capítulo 3o telemóvel escondido

Na manhã seguinte, Helena acordou antes do despertador, com aquela sensação estranha de quem passou a noite inteira de olhos fechados, mas nunca realmente descansou.

O quarto ainda estava em silêncio, iluminado pela luz pálida que atravessava as cortinas, e por alguns segundos ela permaneceu imóvel, tentando organizar os próprios pensamentos antes de encarar o dia. Mas não adiantou muito. A cena da noite anterior continuava viva demais na sua cabeça.

Bianca inclinando-se para Caio.

A proximidade.

O desconforto.

E, pior do que tudo, a maneira como ele tinha conseguido fazê-la sair da situação sentindo-se quase culpada por ter reagido.

Helena virou-se devagar para o lado da cama, mas encontrou apenas o lençol amarrotado e ainda morno. Caio já havia levantado.

Ela se sentou, passou a mão pelos cabelos e ficou ouvindo os sons discretos vindos da cozinha: uma gaveta abrindo, o tilintar de uma colher, a água fervendo. Coisas simples, comuns, quase reconfortantes.

Era estranho como a vida conseguia continuar com aparência de normalidade mesmo quando alguma coisa já começava a rachar por dentro.

Quando chegou à cozinha, encontrou Caio de costas para ela, servindo café como se aquela manhã fosse apenas mais uma. Ele vestia uma calça escura de ficar em casa, o cabelo ainda levemente bagunçado, e tinha aquela postura tranquila que sempre o fazia parecer dono de si.

— Bom dia — Helena disse, aproximando-se devagar.

Caio virou o rosto e lançou-lhe um olhar breve, mas atento.

— Bom dia.

O tom dele estava normal. Calmo. E isso só a confundia mais.

Porque Caio nunca era o vilão de forma óbvia. Ele não gritava sem motivo, não fazia escândalos, não a tratava mal o tempo todo. Pelo contrário — era exatamente essa alternância entre frieza e cuidado que tornava tudo mais difícil de entender.

— Fiz café — ele disse, colocando uma xícara sobre a bancada. — Queres?

— Quero.

Helena sentou-se num dos bancos altos da cozinha americana e o observou em silêncio por alguns instantes. O apartamento estava bonito como sempre, arrumado, silencioso, com o cheiro quente do café espalhando-se pelo ar. Tudo ali parecia a vida de um casal prestes a começar uma nova fase.

Mas havia qualquer coisa naquela imagem que já não encaixava direito.

Caio pousou a xícara diante dela e apoiou-se na bancada do outro lado.

— Dormiste mal?

Helena envolveu a porcelana quente com as duas mãos antes de responder.

— Um pouco.

Ele a observou por cima da borda da própria xícara, como se já soubesse o motivo.

— Ainda estás pensando naquilo?

Ela ergueu os olhos.

— Não foi exatamente fácil esquecer.

Caio soltou um suspiro baixo, o tipo de som que não chegava a ser impaciência, mas também não era compreensão.

— Helena…

— Eu não quero discutir — ela disse antes que ele começasse a desmontar tudo de novo. — Só estou tentando entender o que aconteceu.

Por um momento, ele não respondeu. Apenas desviou o olhar para a janela, como se estivesse medindo a melhor forma de conduzir a conversa.

— Não aconteceu nada grave — disse por fim. — Bianca passou dos limites, eu reconheço isso.

Helena piscou, surpresa.

Era raro ele admitir algo tão rápido.

— Então você percebeu?

— Percebi. E já deixei claro para ela que aquilo não se repete.

A resposta veio limpa demais, como se já estivesse organizada antes mesmo de ser dita. Ainda assim, uma parte de Helena relaxou ao ouvir aquilo.

— E por que você não disse isso ontem?

Caio voltou a olhá-la.

— Porque você estava nervosa. Não adiantava falar naquele momento.

Era uma explicação razoável. Boa, até.

Tão boa que Helena quase quis se agarrar a ela.

Ela abaixou os olhos para a xícara e murmurou:

— Eu só não quero me sentir idiota.

Caio aproximou-se alguns passos e ergueu o queixo dela com delicadeza.

— Você não é idiota.

A voz saiu baixa, quase terna, e por um instante Helena sentiu o peito ceder. Esse era o problema: quando Caio queria, ele sabia exatamente como tocar nas rachaduras sem parecer que as tinha causado.

Mas o momento quebrou-se no segundo em que o telemóvel dele vibrou sobre a bancada.

Caio virou o rosto imediatamente, pegou o aparelho antes que a tela ficasse visível por muito tempo e o bloqueou quase no mesmo movimento.

Helena notou tudo.

Não foi o telefone tocar que a incomodou.

Foi a pressa.

A naturalidade ensaiada.

Aquela pequena tensão que passou pelo corpo dele antes de desaparecer.

Ela ergueu os olhos devagar.

— Quem era?

Caio guardou o telemóvel no bolso sem olhar para ela.

— Trabalho.

A resposta saiu simples e curta demais.

— Logo de manhã?

Ele apoiou uma das mãos na bancada.

— Pessoas trabalham de manhã, Helena.

O tom não foi alto, mas bastou para fazer a conversa perder calor.

Helena respirou fundo e baixou os olhos.

— Não precisava responder assim.

Caio passou a mão pelo rosto, como se já estivesse cansado daquela direção.

— Eu não estou respondendo mal. Só estou a dizer que não é nada.

Mas “não é nada” nunca soa convincente quando alguém parece se esforçar tanto para esconder.

O silêncio entre eles começou a crescer. Caio percebeu, ficou alguns segundos olhando para ela e, então, tirou o telemóvel do bolso outra vez.

— Queres ver?

Helena franziu a testa.

— O quê?

— A mensagem. Queres ver?

Ele estendeu o aparelho na direção dela.

O gesto deveria ter sido tranquilizador. Talvez até funcionasse com outra pessoa. Mas alguma coisa ali não parecia espontânea. Parecia… controlada. Como se ele estivesse oferecendo exatamente o que ela precisava ver, e não necessariamente a verdade.

Mesmo assim, Helena estendeu a mão.

Caio desbloqueou o ecrã antes de entregar o telemóvel, e esse detalhe, por menor que fosse, não lhe passou despercebido.

A conversa aberta estava com um colega de trabalho chamado Eduardo. Uma mensagem simples sobre uma reunião. Nada suspeito, nada que justificasse a tensão.

Helena sentiu o rosto aquecer.

Devolveu o aparelho devagar.

— Desculpa.

Caio pegou o telemóvel de volta e pousou-o na bancada.

— Estás vendo? — ele perguntou, sem dureza, mas também sem gentileza. — É disso que eu estou falando.

Helena baixou os olhos.

— Eu sei.

— Você anda procurando sinais em tudo.

A frase não foi dita para ferir, mas feriu na mesma.

Porque ela já não sabia se estava mesmo exagerando… ou se só estava ficando melhor em notar o que antes ignorava.

— Eu não quero ser esse tipo de mulher — ela confessou em voz baixa.

Caio se aproximou outra vez e pousou as mãos na cintura dela.

— Então não se torna.

Helena ergueu o olhar.

Ele parecia tão seguro, tão convicto, tão certo de si, que por alguns segundos foi difícil não querer acreditar. Difícil não desejar que o problema estivesse apenas na sua cabeça e que bastasse um pouco mais de confiança para tudo voltar ao lugar.

Caio inclinou-se e a beijou devagar.

Não foi um beijo apaixonado, mas calmo. Quase reconfortante. O tipo de gesto que não apaga uma dúvida, mas a empurra para um canto mais silencioso.

Quando se afastou, tocou de leve o rosto dela.

— Faltam poucos dias para o casamento. Eu não quero passar esse tempo brigando contigo.

Helena engoliu em seco.

— Eu também não.

Ele assentiu, satisfeito com a resposta.

Mas antes que ela dissesse mais alguma coisa, o telemóvel vibrou novamente sobre a bancada.

Desta vez, a tela estava virada para baixo.

Ainda assim, a mudança no rosto de Caio foi imediata. Pequena— mas real. Um endurecimento rápido no maxilar. Um foco diferente no olhar. O tipo de reação que só acontece quando alguém reconhece exatamente quem está a chamar.

Helena sentiu o coração apertar.

— Não vais atender?

Caio pegou o telemóvel.

— Depois.

E guardou-o outra vez no bolso.

Ela não disse nada. Nem precisava.

Porque, se a primeira mensagem podia ser explicada, a segunda parecia outra coisa. E o pior era não ter prova suficiente para acusar, mas já ter desconforto demais para ignorar.

Mais tarde, quando Caio foi tomar banho, Helena ficou sozinha na cozinha por alguns minutos.

As xícaras ainda estavam sobre a bancada. O cheiro de café ainda pairava no ar. A casa continuava silenciosa, bonita, quase em paz.

Foi então que ela viu o telemóvel dele esquecido ao lado das chaves.

Helena ficou imóvel.

O coração começou a bater mais rápido, não de impulso, mas de conflito.

Ela sabia que não devia tocar. Sabia que pegar naquele aparelho seria cruzar uma linha da qual talvez não conseguisse voltar. Mas também sabia que, se havia alguma verdade escondida ali, ela continuaria a enlouquecer tentando fingir que não sentia.

Deu um passo à frente.

Depois outro.

A mão tremeu antes de se aproximar.

Não era curiosidade.

Era medo de confirmar.

Ela ficou a poucos centímetros do telemóvel.

Quase.

Mas, no mesmo instante, o som da água no banheiro cessou.

Helena recuou como se tivesse sido apanhada no meio de um crime.

Dois segundos depois, Caio apareceu à porta, secando o cabelo com a toalha.

— Está tudo bem? — ele perguntou.

Helena virou-se depressa demais.

— Sim.

Os olhos dele desceram até a bancada.

Passaram pelo telemóvel.

Depois voltaram ao rosto dela.

Caio não perguntou mais nada, mas o silêncio que ficou entre os dois era atento demais para ser casual.

— Eu só estava a arrumar as xícaras — Helena disse, forçando naturalidade.

Ele assentiu devagar.

— Certo.

Nada mais.

Mesmo assim, ela soube.

Soube pelo olhar dele, pela pausa, pela forma como ele observou o espaço entre ela e o aparelho.

Caio estava atento.

Atento ao que ela percebia, ou do que suspeitava.

Ao que talvez estivesse perto de descobrir.

E, pela primeira vez, Helena teve a sensação clara de que não estava apenas desconfiando.

Estava chegando perto de alguma coisa.

E ele sabia disso.

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