Mundo de ficçãoIniciar sessãoA casa dos pais de Helena estava mais iluminada do que o normal naquela noite.
Do lado de fora, as janelas abertas deixavam escapar música baixa, risos e o brilho dourado dos lustres da sala principal. O jardim havia sido decorado com pequenas luzes entre as árvores, e as mesas estavam cobertas por toalhas claras, flores delicadas e taças de vidro que refletiam tudo em pequenos brilhos elegantes. Era o aniversário de Sofia Duarte, irmã mais nova de Helena, e como quase tudo que envolvia a família Duarte, o jantar tinha acabado se transformando num pequeno evento. Nada excessivo. Mas bonito o suficiente para reunir: parentes próximos, amigos antigos, colegas da família, e, inevitavelmente, algumas pessoas que só estavam ali porque adoravam estar onde havia felicidade para observar. Helena estava diante do espelho do quarto da infância, terminando de colocar os brincos enquanto Sofia andava de um lado para o outro, já pronta, segurando um salto numa mão e o telemóvel na outra. — Se a mãe perguntar, eu estou calma — Sofia disse. — Mesmo que ela esteja a ter um colapso por causa da disposição dos doces. Helena sorriu pela primeira vez em horas. — Isso acontece todos os anos. — E todos os anos ela age como se fosse o casamento real de uma princesa europeia. Helena soltou um pequeno riso, mas ele morreu rápido demais. Sofia percebeu. Parou de andar. Virou-se lentamente para a irmã e a observou pelo espelho. — Você está linda — disse, com sinceridade. — Mas está com cara de quem pisaria em alguém hoje sem remorso. Helena baixou os olhos para o fecho do bracelete. — Não estou com cara de nada. — Lena. A forma como Sofia a chamou fez Helena suspirar. Sofia sempre soube notar. Desde pequena. Enquanto a mãe se distraía com aparências e os outros preferiam acreditar no que era mais confortável, Sofia tinha aquela irritante capacidade de olhar para alguém e perceber quando alguma coisa não estava bem. — Eu estou bem — Helena disse, mesmo sabendo que aquilo não convenceria. Sofia cruzou os braços. — Isso foi uma mentira tão fraca que até me ofendeu. Helena riu baixo, mas sem alegria. — Não quero estragar a tua noite. — Você não estraga nada. Quem eu deveria me preocupar em estragar é o teu noivo, se ele continuar com essa cara de homem suspeito nos últimos dias. Helena ergueu os olhos depressa. — Sofia… — O quê? Eu tenho olhos. A frase ficou entre elas por alguns segundos. Helena não respondeu. Porque, no fundo, parte dela estava começando a precisar ouvir aquilo de outra pessoa. Precisava da confirmação de que não estava imaginando tudo. Sofia se aproximou, agora com o tom mais suave. — Eu não vou insistir. Só não quero ver você engolindo coisa demais sozinha. Helena assentiu devagar. — Hoje eu só quero que corra tudo bem. Sofia inclinou a cabeça. — Então tenta sorrir um pouco quando descer, porque a mãe já deve estar a desmaiar emocionalmente lá embaixo. Isso arrancou de Helena um sorriso mais verdadeiro. — Feliz aniversário, drama queen. — Obrigada, favorita da tragédia romântica. — Sofia. — Desculpa, mas foi uma boa definição. As duas trocaram um olhar cúmplice, e por um instante Helena conseguiu respirar melhor. Só por um instante. Quando desceu as escadas, o som das conversas e da música a envolveu de imediato. A sala principal estava cheia. Marta Duarte, impecável num vestido azul-escuro, conversava com um casal de amigos perto da mesa de bebidas. Mais ao fundo, Lívia já havia chegado e ria de alguma coisa ao lado de dois primos de Helena. No jardim, alguns convidados circulavam entre as mesas, taças na mão, como se a noite estivesse exatamente como deveria estar. E por alguns segundos, Helena quis desesperadamente entrar naquele cenário como se fosse a mulher que todos pensavam que ela era. A mulher prestes a viver o grande amor da sua vida. — Finalmente! — Marta surgiu diante dela com expressão quase ofendida. — Eu estava a pensar em subir e te arrastar. — Boa noite para você também, mãe. Marta segurou o rosto da filha por um instante e sorriu com orgulho. — Você está deslumbrante. Helena agradeceu com um sorriso pequeno. — Onde está o Caio? — Marta perguntou logo em seguida, olhando discretamente em volta. — Ele já chegou? A pergunta apertou alguma coisa dentro dela. — Deve estar a chegar. Marta fez um leve som de desaprovação. — Hoje, pelo menos, ele precisa ser pontual. Sua sogra já está aqui. Claro que estava. Como se convocada pelo próprio caos, Teresa Menezes apareceu alguns passos atrás, elegante, impecável e com aquele tipo de postura que fazia parecer que até a luz se organizava melhor à sua volta. — Helena, querida — Teresa disse, beijando-lhe a bochecha com delicadeza. — Está lindíssima. — Obrigada, dona Teresa. — E onde está o meu filho? — ela perguntou, quase no mesmo tom da mãe de Helena, mas com um toque de julgamento mais afiado. Helena sorriu como pôde. — A caminho. Teresa assentiu devagar, embora seu olhar deixasse claro que não achava aquilo ideal. — Homens sempre acham que podem chegar depois e ainda assim ser perdoados. — Alguns aprendem isso cedo demais — Marta comentou, e as duas trocaram um daqueles sorrisos educados que não significavam exatamente simpatia. Helena sentiu vontade de desaparecer. Antes que precisasse responder mais alguma coisa, Lívia apareceu como uma salvação disfarçada de salto alto e batom perfeito. — Se mais uma pessoa perguntar pelo Caio, eu vou inventar que ele foi sequestrado por uma quadrilha internacional — disse ela, aproximando-se e abraçando Helena de lado. Helena soltou uma risada curta. — Você chegou cedo. — Cheguei para te impedir de enlouquecer antes da sobremesa. Lívia então se afastou só o suficiente para analisar o rosto da amiga. E o sorriso dela diminuiu. — Você está mesmo bem? Helena sustentou o olhar dela por um segundo. Lívia era o tipo de amiga que percebia demais e perguntava menos do que sabia. — Depois eu te conto — Helena murmurou. Lívia apenas assentiu. — Ótimo. Porque se eu tiver que odiar alguém, gosto de estar bem informada. Helena quase sorriu. Foi nesse momento que ouviu a movimentação perto da entrada. Algumas pessoas se viraram. Outras sorriram. E então ela viu Caio entrar. Por um segundo, tudo em volta pareceu desacelerar. Ele estava absurdamente bonito, vestido de preto, com os cabelos alinhados e aquele ar naturalmente seguro que sempre fazia parecer que ele pertencia a qualquer lugar para onde entrasse. Nas mãos, trazia um buquê discreto de flores claras. Para Sofia. Ou pelo menos era isso que deveria ser. Mas, quando os olhos dele encontraram os de Helena do outro lado da sala, o resto do ambiente perdeu nitidez por um instante. Caio sorriu. Aquele sorriso calmo, controlado, bonito o bastante para confundir qualquer mulher apaixonada. E Helena odiou o fato de ainda sentir o coração vacilar por causa dele. Ele se aproximou entre cumprimentos e acenos, até parar diante dela. — Desculpa o atraso — disse em voz baixa, inclinando-se para beijar sua bochecha. — O trânsito estava impossível. Helena sentiu o perfume dele antes do beijo. Dessa vez, o cheiro era só dele. Quase como se a noite anterior tivesse sido um delírio da sua cabeça. — Você demorou — ela respondeu. — Eu sei. Caio tocou de leve sua cintura, como se quisesse suavizar a resposta. Lívia observou a cena com a sutileza de quem claramente estava avaliando cada microexpressão dos dois. — Ainda bem que chegou — ela disse, seca o suficiente para não soar simpática demais. — A família já estava a montar teorias. Caio sorriu de forma polida. — Espero que nenhuma envolva fuga internacional. — Ainda não — Lívia respondeu. Helena quase quis rir, mas foi interrompida por Sofia surgindo como um furacão. — Finalmente! — ela disse, arrancando o buquê das mãos dele. — Mais cinco minutos e eu te riscava da lista de convidados. — Que forma carinhosa de receber alguém. — Eu sou muito generosa. Você só não merece tanto. Caio riu, e por um segundo a interação foi leve o bastante para Helena sentir um aperto estranho no peito. Porque era isso que ela odiava: o fato de que, às vezes, ele ainda parecia exatamente o homem com quem ela queria casar. Durante a primeira hora da festa, Helena tentou manter-se ocupada. Conversou com tias, sorriu para fotos, ouviu comentários sobre o vestido, respondeu perguntas sobre lua de mel e agradeceu parabéns antecipados como se tudo na sua vida estivesse perfeitamente alinhado. Por fora, estava impecável. Por dentro, cada gesto parecia uma atuação. Caio circulava bem. Falava com facilidade. Cumprimentava as pessoas certas. Fazia os pais sorrirem. Era gentil com Sofia, educado com Marta, suficientemente encantador para deixar qualquer ambiente confortável. Era quase irritante como ele sabia ser tudo o que esperavam dele. E talvez fosse justamente isso que o tornava tão perigoso. — Ele é mesmo bom nisso, não é? — Lívia apareceu ao lado de Helena, segurando uma taça de espumante. — Bom em quê? Lívia inclinou o queixo na direção de Caio, que naquele momento conversava com Rafael, seu melhor amigo, perto do jardim. — Em parecer impecável. Helena permaneceu em silêncio. Lívia a observou de lado. — Isso é um “sim, eu também estou vendo” ou um “não me faz pensar sobre isso agora”? — Os dois. Lívia suspirou. — Certo. Então eu vou só beber e observar feito uma mulher desempregada. — Você é impossível. — E, ainda assim, indispensável. Antes que Helena respondesse, seu olhar se prendeu involuntariamente à entrada lateral do jardim. Uma figura feminina acabava de atravessar o espaço entre as luzes baixas e as conversas suaves. Vestido vinho. Cabelo impecável. Postura confiante. Bianca. Helena sentiu o corpo inteiro ficar tenso. Por um segundo, achou que talvez estivesse enganada. Que poderia ser alguém parecida. Mas não. Era ela. E ela estava ali. Na casa da família de Helena. Na festa de aniversário da irmã dela. O choque foi tão imediato que Helena nem percebeu que havia prendido a respiração. — Não. — Lívia foi a primeira a reagir, olhando na mesma direção. — Não, não, não. Isso já é ofensivo. — O que ela está fazendo aqui? — Helena perguntou, sem tirar os olhos de Bianca. — Se você me disser que isso é coincidência, eu juro que vou beber o vaso das flores. Bianca cumprimentava algumas pessoas com naturalidade demais, como se tivesse todo o direito de estar ali. Helena sentiu o estômago revirar. Até que Sofia surgiu do outro lado da sala, viu Bianca e franziu a testa de imediato. — Espera… eu conheço essa mulher? Lívia cruzou os braços. — Infelizmente. Sofia olhou para Helena. Depois para Bianca. Depois de novo para Helena. E a compreensão em seu rosto foi quase instantânea. — Ah. Só isso. Mas aquele “ah” carregava tudo. Helena mal conseguiu responder, porque naquele exato momento Caio também viu Bianca. E a mudança no rosto dele foi pequena. Mas não invisível o bastante. Ele congelou por um segundo. Depois endireitou a postura. E Helena percebeu. Percebeu da pior forma possível: ele não estava surpreso o suficiente. O coração dela afundou. Bianca se aproximou como se nada ali fosse inadequado. Como se não estivesse invadindo um espaço que jamais deveria ter cruzado. — Helena — ela disse, sorrindo com elegância irritante. — Eu espero que não se importe. Rafael comentou sobre a festa outro dia, e como eu já conhecia parte do pessoal, achei que seria simpático passar para dar os parabéns. Rafael, que estava a poucos passos dali, ergueu os olhos imediatamente. E, pela expressão dele, Helena percebeu que aquilo não era verdade. Ou pelo menos não era a história completa. — Que gentil da tua parte — Lívia disse antes que Helena abrisse a boca, num tom tão doce que chegava a ser ameaçador. Bianca sorriu para ela. — Eu tento. Helena finalmente encontrou a própria voz. — Isso é uma festa de família. Bianca inclinou a cabeça. — E eu vim com boas intenções. — Que pena que elas não combinam com a tua presença — Sofia respondeu, surgindo ao lado da irmã. O ar ao redor pareceu prender-se. Caio deu um passo à frente. — Sofia… — Não, por favor, continua — Sofia disse, olhando para Bianca. — Estou curiosa para saber em que momento você achou apropriado aparecer aqui. Bianca manteve o sorriso, mas os olhos endureceram. — Acho que isso está a ficar desnecessariamente hostil. — Não, hostil seria se eu dissesse o que realmente estou pensando — Sofia respondeu. Helena sentiu o coração disparar. Aquilo estava prestes a virar um desastre. E o pior: diante de todos. — Sofia — Helena chamou, tocando no braço da irmã. — Deixa. Sofia virou-se para ela, incrédula. — Você está falando sério? Helena mal teve tempo de responder. Porque, nesse instante, Marta Duarte se aproximou, percebendo a tensão tarde demais. — Está tudo bem aqui? Silêncio. Ninguém respondeu de imediato. Caio foi o primeiro a recuperar a compostura. Claro que foi. — Está, sim — ele disse com a calma treinada de sempre. — Só um mal-entendido. Helena virou o rosto lentamente para olhá-lo. Mal-entendido. Era isso que ele chamaria àquilo? Bianca manteve-se em silêncio, quase elegante em sua falsa inocência. E foi isso que fez Helena sentir uma humilhação ainda pior. Porque, de repente, tudo parecia invertido: Sofia parecia excessiva, Lívia parecia implicante, ela parecia sensível, e Bianca… Bianca parecia apenas uma mulher educada em lugar errado. Era horrível. Absolutamente horrível. Caio se aproximou de Helena, tocando de leve sua cintura, como se quisesse conter a situação. — Vamos não fazer isso aqui — ele murmurou perto demais do ouvido dela. A frase foi baixa. Mas foi suficiente para incendiar alguma coisa dentro dela. Porque ele não estava dizendo: “Ela não devia estar aqui.” Ele estava dizendo: “Não me exponha aqui.” E Helena entendeu a diferença. Entendeu com uma clareza tão cruel que sentiu vontade de chorar no mesmo instante. Mas não chorou. Bianca, percebendo que já tinha causado estrago suficiente, endireitou-se e sorriu com delicadeza calculada. — Acho melhor eu ir — disse ela, como se fosse a mais razoável de todos ali. — Não quero estragar a noite. Sofia soltou um riso incrédulo. — Um pouco tarde para isso. Bianca ignorou. Mas, antes de se afastar, olhou para Caio. Só por um segundo. E Helena viu. Desta vez, viu claramente. Foi real. Um olhar rápido, mas carregado de uma familiaridade que não devia existir. Bianca foi embora. E, estranhamente, isso não melhorou nada. Porque o dano já estava feito. O clima da festa nunca voltou totalmente ao normal. As conversas recomeçaram aos poucos, as pessoas fingiram não comentar, Marta tentou salvar o ambiente com um excesso de simpatia e Sofia aceitou continuar a noite apenas porque Helena praticamente lhe implorou com o olhar. Mas alguma coisa havia quebrado ali. De forma pública. Irreversível. Mais tarde, depois do parabéns e do bolo, Helena saiu discretamente para o jardim lateral, precisando de ar antes que o aperto no peito a sufocasse de vez. A música vinha abafada de dentro da casa. As luzes pequenas entre as árvores tremiam com o vento leve da noite. Tudo parecia calmo demais para combinar com o caos dentro dela. — Sabia que ia te encontrar aqui. Helena fechou os olhos por um segundo ao ouvir a voz de Caio atrás dela. — Você devia estar lá dentro. — E você também. Ela soltou uma risada baixa, amarga. — Engraçado. Hoje quase todo mundo me disse o que eu devia fazer. Caio se aproximou até parar ao lado dela. Ficaram em silêncio por alguns segundos. Depois ele falou: — Você acha mesmo que eu trouxe a Bianca aqui? Helena virou-se para ele. — Eu já não sei o que achar de você. A frase atingiu mais fundo do que qualquer grito. Porque Caio, pela primeira vez naquela noite, pareceu realmente tocado. Mas não o suficiente para ser honesto. Ele se aproximou mais. — Helena, olha para mim. Ela não queria. Mas olhou. — Eu estou aqui, não estou? — ele disse em voz baixa. — No meio disso tudo. Com você. Na tua família. Na tua vida. Eu continuo aqui. A frase era bonita. Tão bonita que quase doía. Porque era justamente o tipo de frase que alguém diz quando quer ser perdoado sem precisar explicar nada. Helena sentiu os olhos arderem. — Às vezes eu tenho a sensação de que você está aqui só o suficiente para eu não te perder… mas nunca inteiro de verdade. Caio ficou em silêncio. E esse silêncio machucou mais do que se ele tivesse negado. Depois de alguns segundos, ele ergueu a mão e tocou o rosto dela com delicadeza. — Você está cansada. Assustada. Eu entendo isso. Helena fechou os olhos ao sentir o toque. — Então me dá uma razão para acreditar em você. A resposta dele veio sem hesitação. — Porque daqui a poucos dias eu vou me casar com você. E ali estava outra vez. A promessa. A âncora. A frase que ele usava sempre que precisava puxá-la de volta. Helena queria resistir. Queria dizer que isso já não bastava. Queria exigir mais. Mas estava cansada demais. Caio inclinou-se e beijou-lhe a testa, depois a abraçou com força suficiente para fazê-la sentir-se segura por fora… mesmo estando em ruínas por dentro. E foi isso que tornou tudo ainda pior. Porque, naquela noite, sob as luzes suaves do jardim da casa dos pais, Helena deixou que ele a segurasse de novo. Mesmo sabendo que alguma coisa estava profundamente errada. Mesmo sabendo que estava se agarrando à versão dele que talvez já nem existisse mais. Mesmo sabendo, lá no fundo, que aquele abraço não estava consertando nada.






