Helena ajustou discretamente a manga do vestido e ergueu o olhar para Caio Menezes, que estava sentado à sua frente.
Ele parecia bonito, como sempre.
Cabelo arrumado. Camisa escura. Relógio caro no pulso. O tipo de homem que chamava atenção mesmo sem fazer esforço.
E, ainda assim, havia algo nele que parecia distante.
Não era a primeira vez que ela sentia isso.
Nas últimas semanas, Caio estava… estranho.
Não de uma forma óbvia. Não de um jeito que desse para apontar com o dedo e dizer “é isto.”
Mas havia pequenas falhas, pequenas ausências, pequenos silêncios.
E às vezes, para quem ama, os silêncios machucam mais do que palavras duras.
— “Você nem tocou no vinho.” — Helena comentou, tentando soar leve.
Caio ergueu os olhos do telemóvel por um segundo, como se tivesse demorado a lembrar que ela estava ali.
— “Hm?”
Ela sorriu, embora por dentro tivesse sentido uma pontada.
— “Eu disse que você nem tocou no vinho.”
— “Ah.” — ele empurrou a taça um pouco com os dedos. — “Estou com a cabeça cheia.”
— “Problemas no trabalho?”
— “Nada demais.”
Nada demais.
Caio andava respondendo assim para tudo.
Curto. Simples. Fechado.
Helena tentou não se incomodar.
Talvez fosse estresse.
Ela sempre encontrava um jeito de justificar o comportamento dele.
E talvez esse fosse o problema.
O garçom aproximou-se para servir o prato principal, e Helena aproveitou o pequeno silêncio para observar Caio melhor.
Ele mal parecia presente.
Segurava o telemóvel com frequência demais.
O olhar fugia.
Os dedos batiam de leve na mesa num ritmo inquieto.
Não era assim antes.
Antes, Caio fazia questão de olhá-la como se ela fosse a única pessoa no lugar.
Antes, ele sorria mais.
Antes, ela não precisava se perguntar se estava perdendo alguma coisa.
— “Está tudo bem?” — ela perguntou outra vez, mais baixo desta vez.
Caio soltou um pequeno suspiro, como se a pergunta o cansasse.
— “Já perguntou o mesmo duas vezes. Está.”
A resposta foi seca o suficiente para fazê-la baixar os olhos por um instante.
— “Desculpa. Só achei você um pouco distante.”
Ele percebeu a mudança no rosto dela e pareceu relaxar um pouco, como se lembrasse que precisava manter a paz.
— “É só cansaço, Lena.”
Lena.
Ele só a chamava assim quando queria suavizar alguma coisa.
Caio estendeu a mão por cima da mesa e tocou a dela.
O gesto foi gentil.
Mas, de alguma forma, não conseguiu tranquilizá-la como antes.
— “Você está nervosa com o casamento, não está?” — ele perguntou.
Helena soltou um riso pequeno.
— “Acho que estou tentando fingir que não.”
Pela primeira vez naquela noite, ele sorriu de verdade.
E aquilo bastou para derreter um pouco da tensão dentro dela.
Porque esse era o problema de amar alguém há tanto tempo: às vezes, um único sorriso bastava para fazer a gente esquecer todos os sinais errados.
— “Vai dar tudo certo.” — Caio disse.
Helena queria acreditar nisso.
Queria muito.
Queria acreditar que aquelas semanas estranhas eram apenas uma fase. Que depois do casamento tudo se acalmaria. Que eles voltariam a ser o casal que costumavam ser.
Talvez ela estivesse mesmo a pensar demais.
— “Caio?” — uma voz feminina interrompeu os pensamentos dela.
Helena ergueu os olhos.
E viu Bianca Salazar.
Ela estava linda de um jeito quase ofensivo.
Vestido vermelho ajustado, cabelo impecável, sorriso treinado e um perfume tão marcante que parecia chegar antes dela.
Bianca era o tipo de mulher que sempre parecia saber exatamente o efeito que causava nos outros.
Helena nunca tinha conseguido decidir se gostava dela ou se apenas a tolerava.
Bianca trabalhava na mesma empresa que Caio, e aparecia na vida deles com frequência demais para alguém que, teoricamente, era apenas “colega”.
— “Que surpresa…” — Bianca disse, embora seu tom soasse como se a surpresa não fosse nenhuma.
O olhar dela deslizou primeiro para Caio.
Só depois para Helena.
— “Não sabia que vocês estariam aqui.”
Helena sorriu por educação.
— “Viemos jantar.”
— “Claro.” — Bianca inclinou a cabeça com um sorriso bonito demais para ser sincero. — “Faz sentido.”
Caio parecia estranhamente rígido.
Aquilo chamou a atenção de Helena no mesmo instante.
Não era desconforto comum.
Era… tensão.
— “Bianca.” — ele disse, curto.
Ela apoiou a mão de leve no encosto da cadeira dele.
De leve demais. Familiar demais.
— “Relaxa, eu não vou roubar o seu noivo hoje.” — Bianca brincou, rindo sozinha.
Helena forçou um sorriso.
A piada caiu estranha no ar.
Caio não riu.
Bianca parecia não se importar.
— “Na verdade, eu só vim dizer que a apresentação de amanhã foi adiada.” — ela continuou, olhando para Caio. — “Achei melhor avisar pessoalmente.”
— “Você podia ter mandado mensagem.” — Caio respondeu.
Helena percebeu o tom seco.
Mas Bianca apenas sorriu, como se estivesse acostumada.
— “Podia. Mas já que te encontrei…”
O olhar dela demorou um segundo a mais no rosto dele.
E, ainda assim, algo dentro dela apertou.
Talvez porque, às vezes, a intuição não chega como um grito.
Chega como um desconforto silencioso que a gente tenta ignorar.
— “Bom…” — Bianca endireitou-se. — “Aproveitem a noite.”
Então ela finalmente olhou para Helena com mais atenção.
— “Você está linda, aliás. Vai ser uma noiva maravilhosa.”
A frase era bonita.
Mas havia qualquer coisa nela que Helena não soube explicar.
Como se fosse... observação.
— “Obrigada.” — ela respondeu, tentando manter a leveza.
Bianca sorriu mais uma vez e se afastou.
Mas, antes de desaparecer completamente, inclinou-se um pouco na direção de Caio e murmurou algo baixo demais para Helena ouvir.
Caio não respondeu em voz alta.
Apenas assentiu com a cabeça.
Bianca foi embora.
Helena ficou em silêncio por alguns segundos.
Observando a direção em que ela tinha saído.
Depois voltou o olhar para Caio.
Ele pegou a taça de vinho como se nada tivesse acontecido.
Como se aquela pequena cena não tivesse deixado uma rachadura quase invisível na noite.
— “O que foi isso?” — Helena perguntou, tentando soar casual.
Caio ergueu os olhos.
— “O quê?”
— “Ela parece… à vontade demais com você.”
Ele soltou um riso curto, sem humor.
— “Você está com ciúmes da Bianca?”
Helena não gostou da forma como ele disse aquilo.
Como se a simples pergunta já fosse absurda.
— “Não é isso.” — ela respondeu, endireitando-se na cadeira. — “Só acho que ela passa um pouco dos limites às vezes.”
Caio apoiou a taça na mesa.
— “Helena, ela trabalha comigo.”
— “Eu sei.”
— “Então?”
A resposta dele veio rápida demais.
Helena apertou os dedos sobre o guardanapo.
— “Então nada. Só estou dizendo que ela parece íntima demais.”
Caio soltou um suspiro baixo, inclinando-se um pouco para frente.
— “Você está procurando problema onde não existe.”
A frase caiu sobre ela com um peso inesperado.
Porque não era o que ele disse.
Era o jeito.
E aquilo doeu.Mais do que deveria.
Helena desviou o olhar por um instante.
— “Eu não estou procurando problema.”
Caio pareceu perceber que tinha ido longe demais.
Passou a mão pelo rosto e baixou um pouco o tom.
— “Desculpa. Eu só não quero transformar uma noite tranquila numa discussão sem sentido.”
Sem sentido.
Helena respirou fundo.
Talvez ele estivesse certo.
Talvez ela estivesse cansada e sensível.
Talvez ela precisasse parar de transformar desconforto em ameaça.
Quando voltou a olhar para Caio, ele parecia novamente mais calmo.
Mais parecido com o homem por quem ela tinha se apaixonado.
Ele estendeu a mão outra vez.
— “Ei.” — murmurou.
Helena hesitou só um segundo antes de entrelaçar os dedos aos dele.
— “Faltam poucos dias.” — Caio disse, olhando-a com mais suavidade. — “Não vamos estragar isso agora.”
O coração dela amoleceu, apesar de tudo.
Porque era isso que ele fazia.
Quando sentia que ela estava a escapar, dizia exatamente o suficiente para puxá-la de volta.
E Helena ainda não sabia distinguir amor de hábito.
Ou carinho de controle.
Ela soltou um pequeno sorriso cansado.
— “Eu só quero que tudo dê certo.”
Caio apertou a mão dela.
— “Vai dar.”
Helena assentiu.
O jantar seguiu.
As velas continuaram acesas.
A música continuou suave.
E para qualquer pessoa olhando de fora, eles ainda pareciam um casal bonito, estável, apaixonado.
Pareciam perfeitos.
Mas às vezes o começo de uma queda não chega como um desastre.
Às vezes chega num desconforto que ninguém quer nomear.
E, naquela noite, sem perceber, Helena tinha acabado de assistir ao primeiro aviso de que alguma coisa em sua vida já estava quebrada.