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Capítulo 4- O perfume que não era dela

Nos dias seguintes, Helena tentou convencer a si mesma de que estava exagerando.

Tentou ocupar a cabeça com os últimos detalhes do casamento, responder mensagens da decoradora, confirmar horários, escolher flores, fingir interesse em pequenas decisões que antes a fariam sorrir. Tudo o que, em teoria, deveria deixá-la animada agora parecia distante, quase mecânico.

Ela fazia o que precisava ser feito.

Mas não conseguia voltar a sentir a leveza que tinha antes.

Caio, por outro lado, parecia decidido a agir como se tudo estivesse bem.

E talvez fosse isso que mais a confundia.

Naquela noite, ele havia chegado mais tarde do que o habitual. Disse que teve uma reunião prolongada com a equipa e depois precisou resolver algumas pendências com um cliente importante. O tipo de explicação que parecia suficientemente plausível para não gerar discussão… mas vaga o bastante para não deixar espaço para perguntas.

Helena estava sentada no sofá da sala quando ouviu a porta abrir.

O som da chave na fechadura fez com que ela levantasse os olhos automaticamente. Por um segundo, sentiu aquele impulso automático de sempre — o de esperar por ele, de procurá-lo com o olhar como quem ainda acredita que a simples chegada da pessoa certa pode melhorar o fim de um dia difícil.

Caio entrou tirando o relógio do pulso, afrouxando a gravata com a outra mão.

— Ainda acordada? — perguntou, ao vê-la.

Helena fechou o livro que tinha no colo, embora não estivesse realmente lendo havia vários minutos.

— Estava te esperando.

Ele soltou um pequeno sorriso, cansado, e aproximou-se.

— Não precisavas.

— Eu sei.

Mas precisava.

Não de forma racional. Não de um jeito bonito. Precisava porque havia algo nela que já começava a procurar confirmação em gestos pequenos. No horário em que ele chegava. No tom da voz. No modo como a olhava quando entrava em casa.

Caio curvou-se para beijá-la, e Helena virou o rosto apenas o suficiente para receber o beijo na bochecha antes de olhá-lo com mais atenção.

— O dia foi pesado? — ela perguntou.

— Um inferno.

Ele passou a mão pela nuca e se deixou cair ao lado dela no sofá, inclinando a cabeça para trás por um instante como se o cansaço estivesse pesando nos ombros.

Helena observou-o em silêncio.

Era fácil olhar para Caio e lembrar por que se apaixonara. Ele tinha aquela presença segura, aquela forma controlada de existir, como se nada o atingisse de verdade. Durante muito tempo, isso a fez sentir-se protegida. Agora, às vezes, só a fazia sentir-se afastada.

— Queres comer alguma coisa? — ela perguntou.

— Mais tarde. Só preciso de cinco minutos para voltar a ser gente.

Helena sorriu de leve.

— Dramático.

— Estou no meu direito.

Ela riu baixo, e por alguns segundos tudo pareceu quase normal. O tipo de momento simples que poderia ter sido reconfortante se não houvesse tanta coisa mal resolvida entre eles.

Caio afrouxou mais um pouco a gravata e inclinou-se na direção dela, passando um braço em volta da sua cintura.

— Vem cá.

Helena deixou-se puxar, repousando a cabeça no ombro dele.

Foi então que sentiu.

Um cheiro diferente.

Ela franziu o cenho de forma quase imperceptível.

No início, pensou que talvez fosse algo do escritório. Algum perfume de ambiente. Alguém que passara perto demais num elevador. Nada de mais.

Mas, quando respirou outra vez, a sensação piorou.

Era perfume feminino.

Doce, marcante, elegante demais para ser apenas um cheiro aleatório preso no tecido.

Helena ficou imóvel.

O coração desacelerou por um segundo, como se o corpo inteiro tivesse levado um pequeno choque.

Ela conhecia aquele tipo de fragrância.

E, pior, conhecia a sensação de que aquilo não lhe pertencia.

Porque não era o seu perfume.

Ela afastou-se devagar, sem querer parecer brusca.

Caio olhou para ela.

— O que foi?

Helena sustentou o olhar dele por alguns segundos antes de responder.

— Você está com um cheiro diferente.

Ele franziu ligeiramente a testa, como quem realmente não entendia.

— Diferente como?

— Perfume.

A expressão dele mudou tão pouco que outra pessoa talvez nem notasse. Mas Helena notou.

Foi só um segundo de hesitação.

Só um pequeno atraso antes da resposta.

— Ah. — Ele passou a mão pela gola da camisa. — Deve ser do restaurante onde fui com o pessoal depois da reunião.

Helena continuou olhando para ele.

— Restaurante?

— Sim. O cliente insistiu em jantar depois.

A resposta saiu com naturalidade, mas havia qualquer coisa nela que parecia… encaixada rápido demais.

— E que restaurante deixa perfume feminino na tua camisa?

Caio soltou um riso curto, como se a pergunta fosse exagerada.

— Helena, por favor.

Ela não desviou os olhos.

— Estou falando sério.

Ele soltou o ar pelo nariz e apoiou os cotovelos nos joelhos, inclinando-se para a frente.

— Devia estar cheio. Pessoas passam perto umas das outras, isso acontece.

— E esse “pessoal” incluía a Bianca?

A pergunta saiu antes que ela pudesse segurar.

Caio virou o rosto na direção dela, e dessa vez o cansaço no olhar foi substituído por uma irritação mais visível.

— Lá vamos nós outra vez.

Helena sentiu o peito apertar.

— Eu só fiz uma pergunta.

— E eu já sei para onde essa pergunta vai.

— Talvez porque você também saiba por que eu estou fazendo.

O silêncio caiu entre os dois.

Caio passou a mão pelo rosto, como se estivesse tentando manter a calma.

— Bianca estava lá, sim — disse por fim. — Assim como outras pessoas da equipa. Isso muda alguma coisa?

Helena o encarou.

Não era exatamente a resposta que queria.

Mas também não era mentira suficiente para tranquilizá-la.

Porque o problema nunca era apenas a presença de Bianca.

Era a sensação de que ela estava sempre presente.

Sempre cabendo onde não devia.

Helena cruzou os braços, tentando controlar a própria voz.

— Você entende como isso soa para mim?

Caio levantou-se do sofá.

Não abruptamente. Mas com aquele movimento contido de quem já estava começando a perder a paciência.

— Honestamente? Não. Porque eu chego em casa depois de um dia horrível e, em menos de cinco minutos, estou sendo interrogado por causa de um perfume que provavelmente nem significa nada.

Helena também se levantou.

— Você acha que eu quero estar assim?

— Então para.

A frase saiu rápida e seca.

E ficou suspensa no ar entre os dois.

Helena piscou devagar, como se precisasse de um segundo para absorver o peso daquilo.

— Não fala comigo como se isso fosse simples.

Caio fechou os olhos por um instante e respirou fundo, como alguém tentando recuperar o controle antes de piorar tudo.

Quando voltou a olhar para ela, o tom já era outro. Mais baixo.

— Helena… eu não estou fazendo nada contra você.

Ela quis acreditar.

Mas já não era tão fácil.

Porque não era só o perfume. Nunca era só uma coisa. Era o perfume, o telemóvel, a defensiva, Bianca, os olhares, as ausências, os silêncios.

Pequenos pedaços de algo que ela ainda não conseguia montar por completo, mas que já começavam a formar uma imagem.

Caio se aproximou outra vez.

Desta vez mais devagar.

Menos como alguém que estava certo, e mais como alguém que sabia exatamente como voltar a amolecê-la.

— Olha para mim — ele disse.

Helena ergueu os olhos, embora uma parte dela quisesse resistir.

— Você realmente acha que eu chegaria em casa assim, na tua frente, se tivesse alguma coisa para esconder?

A pergunta a atingiu em cheio.

Porque era inteligente.

Cruelmente inteligente.

Fazia sentido demais.

E era justamente por isso que a enfraquecia.

Helena engoliu em seco.

— Eu não sei mais o que pensar.

A resposta saiu mais honesta do que ela gostaria.

Por um instante, o rosto de Caio suavizou.

Ele levou a mão ao rosto dela e acariciou sua bochecha com o polegar.

— Então pensa em mim como o homem com quem você vai casar daqui a poucos dias — murmurou. — Não como alguém que está tentando te ferir.

A frase a desmontou mais do que deveria.

Porque ela queria, desesperadamente, voltar a vê-lo desse jeito.

Queria recuperar a versão dele que não a fazia duvidar de tudo.

Queria recuperar a si mesma antes de começar a sentir que havia sempre alguma coisa escondida atrás de cada gesto.

Caio inclinou-se e a abraçou.

Helena hesitou só um segundo antes de retribuir.

Mas, mesmo com os braços dele à sua volta, mesmo com o calor do corpo dele tão perto, o perfume continuava ali.

Preso na mente dela.

E foi isso que tornou o abraço pior.

Porque, em vez de conforto, ele trouxe desconforto.

Em vez de paz, trouxe dúvida.

Em vez de proximidade, deixou ainda mais clara a distância que estava crescendo entre os dois.

Caio afastou-se apenas o suficiente para olhá-la melhor.

— Vamos parar com isso hoje, sim?

Helena não respondeu de imediato.

Queria dizer que sim.

Queria não transformar tudo em guerra.

Mas também sabia que, a cada vez que aceitava “parar com isso”, alguma coisa dentro dela ficava mais silenciosa do que devia.

No fim, apenas assentiu.

— Está bem.

Caio beijou sua testa, satisfeito com a rendição suave, e foi em direção ao quarto para tomar banho.

Helena ficou sozinha na sala,imóvel.

O apartamento estava silencioso outra vez, exceto pelo som distante do chuveiro sendo ligado.

Ela olhou para a camisa que ele havia deixado sobre o braço do sofá antes de sair.

Ficou ali, por alguns segundos, apenas encarando o tecido escuro.

Depois se aproximou devagar.

Como se o simples ato de confirmar o que já sabia fosse abrir uma porta que ela ainda não estava pronta para atravessar.

Pegou a camisa com cuidado e a levou até o rosto.

O perfume estava lá.

Mais nítido agora.

Feminino. Sofisticado. Familiar de um jeito que fez seu estômago revirar.

Helena fechou os olhos.

E então lembrou.

Não era só um perfume qualquer.

Era o mesmo cheiro que Bianca deixava no ar sempre que aparecia.

Helena abriu os olhos imediatamente.

A camisa escorregou um pouco entre seus dedos.

Seu peito subiu e desceu mais rápido.

Aquilo não era mais só desconforto.

Aquilo era reconhecimento.

Não havia prova suficiente para uma acusação. Não ainda. Mas havia coincidências demais para continuar chamando tudo de imaginação.

Ela pousou a camisa de volta, com mais cuidado do que pretendia, como se até o tecido pudesse denunciá-la.

No mesmo instante, ouviu passos vindos do corredor.

Helena se afastou rápido demais.

Quando Caio voltou à sala, já de t-shirt e cabelo molhado, ela estava novamente perto da mesa de centro, fingindo arrumar algumas revistas que nem estavam fora do lugar.

— Você não vem dormir? — ele perguntou.

Helena virou o rosto.

— Já vou.

Caio observou-a por um segundo, como se tentasse ler algo em sua expressão.

Mas, se percebeu alguma coisa, não comentou.

Apenas assentiu e voltou para o quarto.

Helena esperou até ouvir a porta se fechar antes de soltar o ar preso no peito.

Depois olhou novamente para o sofá.

Para o lugar onde, há poucos minutos, estivera abraçada ao homem que amava.

E sentiu, com uma clareza dolorosa, que alguma coisa entre eles já estava contaminada.

Não por uma discussão.

Mas por uma presença invisível que continuava a se infiltrar em tudo.

Até no cheiro dele.

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