Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena dispensou os serviçais para que Adrian pudesse se sentir mais confortável com menos pessoas em casa.
Na verdade, ficou apenas ela.
Depois de tantos anos longe, imaginou que talvez a presença de muitas pessoas pudesse fazê-lo se sentir observado.
Ou talvez simplesmente não soubesse mais o que fazer para ajudá-lo.
Assim que a casa ficou silenciosa, Helena respirou fundo e caminhou pelo corredor em direção ao quarto.
Encontrou Adrian parado no meio do cômodo.
Ele não havia sequer tirado o uniforme.
Apenas permanecia ali, imóvel, olhando ao redor.
Helena parou no batente da porta.
Decidiu não interrompê-lo.
Escorou-se discretamente na madeira e ficou observando.
O quarto continuava praticamente igual.
A cama.
As cortinas.
A pequena mesa ao lado da janela.
O armário escuro.
Até os livros que Adrian costumava ler antes de dormir permaneciam na mesma estante.
Helena havia preservado tudo.
Não porque acreditasse que ele voltaria exatamente como partira.
Mas porque, durante seis anos, manter aquelas coisas no mesmo lugar era a única forma que encontrara de sentir que Adrian ainda fazia parte daquela casa.
Ele passou os olhos lentamente pelo cômodo.
Parou diante da cama.
Depois da janela.
Por fim, olhou para a porta.
Como se estivesse verificando o espaço.
Helena não sabia o que ele procurava.
Adrian sentiu sua presença e olhou para trás.
Os olhos dos dois se encontraram.
Por alguns segundos, nenhum deles disse nada.
Então Adrian voltou os olhos para o quarto.
— Eu não lembrava que ele era tão grande assim.
Helena acompanhou seu olhar.
Uma risadinha tímida escapou de seus lábios.
— Ele ficou maior ainda sem você aqui.
Adrian a olhou com intensidade.
Por um instante, Helena pensou ter visto algo diferente em sua expressão.
Quase um sorriso.
Mas ele apenas assentiu.
— Imagino.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
Então apontou para a porta no final do corredor.
— Eu mantive seu escritório como estava.
Adrian olhou na direção indicada.
Helena sorriu, quase envergonhada.
— Pensei que talvez você quisesse encontrar algumas das suas coisas como deixou.
Ele não respondeu.
Apenas caminhou até a porta.
Girou a maçaneta.
Abriu.
O escritório estava exatamente como ele havia deixado.
Livros organizados nas prateleiras.
Documentos cuidadosamente guardados.
A escrivaninha diante da janela.
A poltrona de couro.
E uma fotografia dos dois sobre a mesa.
Adrian parou.
Helena, que vinha logo atrás, também parou.
Ela conhecia aquela fotografia.
Era a que haviam tirado no dia em que ele partira.
Os dois estavam diante da casa.
Helena sorria com os lábios, embora os olhos ainda carregassem a tristeza daquela despedida.
E ele...
Ele sorria.
Um sorriso verdadeiro.
Helena lembrava daquele momento.
Lembrava de como Adrian havia segurado sua cintura.
Lembrava de ter pedido ao fotógrafo que esperasse alguns segundos porque queria ajeitar o cabelo.
Lembrava de Adrian ter dito que ela estava bonita.
E lembrava de ter acreditado que aquele homem voltaria para ela.
Adrian aproximou-se da mesa.
Pegou a fotografia.
Seus dedos apertaram levemente a moldura enquanto examinava aquela imagem.
Por alguns segundos, seu olhar permaneceu preso ao rosto de Helena.
Mais especificamente, ao sorriso dela.
Havia algo quase doloroso na maneira como a observava.
— Essa foto ficou bonita — disse ele.
Helena sorriu.
— Sim.
Adrian continuou olhando.
O polegar passou lentamente pela lateral da moldura.
— Eu parecia feliz naquele dia.
Helena franziu levemente a testa.
— Você estava.
Adrian demorou alguns segundos para responder.
— Não.
A palavra foi baixa.
Helena sentiu o sorriso desaparecer.
Ele continuou olhando para a fotografia.
— Eu só queria deixar você tranquila com a minha partida.
O coração de Helena apertou.
Ela se aproximou um pouco.
— Você fez isso muito mal.
Uma pequena risada escapou de seus lábios.
Foi involuntária.
E, por um instante, o silêncio entre os dois pareceu menos pesado.
Era quase como antes.
Quase.
Helena esperou.
Esperou que ele sorrisse também.
Que dissesse alguma coisa.
Talvez uma lembrança.
Talvez uma provocação.
Qualquer coisa que trouxesse de volta o homem que conhecera.
Não aconteceu.
Adrian apenas voltou os olhos para a fotografia.
— Eu sabia que você estava com medo.
Helena perdeu o sorriso.
— Eu estava.
Ele assentiu lentamente.
— Eu também.
Aquelas três palavras fizeram Helena ficar imóvel.
Era a primeira vez que Adrian admitia aquilo.
Durante seis anos, ela havia imaginado centenas de vezes como seria ouvir Adrian falar sobre aquele dia.
Nunca imaginou que ele diria que estava com medo.
Porque, naquela manhã, ele parecia tão seguro.
Tão firme.
Vestia o uniforme impecavelmente.
Havia beijado sua testa antes de partir.
Dissera que voltaria.
E sorrira.
Helena acreditara naquele sorriso.
— Por que nunca me contou?
Adrian levantou os olhos.
Por um momento, ela teve a impressão de que ele responderia.
Havia algo em seu olhar.
Algo que quase parecia querer ser dito.
Mas, novamente, a porta se fechou.
Não fisicamente.
Dentro dele.
Seu rosto voltou a ficar impassível.
Adrian colocou a fotografia de volta sobre a mesa.
— Porque eu precisava que você acreditasse que eu voltaria.
Helena ficou em silêncio.
Aquelas palavras pareciam simples.
Mas havia algo nelas que ela não conseguia ignorar.
— E você acreditava?
Adrian não respondeu.
Helena esperou.
Ele desviou o olhar.
— Preciso desfazer as malas.
Ela soube que a conversa havia terminado.
Adrian se afastou da escrivaninha.
Passou por ela sem dizer mais nada.
Helena permaneceu imóvel.
— Adrian?
Ele parou na porta.
Ela não sabia exatamente o que queria perguntar.
Talvez quisesse apenas fazê-lo ficar.
— Seja bem-vindo de volta.
Por alguns segundos, ele permaneceu de costas para ela.
Então respondeu:
— Obrigado, Helena.
E saiu.
Os passos dele desapareceram pelo corredor.
Helena permaneceu sozinha no escritório.
Olhou para a fotografia.
Depois para a porta por onde ele havia desaparecido.
Aproximou-se novamente da mesa e tocou de leve a moldura.
Passou o dedo pelo rosto de Adrian.
Depois pelo próprio.
Seis anos atrás, ela acreditara naquele sorriso.
Acreditara que, por trás dele, havia apenas a certeza de que voltaria.
Agora, pela primeira vez, percebeu que talvez nunca tivesse conhecido tudo o que existia por trás daquele homem.
E a pior parte era que, apesar de tudo, ainda queria conhecê-lo.







