Capítulo 4

Em West Side, Sarah terminava mais uma transmissão já perto da meia-noite.

O pequeno loft estava diferente agora.

Ainda apertado, simples, improvisado demais.

Mas Peter tinha conseguido transformar um canto específico do apartamento em algo quase cinematográfico.

Luzes baratas posicionadas estrategicamente.

Tecidos presos na parede escondendo parte do concreto gasto.

Alguns elementos de fantasia espalhados pelo cenário.

A câmera posicionada no único ângulo que não denunciava a precariedade do lugar.

Ela jamais teria conseguido montar aquilo sozinha.

Peter havia ajudado em tudo, desde a maquiagem resistente para horas sob iluminação quente até a forma certa de prender a peruca para que não saísse do lugar.

Também tinha ensinado como posar, como olhar para a câmera, como sugerir sem entregar completamente.

E, principalmente: como não sair do personagem.

Você controla o ritmo.”

“Não tenta agradar demais.”

“Homem carente compra fantasia emocional antes de comprar nude.”

Sarah lembrava das frases dele constantemente agora.

Naquela noite, usando novamente o cosplay floral que Peter insistia ser “o mais perigosamente bonito”, ela arrecadara dinheiro suficiente para finalmente pagar uma das parcelas atrasadas da universidade.

Não resolvia sua vida, mas dava a ela o primeiro fôlego real em meses.

A transmissão foi encerrada poucos minutos depois.

As notificações privadas começaram a pipocar na tela.

E entre os nomes na tela, ele se repetia.

John.

Já era a segunda noite consecutiva.

Sarah recostou-se na cadeira observando a conversa aberta enquanto tentava pensar em algo diferente para responder.

As outras interações na plataforma eram previsíveis demais.

Homens diretos, explícitos e ansiosos.

John não.

Ele fixava nos detalhes, o que a deixava estranhamente consciente de si mesma.

Ela já estava ficando sem ideias para novas fotos e poses quando decidiu tentar algo diferente.

Um áudio.

Nada explícito ou exagerado.

Peter provavelmente aprovaria, provocação suficiente para manter curiosidade, sem perder a postura.

Sarah gravou a mensagem.

Depois ouviu a própria voz antes de enviar.

O cursor piscava na tela enquanto ela permanecia imóvel por alguns segundos, como se ainda tentasse decidir até onde estava realmente disposta a ir.

Não era uma pergunta explícita, mas também não era inocente.

Ficava exatamente naquele espaço intermediário que ela vinha aprendendo a ocupar desde que começara aquilo.

Então enviou.

Do outro lado da cidade, Thiago percebeu a notificação surgir na tela.

A reprodução do áudio começou.

A voz dela veio baixa, suave, levemente rouca pelo cansaço do fim da noite.

Sem atuação exagerada, sem aquele tom artificial que ele já tinha aprendido a reconhecer em outras mulheres da plataforma.

Oi, querido… você gosta de ficar sozinho comigo?

A atmosfera do apartamento ganhou um peso diferente.

Thiago permaneceu imóvel no sofá.

O áudio terminou.

E, desde que começara a observá-la, percebeu algo diferente: havia hesitação.

Como se aquela mensagem tivesse exigido mais coragem do que deveria.

Ele permaneceu olhando para a tela por alguns segundos antes de responder.

Não por impulso, por análise.

Eu gosto porque você parece esquecer da câmera às vezes.”

A resposta não dizia exatamente o que ela havia perguntado.

E talvez tenha sido justamente isso que fez Sarah permanecer olhando para a tela por mais tempo do que deveria.

Ela releu a mensagem devagar.

Depois releu novamente.

Já estava acostumada com homens objetivos, explícitos e previsíveis demais.

Mas aquele homem notava coisas diferentes.

E, pela primeira vez desde que começara na plataforma, Sarah sentiu a desconfortável sensação de ser percebida além da personagem.

O cursor piscava no campo de resposta, mas ela não digitava nada.

Porque não sabia exatamente o que responder àquilo.

Nenhum homem naquela plataforma tinha dito algo parecido antes.

Eles normalmente elogiavam seu corpo, a fantasia, sua voz… Pediam mais, sempre mais.

Como se todos assistissem esperando que alguma barreira finalmente desaparecesse.

Mas John capturava os intervalos.

As distrações, os momentos em que ela relaxava sem perceber.

Sarah apoiou os braços sobre a mesa improvisada do computador e soltou o ar devagar.

O loft ainda estava iluminado pelas luzes rosadas que usava nas transmissões. Fora daquele enquadramento específico, porém, o cenário encolhia, mais real.

Ela olhou para a própria imagem refletida parcialmente na tela escura ao lado da conversa.

Por um instante, sentiu vontade de fechar tudo.

Desligar as luzes, fingir que aquela interação não tinha mexido com ela.

Mas não fechou.

Antes que pudesse pensar demais, respondeu:

Talvez eu esqueça porque você fica quieto demais.”

Ela enviou antes de reconsiderar.

O coração acelerou logo depois.

Uma reação desproporcional para alguém que estava apenas falando com um desconhecido na internet.

Do outro lado da cidade, Thiago leu a mensagem sem mudar de expressão.

A observação o atingiu de forma estranhamente precisa, porque era verdade.

Ele permanecia em silêncio quase o tempo todo.

Como se qualquer reação emocional mais evidente quebrasse alguma lógica interna que ele ainda tentava preservar.

Até ali, ele fora apenas um espectador invisível, mas Thiago percebeu algo incômodo: ela também começava a observá-lo de volta.

Sarah ficou encarando a própria mensagem depois de enviá-la.

Como se, ao reler, pudesse apagar a sensação estranha que aquilo havia causado.

Ela já tinha aprendido a controlar conversas naquele ambiente. Sabia conduzir atenção, com uma distância segura, encerrando assuntos antes que se tornassem pessoais demais.

Era parte da lógica daquele lugar, nada ali deveria parecer real.

E, ainda assim, aquela conversa começava a escapar exatamente para esse território.

A resposta demorou alguns minutos, mais do que as anteriores.

Quando finalmente apareceu, veio simples:

Fico quieto porque você parece mais interessante quando esquece que está sendo observada.”

Sarah sentiu o estômago apertar de forma involuntária.

Não era flerte direto, nem provocação. O problema era justamente esse.

Aquela forma calma de responder fazia parecer que ele realmente estava prestando atenção.

Não na personagem, nela.

Ela retirou a peruca, e passou a mão pelos cabelos, desviando o olhar por um instante.

As luzes rosadas da transmissão ainda permaneciam acesas, tingindo as paredes gastas do apartamento com uma estética bonita demais para aquele lugar.

Bonita demais para a realidade dela.

Sem perceber, Sarah olhou ao redor.

A cama desarrumada. Os livros empilhados perto da mesa.

As contas.

O figurino cuidadosamente montado para esconder tudo aquilo durante as transmissões.

Então surgiu uma pergunta desconfortável:

O quanto aquele homem estava realmente enxergando?

Do outro lado da cidade, Thiago permanecia na mesma posição, o celular apoiado entre os dedos.

Aquilo deveria ser superficial. Limitado. Controlado.

Mas a conversa começava a ganhar pausas e respiros espontâneos.

Como duas pessoas que ainda não sabiam exatamente por que continuavam ali.

Ele percebia a direção que aquela conversa começava a tomar.

Desta vez, decidiu parar de apenas observar.

Os dedos deslizaram lentamente pela tela.

Então ele digitou:

E você… gosta quando esquece?”

Sarah leu a mensagem devagar.

O calor subiu pela pele, desconfortável pela naturalidade com que aquilo a atingia.

Porque era pior do que algo explícito, era íntimo.

Ela demorou mais para responder dessa vez.

Tentou pensar em algo leve e distante, que devolvesse o jogo para um território seguro.

Mas a verdade era que aquele homem a desarmava, justamente por nunca agir como os outros.

Ela apoiou o queixo na mão, depois digitou:

Talvez dependa de quem está olhando.”

Ambos sabiam que aquela linha invisível tinha ficado para trás.

Thiago leu a mensagem, a mandíbula tensionou discretamente.

A resposta dela saía da defensiva, atingindo direto o subtexto dele.

E aquilo alterou alguma coisa no ambiente.

A cidade continuava brilhando atrás dos vidros enormes, mas ele já não prestava atenção em mais nada além daquela conversa.

Sarah percebeu tarde demais que já não estava conduzindo a conversa, e isso a deixou perigosamente alerta.

Normalmente, naquele ponto, os homens começavam a pedir coisas.

Fotos. Vídeos. Detalhes.

A conversa deixava de ser conversa e se tornava consumo, mas John demonstrava conforto com o ritmo lento, como se não tivesse pressa de transformar aquilo em alguma coisa menor.

A próxima mensagem surgiu.

Então me diz uma coisa.”

Sarah endireitou levemente a postura sem perceber.

O quê?”

A resposta demorou poucos segundos dessa vez.

Você fica assim com todo mundo?”

Ela franziu levemente o cenho.

Assim como?”

Thiago observava atentamente o indicador de digitação aparecer e desaparecer.

Ela estava pensando antes de responder, isso também era diferente.

Finalmente, a mensagem chegou:

Não sei exatamente como estou agora.”

Thiago soltou uma respiração baixa pelo nariz, quase imperceptível, aquela resposta carregava honestidade demais para aquele ambiente.

Ele se levantou do sofá e caminhou até a janela do apartamento, ainda segurando o celular.

Então respondeu:

Acho que você sabe.”

Sarah sentiu o coração acelerar outra vez, e odiou perceber isso.

Porque já não era apenas um homem qualquer na internet.

A conversa começava a ganhar peso.

Ela tentou rir sozinha da própria reação.

Ridículo, era só um desconhecido. Um nome falso. Uma conversa atravessando a madrugada.

Mas, ainda assim, os dedos dela demoraram um pouco mais sobre o celular antes de responder:

Como você acha que eu estou agora?”

O intervalo foi arrastado, carregado de intenção.

Thiago passou o polegar pela lateral do aparelho.

Então escreveu:

Menos distante do que tenta parecer.”

Ela encarou o relógio no canto da tela. Já passava muito da meia-noite.

Os dedos dela pairaram sobre o teclado antes de digitarem quase por impulso:

Você sempre fica acordado até essa hora?”

Depois de enviar, ela percebeu a mudança. A pergunta já não fazia parte do jogo da plataforma.

Não era provocação. Nem personagem. Era curiosidade.

Do outro lado da cidade, Thiago leu a mensagem, percebendo exatamente a mesma coisa.

Ele apoiou uma das mãos no vidro frio da janela enquanto pensava na mensagem, simples, casual. O que exigia uma resposta real.

Ele demorou alguns segundos antes de responder:

Quase sempre. O trabalho ajuda nisso.”

A mensagem foi enviada, antes que pudesse reconsiderar.

Sarah leu, o olhar desceu involuntariamente para as próprias apostilas espalhadas pela cama.

Livros de Direito.

Anotações.

Prazos.

Exaustão.

Ela apoiou a cabeça na parede atrás de si, ainda segurando o celular.

Achei que pessoas como você dormissem cedo.”

Thiago acompanhou a frase surgir na tela.

Pessoas como você — aquela definição vaga o intrigou mais do que deveria.

E que tipo de pessoa eu sou para você?”

Sarah soltou um riso cansado.

Não sei. Alguém que tem tudo sob controle.”

Do outro lado da cidade, Thiago permaneceu imóvel.

Aquela frase atingindo um lugar que ele normalmente mantinha inacessível.

Porque controle era exatamente a máscara que ele usava.

A couraça que sustentava e ninguém questionava.

Mas naquela madrugada, olhando para a conversa aberta no celular, Thiago percebeu algo desconfortável: fazia muito tempo que não se sentia genuinamente presente em uma conversa simples assim.

Ele observou a própria resposta por alguns segundos antes de enviar.

Como se soubesse exatamente o tipo de linha que aquela conversa começava a atravessar.

Então escreveu:

Talvez o que eu esteja buscando seja alguém que me faça perder o controle.”

Sarah sentiu o ar prender por um instante.

A frase não trazia impulsividade nem carência.

Foi justamente a calma dela que a tornou perigosa.

Ela releu devagar, tentando entender se aquilo era provocação… ou honestidade.

Thiago permanecia encostado na janela, observando os prédios, a pouca movimentação de Gold Coast naquele horário.

A conversa começava a adquirir um ritmo diferente, menos analítico. Mais íntimo.

E Sarah percebeu isso também.

Ela imaginou como seria a voz dele dizendo aquelas palavras.

Calma, baixa. Tranquilo demais para alguém falando sobre se perder.

Ela mordeu levemente o canto dos lábios antes de responder:

E você costuma encontrar isso?”

O indicador de digitação piscou na tela.

Mas cessou antes que a mensagem ganhasse forma.

Ela começou e desistiu de digitar mais uma vez.

Sarah observava, sem perceber o pequeno sorriso cansado que surgia no canto da boca.

Era algo totalmente novo, conversar com alguém que não queria apenas consumir uma fantasia. Mas atravessá-la.

Thiago ponderava sobre o que responder.

Ela tinha feito uma pergunta simples, mas a resposta cobrava um nível de honestidade que ele normalmente evitava.

Finalmente, a mensagem chegou.

Não. Normalmente as pessoas querem ser desejadas.”

Sarah passou os olhos pelas palavras, estática.

E antes que pudesse responder, outra surgiu logo abaixo.

Você parece querer ser compreendida.”

O coração dela deu um salto, porque aquilo atravessava lugares intensos demais para uma conversa entre desconhecidos.

Sarah afastou o rosto da tela, encarando o teto como se precisasse de ar.

Ela voltou para a conversa, hesitante:

E isso é ruim?”

Thiago soltou uma respiração baixa enquanto lia.

O celular ainda apoiado na mão.

Ele poderia ter encerrado ali, transformado a interação em algo superficial outra vez.

Seria o mais lógico, o mais seguro. Mas não fez isso.

Acho que depende do que acontece quando alguém realmente consegue.”

Sarah ficou imóvel olhando para a frase.

Sentindo que já não existia tanta distância entre personagem e realidade quanto deveria existir.

E isso talvez fosse mais denso do que qualquer desejo explícito.

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