duas e meia, o trem para o West Side finalmente apareceu ao longe.

Sarah entrou no vagão quase vazio.

As portas se fecharam com um estalo seco, abafando por alguns instantes o barulho da cidade lá fora. A iluminação fria do interior deixava tudo mais pálido, quase sem vida.

Ela escolheu um assento perto da janela.

Assim que sentou, sentiu o corpo afundar no banco como se tivesse passado horas sustentando tensão demais. Ainda assim, continuava alerta.

O trem começou a andar.

Do lado de fora, Chicago passava em manchas de luz e sombra. Estação após estação, os prédios altos foram desaparecendo, substituídos por ruas mais vazias, construções menores e postes espaçados.

Sarah encostou a testa no vidro.

O vagão balançava suavemente nos trilhos. O ruído metálico constante acabava deixando tudo meio distante.

Ela fechou os olhos por alguns segundos.

Não chegou a dormir. Só precisava de uma pausa.

Quando tornou a abrir os olhos, boa parte do trajeto já tinha passado.

As estações continuavam mudando. A cidade parecia perder movimento conforme ela se afastava do centro.

Então veio o anúncio:

West Side.

Sarah se levantou devagar.

O corpo demorou um pouco para responder. As portas se abriram, trazendo uma corrente de ar ainda mais gelada.

Ela desceu na estação.

O frio ali era ainda pior do que no centro. O vento corria livre entre as estruturas, sem nada para bloquear.

A plataforma estava quase vazia. Apenas alguns passos ecoavam ao longe.

Sarah ajeitou o casaco e seguiu andando.

Do lado de fora da estação, a cidade já não tinha o mesmo brilho. As ruas eram mais silenciosas, menos cuidadas, com luzes cansadas e fachadas desgastadas.

Ela caminhava rápido. Não por pressa. Por hábito.

Austin não era o tipo de bairro ilustrado nos cartões-postais de Chicago.

Os mercados tinham grades nas janelas. Muitos prédios carregavam marcas de abandono e desgaste acumulados por décadas.

Durante o dia ainda existia movimento.

Mas à noite o bairro se fechava em si mesmo.

As ruas ficavam desertas. Mais silenciosas.

Sarah já tinha se acostumado. Ou pelo menos, tentava acreditar nisso.

Austin sempre parecia maior durante a madrugada. Não em tamanho, mas na distância entre um quarteirão e outro.

Ela virou a esquina que conhecia de cor. O prédio onde morava apareceu logo adiante: antigo, simples e cansado, como quase tudo naquela região.

Antes de entrar, parou por um instante e olhou para cima.

Algumas janelas estavam apagadas. Outras deixavam escapar luz suficiente apenas para revelar silhuetas sem rosto.

Ela respirou fundo e entrou.

O loft era pequeno e silencioso.

Havia só o necessário: geladeira, fogão, uma mesa de estudos e a cama encostada na parede. Nada que realmente tornasse o lugar pessoal.

Então percebeu os envelopes no chão, empurrados por baixo da porta.

Sarah os encarou por alguns segundos. Não precisava abrir para saber do que se tratava.

Pegou os dois e os largou sobre a mesa junto da bolsa.

Ficou parada ali por um momento, olhando para nada em específico, antes de seguir para o banheiro.

Tomou um banho rápido. Mais para livrar a carga do turno, do que por necessidade.

A água quente não relaxava de verdade. Só ajudava a continuar funcionando.

Quando saiu, pensou apenas no próximo compromisso.

Vestiu uma roupa simples, organizou os materiais da universidade e conferiu o horário.

O tempo nunca era suficiente.

Deitou sem cerimônia na cama estreita. O teto parecia perto demais.

Em algum momento entre o cansaço e o sono, simplesmente apagou.

O despertador tocou cedo demais.

Sarah abriu os olhos devagar, mas sem opção de continuar ali. Ficou alguns segundos encarando o teto antes de se levantar.

Ainda sentia os efeitos da noite anterior no corpo.

Na cozinha, comeu qualquer coisa sem prestar atenção no gosto. Depois preparou café forte, mais pela necessidade de se manter acordada do que por vontade.

O dia já começava exigindo demais.

Vestiu-se rapidamente, prendeu os cabelos loiros em um rabo de cavalo e parou diante do espelho.

Os olhos verdes, avermelhados pelo cansaço, e as olheiras profundas denunciavam o quanto aquela rotina vinha cobrando dela.

Pegou os materiais e saiu.

O frio da manhã em Chicago ainda não era cruel. Apenas lembrava, discretamente, que o inverno estava a caminho.

No caminho até a estação, ela finalmente desbloqueou o celular. Os e-mails estavam lá.

Entre eles, um novo aviso.

Assunto: PENDÊNCIA FINANCEIRA

Ela não precisou abrir. O conteúdo já era conhecido. Era apenas a confirmação do que os envelopes na noite anterior já haviam dito de outra forma.

Como se adivinhasse exatamente o caos da vida dela, uma mensagem de Peter apareceu logo em seguida:

“Se eu descobrir que você esqueceu de comer de novo, vou pessoalmente te dar na cara.”

Sarah finalmente sorriu.

Peter tinha o estranho talento de transformar preocupação em ameaça.

Ela respondeu rápido:

Se eu morrer, pelo menos economizo aluguel.”

A resposta veio quase imediatamente.

Jesus Cristo, Sarah.”

Ela soltou uma pequena risada antes de guardar o celular e continuar andando.

O caminho até a estação parecia sempre igual. As mesmas calçadas, os mesmos postes, os mesmos rostos passando sem realmente se notar.

O metrô chegou alguns minutos depois.

Sarah entrou junto com o fluxo da manhã e sentou perto da janela.

Dessa vez, não encostou a cabeça no vidro.

Enquanto o trem seguia seu trajeto, ela abriu a mochila e revisou rapidamente o conteúdo da prova.

Em algum momento, desbloqueou o celular outra vez e abriu o aplicativo do banco.

Saldo insuficiente. Fatura atrasada. Mensalidade pendente.

Ela observou os números por tempo demais antes de bloquear a tela novamente.

Quando chegou à estação da universidade, saiu junto das outras pessoas.

O campus ficava alguns quarteirões adiante.

No caminho, cruzou com grupos de estudantes conversando alto demais sobre viagens, carros, estágios e apartamentos pagos pelos pais.

— Você vai pra Aspen no recesso?

— Minha mãe quer ir pra Europa de novo.

As risadas vinham fáceis.

Sarah atravessou o grupo sem diminuir o passo.

Frequentavam a mesma universidade, mas claramente não viviam no mesmo mundo.

O prédio de Direito apareceu logo à frente.

Mais uma prova. Mais um dia tentando sobreviver naquele lugar.

As salas já começavam a encher quando ela entrou.

Conversas se espalhavam em pequenos grupos, sempre o contraste gritante contra a realidade dela.

Sarah ocupou uma cadeira no fundo da sala e retirou os materiais da mochila sem chamar atenção.

Perto dela, duas garotas conversavam enquanto organizavam os notebooks.

— Meu pai surtou quando eu falei que talvez recusasse o estágio da Lockwood.

— Você tá maluca? Eles pagam muito.

— Eu sei. Mas eu queria Nova York…

Na frente da sala, um rapaz comentava animado:

— Kane Group abriu processo seletivo de novo.

— Dizem que é impossível entrar sem indicação.

— Imagina trabalhar direto com o Kane…

As vozes continuavam se misturando enquanto Sarah puxava discretamente o celular mais uma vez.

O aplicativo do banco continuava ocupando seus pensamentos.

Ela bloqueou a tela imediatamente.

Nesse momento, a porta da sala se abriu.

O professor entrou carregando uma pilha grossa de provas.

As conversas diminuíram aos poucos.

— Espero que tenham estudado — disse enquanto organizava os papéis. — Porque Direito Empresarial não costuma ter pena de ninguém.

Algumas risadas nervosas surgiram pela sala.

Sarah apenas respirou fundo.

As provas começaram a ser distribuídas.

Quando a folha parou diante dela, sentiu o aperto no peito voltar.

Nunca era só uma prova.

Era mais um passo tentando atravessar um mundo que parecia ter sido feito para pessoas completamente diferentes dela.

A prova terminou com uma atmosfera ainda mais opressiva do que quando havia começado.

Sarah deixou a sala, isolada em seus pensamentos, guardando os materiais com cuidado automático, como se ainda estivesse tentando manter algum controle sobre o dia.

No corredor da universidade, alguém a chamou pelo nome.

— Senhorita Whitmore.

Ela parou.

Um homem mais velho, funcionário administrativo do setor acadêmico, se aproximou com um sorriso treinado. Educado demais para ser espontâneo.

— Precisamos conversar sobre sua situação.

Ela já sabia antes mesmo dele continuar.

Ele conferiu algumas páginas na prancheta que carregava, como se buscasse um tom neutro para a informação.

— Sua bolsa parcial está em risco. Você está acumulando atraso há alguns meses. Se não regularizar pelo menos parte do valor até o fim do mês, o comitê pode suspender o benefício.

O silêncio entre os dois se alongou por um segundo.

Ela apenas assentiu, sem interromper.

Ele fechou a prancheta.

— É uma situação delicada… especialmente para alguém como você.

Ela levantou os olhos.

— Como eu?

Ele sorriu de leve, como se tivesse sido mal interpretado.

— Jovem. Inteligente. Bonita. Tem gente que tem mais facilidade nesse tipo de coisa. Apoio. Ajuda.

A palavra ficou no ar por um instante a mais do que deveria.

— Só estou dizendo que seria uma pena você perder isso por falta de… oportunidades certas.

Sarah não respondeu.

O recado tinha sido claro.

Ela apenas fez um leve aceno com a cabeça.

— Eu vou resolver.

E seguiu andando.

O corredor da universidade continuou cheio de vozes ao redor dela.

Mas nenhuma realmente a alcançava.

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