Dois dias depois do jantar, Helena estava diante do espelho, colocando os brincos de pérola que a mãe lhe dera anos antes.
A festa daquela noite era pequena, organizada por amigos próximos para celebrar a semana do casamento. Nada grande demais. Nada que exigisse tensão.
Mesmo assim, ela não estava tranquila.
Desde o jantar no restaurante, uma inquietação insistia em ficar.
Caio parecia normal quando queria.
Mas havia momentos em que algo nele simplesmente… escapava.
Ela só não sabia o quê.
— Ainda não está pronta? — a voz dele surgiu atrás dela.
Helena ergueu os olhos pelo espelho.
Caio estava encostado à porta, de camisa escura e gravata afrouxada. Bonito como sempre. Seguro como sempre.
Por um instante, foi fácil esquecer qualquer desconfiança.
— Só falta o batom — ela respondeu.
Ele se aproximou devagar e parou atrás dela, pousando as mãos em sua cintura.
— Você sabe que vai chamar mais atenção do que a festa inteira, não sabe?
Helena sorriu de leve.
— Isso foi ensaiado?
— Talvez.
Ela soltou um pequeno riso. Caio inclinou-se como se fosse beijá-la, mas parou antes.
— Melhor não estragar o batom.
— Que consideração — ela provocou.
Ele sorriu, e por alguns segundos tudo pareceu simples outra vez.
A festa acontecia no terraço de um hotel, com luzes suaves, música baixa e um clima elegante demais para algo que deveria ser apenas íntimo.
Helena tentou relaxar.
Caio ficou ao lado dela no começo, apresentou-a a alguns colegas de trabalho, segurou sua mão, guiou-a entre os convidados com aquela naturalidade que sempre a fazia sentir-se escolhida.
Era quase o suficiente para fazê-la pensar que talvez estivesse exagerando.
— Helena!
Ela virou-se ao ouvir seu nome.
Bianca Salazar aproximava-se com um vestido preto ajustado, salto alto e um sorriso bonito demais para parecer inocente.
— Você está linda — Bianca disse. — Caio tem muita sorte.
— Obrigada — Helena respondeu, educada.
Bianca então olhou para Caio.
— Ainda tens de me mostrar aqueles relatórios depois.
— Depois — ele respondeu, curto.
O tom dele foi seco, mas Bianca não pareceu se importar.
Pelo contrário.
Sorriu como quem já conhecia aquele tipo de resposta e sabia exatamente como lidar com ele.
Helena percebeu.
Não era nada concreto.
Mas também não parecia casual.
Mais tarde, depois de alguns cumprimentos, comentários sobre casamento e taças de champanhe, Helena percebeu que Caio já não estava ao seu lado.
Ela olhou em volta.
Nada.
Talvez estivesse no bar.
Talvez no telefone.
Talvez falando com alguém do trabalho.
Tentando não criar uma preocupação desnecessária, começou a procurá-lo discretamente.
Foi então que o encontrou.
Caio estava num canto mais reservado do terraço, perto da grade de vidro que dava vista para a cidade.
E Bianca estava com ele.
Os dois conversavam de um jeito próximo demais.
Bianca sorria.
Caio também.
Helena desacelerou sem perceber.
Ela ficou alguns passos atrás, longe o suficiente para não ser vista, perto o bastante para notar detalhes que preferia não ver.
Bianca tocou o braço dele.
Depois o peito, de leve, como se tivesse liberdade para isso.
Caio não se afastou.
O desconforto apertou o peito de Helena que quase faltou ar.
Não era só ciúme.
Era algo pior.
Algo que começava a parecer verdade.
Ela tentou convencer-se de que era só uma conversa.
Só isso.
Mas então Bianca inclinou-se devagar. Confiante demais. Como alguém que já tinha feito aquilo antes.
Como se fosse lhe dar um beijo no rosto.
Só que foi perto demais.Perto demais da boca.
Helena sentiu o corpo inteiro endurecer.
No segundo seguinte, já estava andando na direção deles.
— O que está acontecendo aqui?
A voz saiu mais alta do que ela queria.
Os dois se afastaram imediatamente.
Bianca foi a primeira a recuperar a postura.
— Helena…
— Não. — ela ergueu a mão. — O que foi isso?
Caio passou a mão pelo rosto, visivelmente irritado.
Por um segundo, antes de responder, Caio desviou o olhar.
— Você está fazendo uma cena por quê?
Helena olhou para ele, sem acreditar.
— Uma cena? Eu acabei de ver essa mulher praticamente te beijar.
Bianca cruzou os braços.
— Eu fui dar um beijo no rosto dele.
— Isso não foi normal.
— Na tua opinião — Bianca respondeu, calma demais.
Aquilo bastou para Helena perder a paciência.
— Você está sempre perto demais. Sempre íntima demais. E ele age como se isso fosse completamente aceitável.
Bianca ergueu uma sobrancelha.
— Talvez porque seja.
Antes que Helena respondesse, Caio segurou seu braço e a puxou levemente para o lado.
O gesto não foi agressivo.
Mas foi firme o bastante para fazê-la parar.
— Chega — ele disse em voz baixa.
Helena o encarou.
— Você acha isso normal?
— Acho ridículo você transformar isso num problema.
A palavra bateu forte.
Ridículo.
Como se ela estivesse inventando tudo.
Como se o que sentiu não tivesse valor.
— Eu estou cansada de ser tratada como exagerada — Helena disse, tentando manter a voz firme. — Você não vê como ela age contigo?
Caio soltou um suspiro curto, impaciente.
— Helena, você está nervosa com o casamento e está vendo coisa onde não existe.
Ela ficou em silêncio por um instante.
Era sempre assim.
Quando ela se aproximava de alguma verdade, ele a fazia recuar.
Não com gritos.
Não com raiva.
Mas com aquele tom controlado que a fazia duvidar de si mesma.
Caio levou a mão ao rosto dela e tocou sua bochecha.
O gesto parecia carinhoso.
Só não parecia honesto.
— Olha para mim — ele murmurou.
Helena levantou os olhos.
— Eu vou casar com você, Helena. Não com ela.
A frase atingiu exatamente onde ela era mais fraca.
Porque era isso que ela queria ouvir.
Mesmo quando já não bastava.
Caio inclinou-se e beijou sua testa.
— Confia em mim.
Helena fechou os olhos por um segundo.
E, contra tudo o que sentia, deixou-se acalmar.
Não porque acreditasse completamente.
Mas porque não queria enfrentar a possibilidade de estar certa.
Quando voltou a abrir os olhos, Bianca já havia se afastado.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se nunca tivesse cruzado um limite.
Caio passou o braço pelos ombros de Helena e a conduziu de volta para a festa.
Por fora, parecia um gesto de cuidado.
Por dentro, soava mais como contenção.