Mundo ficciónIniciar sesiónA casa estava finalmente em silêncio quando Helena chegou.
O caminho de volta foi longo demais para alguém que mal lembrava do trajeto. As luzes da cidade passavam pela janela do carro como reflexos distantes, e ela não disse quase nada durante todo o percurso. Caio também não. E isso dizia mais do que qualquer discussão. Quando entrou no apartamento, Helena tirou os saltos ainda na entrada, deixando-os de lado sem cuidado. O corpo estava cansado, mas a mente… a mente parecia mais acordada do que nunca. — Você quer falar sobre isso? — a voz de Caio veio atrás dela. Helena soltou uma pequena risada sem humor enquanto caminhava até a sala. — Sobre qual parte? — perguntou, virando-se lentamente. — A parte em que a tua colega aparece na festa da minha família como se fosse convidada… ou a parte em que você acha que isso é um “mal-entendido”? Caio passou a mão pelo rosto. — Você está distorcendo as coisas. — Estou? O silêncio que veio depois foi curto e pesado. Caio aproximou-se alguns passos, mantendo a voz baixa. — Eu não sabia que ela viria. Helena sustentou o olhar dele. — E ainda assim você não ficou surpreso o suficiente. A frase ficou suspensa no ar. Caio abriu a boca como se fosse responder… mas hesitou. Dessa vez, ela viu claramente. A dúvida. O cálculo. A escolha da resposta. — Eu fiquei surpreso — disse ele por fim. Mas já era tarde. Porque quando a verdade chega atrasada, ela já não soa como verdade. Helena desviou o olhar. — Eu estou cansada, Caio. Ele pareceu relaxar um pouco, como se aquilo fosse uma rendição. — Eu também. Vamos dormir e— — Não é esse tipo de cansaço. A interrupção foi suave. Mas firme. Caio ficou em silêncio. Helena passou as mãos pelos braços, como se sentisse frio. — É um cansaço de… não saber em que parte da realidade eu estou vivendo. Ele deu um passo à frente. — Você está vivendo comigo. Ela ergueu os olhos devagar. — É isso que me assusta. O impacto da frase foi imediato. Caio ficou imóvel por um segundo. Depois, aproximou-se mais, agora com aquele cuidado controlado que Helena já conhecia. — Você está deixando coisas pequenas virarem algo grande demais. Helena riu baixo. — Pequenas? Ela deu um passo para trás. — Telefone escondido. Perfume de outra mulher. Olhares que você finge não ver. E agora ela aparecendo na casa dos meus pais. Ela inclinou a cabeça. — Se isso é pequeno… eu tenho medo do que você considera grande. Caio ficou em silêncio. E, pela primeira vez, não tentou interromper. Não tentou corrigir imediatamente. O que era… estranho. — Você confia em mim? — ele perguntou. A pergunta veio direta e Simples. Helena não respondeu de imediato. Porque aquela não era uma pergunta sobre amor. Era uma armadilha. Ela respirou fundo. — Eu confiava. A mudança de tempo verbal foi pequena. Mas suficiente. Caio endureceu o maxilar. — E agora? Helena demorou alguns segundos. — Agora… eu estou tentando decidir se fui ingênua ou se estou ficando paranoica. O silêncio caiu pesado entre os dois. Diferente dos outros. Caio passou a mão pelo cabelo, claramente irritado agora. — Isso já está passando dos limites. — Talvez — Helena respondeu. — Ou talvez eu esteja chegando perto demais deles. Ele não respondeu. E isso confirmou mais do que qualquer confissão. O ar entre os dois ficou tenso demais para continuar ali. Helena virou-se e começou a caminhar em direção ao quarto. — Eu vou tomar banho. — Helena— Ela parou. Mas não se virou. — Eu não vou discutir mais hoje. A frase não foi fria. Caio não insistiu. E isso, de alguma forma, foi pior. Minutos depois, já no quarto, Helena entrou no banheiro e fechou a porta atrás de si. A água do chuveiro caiu quente demais, mas ela não se afastou. Ficou ali, imóvel, deixando o barulho preencher o silêncio que não queria enfrentar. Mas nem isso foi suficiente. Porque a mente dela continuava voltando para a mesma coisa: o olhar de Caio quando viu Bianca. Não foi surpresa. Foi reconhecimento. Quando saiu do banho, o quarto estava vazio. A luz do abajur acesa. A cama arrumada. E o telemóvel de Caio… sobre a mesa de cabeceira. Helena parou. O coração começou a bater mais rápido. Não por impulso. Mas por decisão. Dessa vez… não havia distração. Não havia desculpa para recuar. Ela caminhou devagar até a mesa. Parou diante do telemóvel. Ficou alguns segundos apenas olhando. Como se ainda esperasse que a consciência a impedisse. Mas não impediu. A mão dela se moveu. Pegou o aparelho. A tela acendeu. Bloqueada. Helena respirou fundo. Claro. Ela quase soltou uma risada. Mas então… a tela iluminou novamente. Uma notificação. Sem desbloquear. Só o suficiente para aparecer na parte superior. E aquilo… foi suficiente. “Bianca: Amanhã precisamos falar. O mundo de Helena pareceu parar. O ar ficou pesado. O coração disparou. Ela leu outra vez. Devagar. Como se as palavras pudessem mudar. Mas não mudaram. Não era ela. Não era Helena. Era outra pessoa. Helena sentiu os dedos apertarem o telemóvel. O corpo inteiro ficou tenso. E, pela primeira vez desde o início de tudo… não foi dúvida que ela sentiu. Foi certeza. E essa certeza era muito mais assustadora. Porque significava apenas uma coisa: ela não estava imaginando. Ela estava atrasada.






