Mundo ficciónIniciar sesiónHelena Albrecht nunca imaginou que seu casamento pudesse ser tão silencioso. Eles não haviam escolhido aquele casamento. A união entre suas famílias fora arranjada, construída sobre dever e conveniência. Mas, com o passar dos anos, o que começou como obrigação transformou-se em algo que nenhum dos dois esperava. Amor. Um amor silencioso, imperfeito e difícil de traduzir em palavras, mas real o bastante para fazer Helena esperar por ele durante todos os anos em que esteve na guerra. Então Adrian retorna. Vivo. Condecorado. E completamente diferente do homem que partiu. O comandante que volta para casa carrega cicatrizes que não aparecem na pele. Dorme pouco, assusta-se com ruídos, vigia portas e janelas e mantém Helena a uma distância que ela não consegue compreender. Helena tenta alcançá-lo, mas, quanto mais se aproxima, mais ele se afasta. Até que, cansada de amar sozinha, ela encontra em Theo aquilo que seu marido já não consegue oferecer: carinho, ternura e o desejo de fazê-la sentir-se mulher novamente. Entre culpa, paixão e segredos, Helena se envolve em uma relação proibida que ameaça destruir o pouco que ainda resta de seu casamento. Mas existe algo sobre Adrian que ela desconhece. Algo que ele trouxe consigo da guerra. Um passado que pode colocar em dúvida tudo o que Helena acreditava saber sobre o homem que ama. Porque talvez o verdadeiro motivo de Adrian nunca ter voltado para ela seja muito mais doloroso do que Helena poderia imaginar.
Leer másAs primeiras badaladas das nove ecoaram pelo centro de Saint Armand quando a banda militar começou a tocar.
As ruas nunca haviam estado tão cheias.
Bandeiras da República de Valéria balançavam penduradas nas janelas. Crianças corriam entre os adultos carregando pequenas fitas nas cores nacionais, enquanto buquês de lavanda descansavam nas mãos das mulheres que aguardavam, ansiosas, pelo retorno dos maridos.
A guerra havia acabado.
Finalmente.
Depois de seis anos, os homens estavam voltando para casa.
Os caminhões militares surgiram no horizonte como sombras escuras rompendo a névoa da manhã.
Um murmúrio percorreu a multidão.
Logo se transformou em aplausos.
Depois, em lágrimas.
— Eles voltaram...
— Graças a Deus...
— Meu filho está ali!
A cidade inteira comemorava.
Toda ela.
No meio da multidão, Helena Albrecht mal conseguia conter a ansiedade.
As mãos unidas diante do vestido azul-marinho escondiam o leve tremor de seus dedos.
Seis anos.
Seis anos de noites solitárias e frias.
Seis anos sem vê-lo.
Sem ouvir sua voz.
Sem sentir o calor de seu abraço.
A única coisa que tivera durante aqueles anos eram as cartas.
Algumas poucas cartas enviadas por Adrian contando sobre a guerra. No começo, chegavam com alguma frequência. Depois, os intervalos começaram a aumentar.
Até que a última chegou.
Havia pouco mais de dois anos.
Depois dela, silêncio.
Helena escrevera inúmeras vezes.
Nenhuma resposta.
As notícias que recebia eram as mesmas que chegavam a todos em Saint Armand: a guerra estava cada vez mais intensa, as tropas avançavam e recuavam, homens desapareciam, cidades eram destruídas.
Mas sobre Adrian...
Nada.
Por dois anos, Helena não soubera se o marido estava vivo.
E, mesmo assim, esperara.
Todos os dias.
Os caminhões finalmente pararam.
Os soldados começaram a descer.
Alguns sorriam.
Outros choravam sem vergonha.
Um homem caiu de joelhos ao rever os pais. Outro ergueu a filha nos braços, como se tentasse recuperar, de uma só vez, todos os aniversários que havia perdido.
Helena procurava apenas um rosto.
Então Adrian apareceu.
Alto.
Uniforme impecavelmente alinhado.
As medalhas refletiam a luz fria da manhã.
A postura continuava firme.
O rosto permanecia tão bonito quanto no dia em que partira.
Mas havia algo que Helena não conseguia explicar.
Os olhos.
Eles pareciam olhar através das pessoas, nunca para elas.
Por um instante, seus olhares se encontraram.
Helena sorriu.
O coração apertou no peito.
Esperou.
Esperou apenas um sorriso de volta.
Adrian apenas inclinou levemente a cabeça, como quem reconhece uma conhecida em uma cerimônia oficial.
Nada mais.
Naquele instante, um frio percorreu sua espinha.
Ela sorriu outra vez, insistindo.
Talvez ele estivesse cansado.
Talvez estivesse apenas tentando manter a compostura diante da cidade.
Era isso.
Precisava ser.
Porque a outra possibilidade...
Era insuportável.
Mas nem sempre foi assim.
Seis anos antes...
Helena desfazia, pela terceira vez naquela manhã, o mesmo botão do uniforme de Adrian.
A costura estava perfeita.
Ela sabia disso.
Mesmo assim, puxava delicadamente a linha, retirava o botão e começava tudo outra vez.
Sentado à mesa da cozinha, Adrian observava a cena em silêncio enquanto tomava café.
Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.
— Helena...
Ela fingiu não ouvir.
Continuou costurando.
— Acho que esse botão já está preso desde a primeira tentativa.
Ela ergueu os olhos.
— Está torto.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Está?
Ela assentiu com uma seriedade tão exagerada que o fez rir.
Um riso baixo e sincero.
Aquele som encheu a cozinha pequena como se fizesse parte da própria casa.
— Quantas vezes pretende costurar esse pobre botão?
Helena desviou os olhos para a linha entre seus dedos.
— Até encontrar um motivo para você não precisar ir.
O sorriso dele desapareceu.
Por um instante, nenhum dos dois disse nada.
Apenas o relógio antigo na parede continuou marcando o tempo, indiferente ao peso daquela manhã.
Adrian levantou-se devagar.
Parou atrás dela.
Com delicadeza, apoiou as mãos em sua cintura.
Depois inclinou o rosto e beijou sua nuca.
Helena fechou os olhos.
Se existia um lugar onde ainda se sentia completamente segura, era entre aqueles braços.
— Se eu pudesse escolher... — murmurou ele. — Ficaria aqui.
Ela virou o rosto apenas o suficiente para fitá-lo.
— Então escolha.
Ele sorriu de novo.
Um sorriso triste.
— Há escolhas que deixam de nos pertencer quando vestimos este uniforme.
Os olhos de Helena marejaram.
Ela sabia que ele estava certo.
E odiava isso.
Deixou a linha e a agulha sobre a mesa.
Então se virou para ele e o abraçou com força, como se pudesse impedir sua partida simplesmente mantendo os braços ao redor de seu corpo.
Adrian a envolveu no mesmo instante.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Não precisavam.
Naquela manhã, as palavras pareciam pequenas demais para tudo o que sentiam.
Helena escondeu o rosto contra o peito dele.
— Eu odeio essa guerra.
Adrian fechou os olhos.
— Eu também.
Ela levantou o rosto.
— Então volte para mim.
Ele segurou seu rosto entre as mãos.
Dessa vez, não sorriu.
Apenas a olhou demoradamente, como se estivesse tentando guardar cada detalhe.
— Eu volto.
Helena acreditou.
Naquele momento, acreditou com toda a força que possuía.
Lá fora, a banda militar começou a tocar.
O mesmo som que, seis anos depois, anunciaria o retorno de Adrian Albrecht.
A diferença era que, naquela manhã, Helena estava se despedindo do homem que amava.
E ainda não sabia que, quando ele finalmente voltasse, teria de aprender a reconhecer o próprio marido outra vez.
Três dias depois do retorno dos soldados, Saint Armand ainda parecia incapaz de abandonar a euforia. As bandeiras da República de Valéria continuavam penduradas nas janelas, e os nomes dos combatentes que haviam retornado eram repetidos pelas ruas como nomes de heróis de antigas lendas. Naquela tarde, porém, a cidade parecia mais tranquila. Helena estava regando o jardim quando percebeu o carteiro se aproximando da grade que cercava a residência. Antes de ir até ele, olhou discretamente em direção às janelas da casa. Nenhum sinal de Adrian. Ele provavelmente continuava no escritório, revisando as contas da fazenda e os registros acumulados durante os anos de ausência. Edmund Moreau, administrador dos bens da família Albrecht, havia preparado relatórios detalhados sobre cada ano. Pagamentos de funcionários. Despesas da casa. Receitas da fazenda. Impostos. Manutenções. Tudo estava minuciosamente registrado. Seis anos de uma vida que Adrian precisava reaprender a conhecer.
Adrian terminou de comer antes dela.Helena percebeu que, durante todo o almoço, ele havia comido em silêncio.Não parecia desconfortável com a comida.Pelo contrário.Havia comido tudo o que ela havia colocado no prato.Quando terminou, colocou os talheres cuidadosamente sobre o prato, limpou os lábios com o guardanapo e recostou-se na cadeira.— Estava... muito bom — disse ele.Helena levantou os olhos.— Estava?Adrian assentiu.— Sim.Um pequeno sorriso surgiu no rosto dela.— Fico feliz que tenha gostado.Era uma conversa simples.Quase insignificante.Mas Helena sentiu como se tivesse recebido um presente.Não porque aquelas palavras significassem mais do que realmente significavam.Mas porque Adrian havia escolhido dizê-las.E, naquele momento, isso bastava.Quando terminou de comer, Helena levantou-se e começou a recolher os pratos.— Pode deixar que eu faço isso — disse Adrian, levantando-se também.Helena parou.Olhou para ele.— Você está cansado. Pode deixar que eu faço.A
No andar debaixo, Helena dirigiu-se até a cozinha.Começou a preparar o almoço.Durante todos os anos em que Adrian estivera fora, cozinhar havia perdido boa parte do sentido.Ela ainda preparava suas refeições. Ainda cuidava da casa. Ainda mantinha a rotina funcionando.Mas não havia a mesma alegria.Não havia ninguém esperando por ela à mesa.Agora, pela primeira vez em seis anos, prepararia novamente uma refeição para o marido.E, apesar de tudo...Estava feliz.Talvez Adrian estivesse diferente.Talvez precisasse de tempo.Talvez a guerra tivesse mudado algumas coisas que ela ainda não conseguia compreender.Mas ele estava em casa.Por enquanto, aquilo era suficiente.Esse pensamento fez um pequeno sorriso surgir em seus lábios enquanto cortava os legumes.Ela temperou a carne como costumava fazer.Acrescentou as ervas.Preparou as batatas.Tudo quase automaticamente.As mãos se lembravam de coisas que a mente havia tentado esquecer.Quando a refeição ficou pronta, Helena colocou
No quarto, Helena abriu as cortinas.A luz adentrou suavemente, iluminando o ambiente e trazendo um pouco mais de aconchego.A cama estava feita, perfeitamente alinhada com os lençóis novos. Sobre a cômoda, havia um pequeno vaso com lavandas frescas.Tudo estava pronto para recebê-lo.Adrian colocou a mala sobre a poltrona e começou a abri-la enquanto Helena o observava de longe.Ele retirou algumas camisas, dobradas cuidadosamente, e as colocou sobre a cama.— Você trouxe poucas coisas — ela comentou.— Era só o que eu tinha guardado na base.Adrian fez uma pequena pausa.— No meio de uma guerra, não temos como preservar muitas coisas.Helena assentiu.Não perguntou mais.Havia perguntas demais que poderiam ser feitas.Ela sabia que, naquele momento, nenhuma delas seria respondida.— Eu deixei algumas roupas suas separadas no armário — disse ela. — As que você tinha deixado aqui.Adrian ergueu os olhos.— Você guardou?— Claro.Ele pareceu querer dizer alguma coisa, mas apenas assent





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