Capítulo 7 - Ilusão

A sala estava silenciosa, mas não era um silêncio tranquilo. Era estranho. Daquele tipo que parecia crescer pelas paredes e deixar o ar difícil de respirar.

Helena andava de um lado para o outro descalça, segurando o telemóvel enquanto olhava para a tela apagada pela milésima vez naquela noite.

Nenhuma mensagem e nenhuma ligação.

Ela parou perto da mesa de centro e ficou olhando para a pequena caixa de veludo aberta diante dela.

As alianças brilhavam sob a luz baixa do abajur.

Helena aproximou-se devagar e passou a ponta dos dedos sobre uma delas.

— Como é que uma coisa tão pequena consegue pesar tanto…?

O telemóvel vibrou na mão dela. Ela atendeu rápido demais.

— Onde você está?

A voz de Caio surgiu calma do outro lado da linha.

— No escritório. Já estou terminando.

Helena fechou os olhos por um instante.

— Terminando? Caio, são quase onze da noite.

— Eu sei.

— Você disse que vinha cedo hoje.

O silêncio foi curto. Mas o suficiente para irritá-la.

— Surgiu um problema.

Helena soltou uma risada seca.

— Claro que surgiu.

— Helena—

— Não faz isso.

— Fazer o quê?

— Falar comigo como se eu fosse uma criança exagerando tudo.

Caio suspirou do outro lado da linha.

— Você está nervosa.

— Engraçado. Você sempre usa essa palavra quando eu começo a perceber alguma coisa.

— Porque você anda vendo problema em tudo.

Helena ficou imóvel e apertou o telemóvel com força.

— Então agora eu invento coisas?

— Eu não disse isso.

— Não precisa dizer diretamente. Você faz parecer.

Caio respirou fundo. Ela conseguia imaginar perfeitamente a expressão dele naquele momento. Como se estivesse lidando com alguém irracional e aquilo a machucava mais do que uma discussão.

— Helena, olha o estado das últimas semanas.

— O estado das últimas semanas foi criado por você.

— Por mim?

— Sim. Por você. Pelos seus segredos, pelas suas respostas curtas, pela Bianca aparecendo em todos os lugares da nossa vida—

— Bianca de novo.

A forma como ele disse aquilo fez Helena sentir o peito apertar. Como se ela estivesse falando de algo ridículo e sem importância.

— Você age como se eu fosse louca por perceber o jeito que ela olha pra você.

— Porque isso é coisa da tua cabeça.

A frase caiu pesada. Helena ficou em silêncio por alguns segundos.

— Coisa da minha cabeça?

— Sim.

— Eu vi ela quase te beijar.

— Ela foi me cumprimentar.

— Não mente pra mim.

A voz dela saiu mais alta dessa vez e frágil também.

— Helena, você está transformando tudo numa ameaça.

— Porque tudo parece uma ameaça!

O silêncio do outro lado da linha aumentou. Ela respirou fundo, tentando controlar a própria voz.

— Você chega tarde, esconde o telemóvel, ela aparece em todo lugar, você fica estranho quando ela está perto e ainda quer que eu ache isso normal?

Caio soltou um suspiro de exaustão.

— Você está criando uma história inteira na sua cabeça.

Aquilo doeu muito, porque era exatamente esse o problema.

Ela já não sabia se estava imaginando coisas… ou se ele só era bom demais em fazê-la duvidar de si mesma.

— Eu estou cansada, Caio.

— Eu também.

— Não. Você não entende.

— Então me explica.

Helena abriu a boca mas nada saiu.

Porque como explicar aquela sensação horrível de amar alguém e, ao mesmo tempo, sentir medo da verdade sobre ele?

— Esquece — ela murmurou.

— Helena—

— Só chega.

E desligou. Ficou parada no meio da sala olhando para a tela apagada esperando que talvez ele ligasse de volta ou talvez insistisse e percebesse que ela estava desmoronando. Mas Nada.

O telemóvel continuou silencioso.

Helena soltou o ar devagar e jogou o aparelho no sofá.

Foi até a cozinha e abriu um armário. Pegou um copo. Depois desistiu e o largou outra vez e voltou para a sala. Sentou-se e a Levantar-se imediatamente.

O coração dela parecia incapaz de descansar. O som da chave girando na fechadura fez seu corpo inteiro congelar.

Ela virou-se rápido. Mas quem entrou não foi Caio.

— Se você estiver chorando, eu finjo que não vi.

Helena piscou surpresa.

— Lívia?

A amiga entrou segurando uma garrafa de vinho e uma bolsa enorme no ombro. Ela sempre andava com uma cópia da chave a caso de uma emergência.

— Você parece decepcionada.

— Eu achei que fosse ele.

— Ainda bem que não sou.

Helena soltou uma pequena risada.

Lívia fechou a porta com o pé e ficou observando Helena por alguns segundos. Depois cruzou os braços.

— Certo. Isso está pior do que eu imaginei.

— Eu estou bem.

Lívia arqueou uma sobrancelha.

— Você está andando em círculos igual personagem principal de thriller psicológico.

— Você exagera.

— Não. Você está a dois minutos de surtar e eu te conheço o suficiente pra perceber isso.

Helena desviou os olhos.

— Ele ainda não chegou?

— Escritório.

Lívia soltou uma pequena risada.

— Claro.

Foi até a cozinha sem pedir permissão, pegou duas taças e voltou já abrindo a garrafa.

— Senta.

— Lívia…

— Helena. Senta.

Ela obedeceu. Mais porque estava cansada do que qualquer outra coisa.

Lívia serviu vinho nas duas taças e entregou uma delas.

— Agora responde uma pergunta.

Helena suspirou colocando a mão no rosto.

— Isso nunca termina bem.

— Confia nele?

A pergunta atravessou Helena imediatamente.

Ela ficou em silêncio com os olhos presos no vinho.

Lívia suspirou.

— Eu vou precisar repetir?

— Não.

A voz saiu baixa. Quase inaudível.

— Eu ouvi.

— Então responde.

Helena fechou os olhos por um instante. Depois murmurou:

— Eu não sei.

Lívia assentiu devagar.

Como se aquilo confirmasse algo que ela já imaginava.

— Então temos um problema sério.

— Eu amo ele.

— Eu sei. Mas amor não segura casamento sozinho.

Helena tomou um gole grande do vinho.

— Eu me sinto ridícula.

— Por quê?

— Porque eu não tenho prova de nada.

— Mas tem sensação.

— Sensações podem destruir tudo.

— E ignorar elas também.

Helena ficou em silêncio.

Lívia inclinou-se um pouco para frente.

— Você acha que está ficando louca, não acha?

Os olhos de Helena encheram-se imediatamente de lágrimas.

— Às vezes.

A voz saiu falhando.

— Porque ele consegue fazer parecer que tudo está na minha cabeça.

Lívia respirou fundo.

— Isso é o que mais me preocupa.

— O quê?

— Você começar a duvidar de si mesma antes mesmo de descobrir a verdade.

Helena abaixou os olhos.

— E se realmente estiver tudo na minha cabeça?

— Você acredita nisso?

Helena ficou pensando e demorou para responder.

— Não completamente.

O som da chave na porta interrompeu as duas.

Helena ergueu os olhos imediatamente.

A porta abriu.Caio entrou tirando o casaco enquanto falava:

— O trânsito estava impossível—

Ele parou. Olhou para Helena.Depois para Lívia. Depois para o vinho. O ambiente inteiro ficou pesado.

— Interrompi alguma coisa?

— Só a tua ausência — Lívia respondeu friamente.

Caio fechou a porta devagar.

— Você é sempre tão simpática comigo?

— Só quando necessário.

— Lívia…

— Relaxa, Helena. Eu já estou indo.

Mas Lívia não saiu imediatamente. Ela levantou-se devagar e aproximou-se de Helena.

— Se precisar de mim, me liga.

Depois olhou diretamente para Caio.

— E você devia decidir logo se quer proteger ela… ou continuar confundindo ela.

Caio franziu a testa.

— Desculpa?

— Você ouviu.

Ela pegou a bolsa e saiu.

O silêncio que ficou pareceu sufocante.

Caio largou o casaco no sofá e passou a mão pelo rosto.

— Ela realmente me odeia.

Helena riu.

— Você acha?

— Acho que ela coloca ideias na tua cabeça.

Helena levantou-se imediatamente.

— Não coloca isso nela.

— Então em quem?

Ela aproximou-se dele lentamente.

— Em você.

Caio ficou imóvel.

— Em mim?

— Sim. Em você.

— Helena…

— Não. Hoje você vai me ouvir.

O olhar dele endureceu.

— Estou ouvindo.

— Não. Você nunca ouve de verdade. Você explica tudo de um jeito que me faz sentir exagerada.

— Porque você está exagerando.

Aquilo bateu nela como um tapa. Helena ficou olhando para ele por alguns segundos como se quisesse confirmar o que ele disse foi real.

— Então é isso?

— O quê?

— Você acha que tudo isso é invenção minha?

Caio aproximou-se devagar.

— Eu acho que você está ansiosa com o casamento e começou a transformar pequenas coisas em sinais enormes.

Helena sentiu os olhos arderem.

— Pequenas coisas?

— Sim.

— Bianca aparecer em todo lugar é pequena coisa?

— Ela trabalha comigo.

— O perfume dela na tua camisa é pequena coisa?

— Pessoas se aproximam, Helena.

— Você esconder o telemóvel também?

Caio passou a mão pelo rosto e irritado agora.

— Eu não escondo telemóvel nenhum.

— Então por que fica nervoso toda vez que ele toca?

— Porque eu já sei que você vai transformar isso numa investigação.

Helena soltou uma risada desacreditada.

— Meu Deus…

— O quê?

— Você realmente consegue inverter tudo.

— Não estou invertendo nada.

— Está sim!

A voz dela saiu mais alta.

— Você me faz sentir culpada por perceber coisas estranhas!

— Porque você não confia em mim!

— Me dá motivos então!

Caio aproximou-se mais e parou diante dela.

— Helena, olha pra mim.

Ela não queria, mas forçou-se a olhar.

— Eu amo você.

Ela fechou os olhos por um instante. Porque aquela era a pior parte. Ela acreditava nisso.

— Então por que eu me sinto assim?

A voz dela saiu falhando. Caio tocou o rosto dela devagar.

— Porque você colocou uma ilusão na tua cabeça e começou a alimentar ela.

De repente Helena começou a chorar.

— Não fala assim comigo.

— É verdade.

— Não. Não é.

— Helena, pensa comigo. Se eu estivesse fazendo alguma coisa errada, você acha mesmo que eu estaria aqui? A um dia do casamento? Na tua casa? Na tua frente?

A lógica daquilo era cruelmente convincente.

E ela odiou o fato de uma parte dela querer acreditar.

Caio continuou:

— Você está criando um monstro onde não existe nada.

— Então por que eu sinto isso?

— Porque medo distorce as coisas.

Helena afastou-se dele devagar.

Passou a mão pelos cabelos ainda meio

confusa.

— Você faz parecer tão simples.

— Porque é simples.

Ela virou-se rapidamente.

— Não é simples pra mim!

Caio observou-a por alguns segundos.

Depois se aproximou novamente, como alguém tentando acalmar um animal assustado dentro de uma jaula.

— Falta um dia, Helena.

Ela abaixou os olhos envergonhada.

— Eu sei.

— Nós estamos cansados. Estressados. Sob pressão. Isso mexe com a cabeça.

Ele segurou as mãos dela e enxugou suas lágrimas.

— Mas nada mudou entre nós.

— Eu não quero entrar naquele altar me sentindo assim.

— Então para de alimentar isso.

— Não é tão fácil.

— É sim.

Ele tocou a testa dela com delicadeza.

— Você só precisa confiar em mim.

Helena sentiu os olhos queimarem.

— E se eu estiver certa?

Caio ficou em silêncio por um segundo. Depois sorriu envolvendo-a em um abraço.

— Você não está.

Dessa vez a resposta veio sem hesitação, e isso tranquilizou Helena.

Caio acariciou o rosto dela lentamente.

— Amanhã eu vou estar esperando por você no altar.

A voz dele saiu baixa.

— E quando você olhar pra mim… vai perceber que tudo isso foi só medo.

Helena ficou olhando para ele em silêncio.

Tentando encontrar qualquer coisa que finalmente acabasse com aquela guerra dentro dela. Mas não encontrou nada.

E talvez fosse justamente isso que mais a assustava. O medo de achar que ela estava ficando paranóica.

Ela respirou fundo.

Depois perguntou baixinho:

— Você promete?

Caio segurou o rosto dela entre as mãos.

— Prometo.

Caio a beijou. O tipo de beijo que costumava fazê-la sentir-se segura, nós braços do homem que amava.

Mas desta vez foi diferente. E Helena sentiu medo de dizer “sim”.

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