capítulo 6- O Quase Segredo

A casa estava finalmente em silêncio quando Helena chegou.

O caminho de volta foi longo demais para alguém que mal lembrava do trajeto. As luzes da cidade passavam pela janela do carro como reflexos distantes, e ela não disse quase nada durante todo o percurso.

Caio também não.

E isso dizia mais do que qualquer discussão.

Quando entrou no apartamento, Helena tirou os saltos ainda na entrada, deixando-os de lado sem cuidado. O corpo estava cansado, mas a mente… a mente parecia mais acordada do que nunca.

— Você quer falar sobre isso? — a voz de Caio veio atrás dela.

Helena soltou uma pequena risada sem humor enquanto caminhava até a sala.

— Sobre qual parte? — perguntou, virando-se lentamente. — A parte em que a tua colega aparece na festa da minha família como se fosse convidada… ou a parte em que você acha que isso é um “mal-entendido”?

Caio passou a mão pelo rosto.

— Você está distorcendo as coisas.

— Estou?

O silêncio que veio depois foi curto e pesado.

Caio aproximou-se alguns passos, mantendo a voz baixa.

— Eu não sabia que ela viria.

Helena sustentou o olhar dele.

— E ainda assim você não ficou surpreso o suficiente.

A frase ficou suspensa no ar.

Caio abriu a boca como se fosse responder… mas hesitou.

Dessa vez, ela viu claramente.

A dúvida. O cálculo. A escolha da resposta.

— Eu fiquei surpreso — disse ele por fim.

Mas já era tarde.

Porque quando a verdade chega atrasada, ela já não soa como verdade.

Helena desviou o olhar.

— Eu estou cansada, Caio.

Ele pareceu relaxar um pouco, como se aquilo fosse uma rendição.

— Eu também. Vamos dormir e—

— Não é esse tipo de cansaço.

A interrupção foi suave. Mas firme.

Caio ficou em silêncio.

Helena passou as mãos pelos braços, como se sentisse frio.

— É um cansaço de… não saber em que parte da realidade eu estou vivendo.

Ele deu um passo à frente.

— Você está vivendo comigo.

Ela ergueu os olhos devagar.

— É isso que me assusta.

O impacto da frase foi imediato.

Caio ficou imóvel por um segundo.

Depois, aproximou-se mais, agora com aquele cuidado controlado que Helena já conhecia.

— Você está deixando coisas pequenas virarem algo grande demais.

Helena riu baixo.

— Pequenas?

Ela deu um passo para trás.

— Telefone escondido. Perfume de outra mulher. Olhares que você finge não ver. E agora ela aparecendo na casa dos meus pais.

Ela inclinou a cabeça.

— Se isso é pequeno… eu tenho medo do que você considera grande.

Caio ficou em silêncio.

E, pela primeira vez, não tentou interromper. Não tentou corrigir imediatamente.

O que era… estranho.

— Você confia em mim? — ele perguntou.

A pergunta veio direta e Simples.

Helena não respondeu de imediato.

Porque aquela não era uma pergunta sobre amor.

Era uma armadilha.

Ela respirou fundo.

— Eu confiava.

A mudança de tempo verbal foi pequena.

Mas suficiente.

Caio endureceu o maxilar.

— E agora?

Helena demorou alguns segundos.

— Agora… eu estou tentando decidir se fui ingênua ou se estou ficando paranoica.

O silêncio caiu pesado entre os dois.

Diferente dos outros.

Caio passou a mão pelo cabelo, claramente irritado agora.

— Isso já está passando dos limites.

— Talvez — Helena respondeu. — Ou talvez eu esteja chegando perto demais deles.

Ele não respondeu.

E isso confirmou mais do que qualquer confissão.

O ar entre os dois ficou tenso demais para continuar ali.

Helena virou-se e começou a caminhar em direção ao quarto.

— Eu vou tomar banho.

— Helena—

Ela parou.

Mas não se virou.

— Eu não vou discutir mais hoje.

A frase não foi fria.

Caio não insistiu.

E isso, de alguma forma, foi pior.

Minutos depois, já no quarto, Helena entrou no banheiro e fechou a porta atrás de si.

A água do chuveiro caiu quente demais, mas ela não se afastou.

Ficou ali, imóvel, deixando o barulho preencher o silêncio que não queria enfrentar.

Mas nem isso foi suficiente.

Porque a mente dela continuava voltando para a mesma coisa:

o olhar de Caio quando viu Bianca.

Não foi surpresa.

Foi reconhecimento.

Quando saiu do banho, o quarto estava vazio.

A luz do abajur acesa.

A cama arrumada.

E o telemóvel de Caio… sobre a mesa de cabeceira.

Helena parou.

O coração começou a bater mais rápido.

Não por impulso.

Mas por decisão.

Dessa vez… não havia distração. Não havia desculpa para recuar.

Ela caminhou devagar até a mesa.

Parou diante do telemóvel.

Ficou alguns segundos apenas olhando.

Como se ainda esperasse que a consciência a impedisse.

Mas não impediu.

A mão dela se moveu.

Pegou o aparelho.

A tela acendeu.

Bloqueada.

Helena respirou fundo.

Claro.

Ela quase soltou uma risada.

Mas então…

a tela iluminou novamente.

Uma notificação.

Sem desbloquear.

Só o suficiente para aparecer na parte superior.

E aquilo…

foi suficiente.

“Bianca: Amanhã precisamos falar.

O mundo de Helena pareceu parar.

O ar ficou pesado.

O coração disparou.

Ela leu outra vez.

Devagar.

Como se as palavras pudessem mudar.

Mas não mudaram.

Não era ela.

Não era Helena.

Era outra pessoa.

Helena sentiu os dedos apertarem o telemóvel.

O corpo inteiro ficou tenso.

E, pela primeira vez desde o início de tudo…

não foi dúvida que ela sentiu.

Foi certeza.

E essa certeza era muito mais assustadora.

Porque significava apenas uma coisa:

ela não estava imaginando.

Ela estava atrasada.

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