Capítulo 4 - Casa.

Quase uma hora depois, o Casarão Albrecht surgiu no fim da estrada.

Helena sentiu o peito apertar.

A fachada clara permanecia praticamente igual.

As janelas altas.

As cortinas de renda.

O jardim cercado por uma pequena grade de ferro.

As roseiras que Helena cuidava desde os primeiros meses de casamento.

Até o banco de madeira sob a velha árvore continuava no mesmo lugar.

Tudo parecia exatamente como ele havia deixado.

Exceto eles.

A carruagem diminuiu a velocidade.

Adrian finalmente afastou os olhos da estrada e encarou a casa.

Por alguns segundos, não disse nada.

Helena percebeu.

Havia algo diferente em sua expressão.

Não era alegria.

Também não parecia tristeza.

Era como se estivesse olhando para um lugar que conhecia, mas que, ao mesmo tempo, não reconhecia mais.

— Eu tentei manter tudo como estava — disse Helena.

Adrian continuou olhando.

— Por quê?

Ela franziu a testa.

A pergunta era simples.

Mas a maneira como ele a fez pareceu carregada de algo que ela não compreendia.

Helena olhou para a casa.

— Porque mudar qualquer coisa me trazia a sensação de te perder.

A voz saiu baixa.

Quase um sussurro.

Adrian desviou os olhos.

— Entendi.

Só aquilo.

Helena esperou por mais alguma coisa.

Não veio.

A carruagem finalmente parou diante da entrada principal.

O cocheiro desceu para abrir a porta.

Helena permaneceu sentada por mais alguns segundos.

Olhou para Adrian.

Ele estava imóvel.

O rosto voltado para a casa.

Ela conhecia aquele rosto.

Ou acreditava conhecer.

Conhecia a pequena ruga que aparecia entre suas sobrancelhas quando estava concentrado. Conhecia o modo como apertava os lábios quando estava irritado. Conhecia até a maneira como desviava o olhar quando não queria admitir que estava errado.

Mas aquele homem diante dela parecia esconder cada uma dessas coisas.

Helena respirou fundo.

Talvez precisasse apenas de tempo.

Talvez seis anos de guerra não pudessem desaparecer em uma única tarde.

Talvez Adrian precisasse reaprender a viver.

E talvez ela precisasse reaprender a amá-lo.

Não.

Essa última parte não era verdade.

Helena nunca havia deixado de amá-lo.

Ela apenas precisava descobrir como alcançar o homem que havia voltado para casa.

Adrian finalmente abriu a porta da carruagem.

Desceu primeiro.

Helena o acompanhou com os olhos.

Por um instante, ele permaneceu parado diante da casa.

O vento moveu levemente seu casaco.

Então Adrian ergueu os olhos para as janelas do andar superior.

A expressão mudou.

Foi rápido.

Tão rápido que Helena quase acreditou ter imaginado.

Mas, por um breve instante, havia medo em seus olhos.

Não o medo de um homem diante de uma casa desconhecida.

Era outra coisa.

Um medo profundo.

Instintivo.

Como se até mesmo aquele lugar, que deveria ser seguro, guardasse alguma ameaça que apenas ele conseguia enxergar.

Então Adrian piscou.

A expressão desapareceu.

Quando olhou novamente para Helena, seu rosto estava impassível.

— Vamos?

Ela assentiu.

— Vamos.

Helena desceu da carruagem.

E entrou em casa ao lado do marido.

Sem saber que, embora Adrian tivesse finalmente atravessado aquela porta, uma parte dele ainda permanecia muito longe dali.

A porta da casa se abriu.

O cheiro familiar de madeira, cera e lavanda veio ao encontro de Helena.

Ela respirou fundo.

Durante seis anos, aquele cheiro havia sido uma das lembranças mais próximas que possuía de Adrian.

Era o cheiro das manhãs naquela casa.

Dos corredores que atravessava descalça.

Dos vestidos que escolhia diante do espelho.

Dos cafés que tomavam juntos antes que Adrian partisse para seus compromissos.

Era o cheiro de casa.

De vida.

De marido.

Por um instante, Helena teve vontade de chorar.

Mas, para Adrian, aquele mesmo aroma trouxe algo diferente.

As lembranças vieram antes que pudesse impedi-las.

Não como uma história organizada.

Mas em fragmentos.

A mesa da sala de jantar.

A voz de Helena rindo.

Uma porta se fechando.

O fogo da lareira.

As mãos dela.

O som de seus passos pelo corredor.

O cheiro de lavanda em seus cabelos.

Adrian ficou imóvel por um segundo.

Sua respiração mudou.

O peito subiu mais depressa.

Então ele fechou os olhos.

Apenas por um instante.

Quando os abriu novamente, tudo havia desaparecido de seu rosto.

Seus olhos percorreram a sala.

Os móveis.

A lareira.

Os retratos.

O relógio.

As portas.

As janelas.

Tudo havia sido cuidadosamente preservado.

Era como se, em seis anos, nada tivesse mudado.

Mas ele sabia que aquilo era impossível.

O mundo havia mudado.

Ele havia mudado.

E Helena...

Adrian desviou os olhos antes de terminar o pensamento.

Os serviçais da casa estavam enfileirados diante dele, todos de cabeças curvadas.

Alguns deles eram os mesmos que estavam ali quando partira.

Outros eram rostos que não reconhecia.

Mesmo assim, todos pareciam esperar alguma reação.

O mordomo deu um passo à frente.

— Seja bem-vindo de volta, Comandante Albrecht.

Adrian apenas assentiu.

Retirou o quepe da cabeça e o colocou sobre a mesa de centro.

O gesto foi simples.

Controlado.

Quase automático.

— É bom tê-lo de volta, senhor — disse uma das criadas.

Adrian voltou os olhos para ela.

A mulher imediatamente abaixou a cabeça.

Ele percebeu o desconforto.

— Obrigado.

A palavra saiu baixa.

Helena olhou para ele.

Era estranho ouvi-lo agradecer daquela maneira.

Antes, Adrian costumava sorrir quando os empregados o recebiam depois de alguma viagem. Às vezes, perguntava pelos filhos deles. Conhecia os nomes de quase todos.

Agora, parecia não saber o que fazer com a presença de tantas pessoas ao redor.

O mordomo pigarreou.

— Seu quarto está preparado, senhor.

Adrian ficou em silêncio.

Helena sentiu uma pequena pontada no peito.

Seu quarto.

Durante seis anos, ela havia imaginado aquele momento.

Imaginara Adrian entrando novamente naquele quarto.

Imaginara ajudá-lo a retirar o uniforme.

Imaginara perguntar sobre sua viagem.

Imaginara deitar ao lado dele e simplesmente agradecer a Deus por tê-lo de volta.

Mas, ao olhar para Adrian, percebeu que ele não parecia pensar em nenhuma dessas coisas.

Seu olhar estava novamente percorrendo a sala.

As portas.

As janelas.

Os cantos.

As entradas.

Como se estivesse memorizando cada possível saída.

Helena franziu discretamente a testa.

— Adrian?

Ele imediatamente olhou para ela.

— Sim?

Ela hesitou.

Queria perguntar se estava tudo bem.

Mas não sabia se aquela era uma pergunta que ele conseguiria responder.

Então apenas sorriu.

— Nada.

Adrian sustentou seu olhar por alguns segundos.

Depois desviou.

— Vou para o quarto.

Helena sentiu o coração apertar.

— Claro.

Ele passou por ela.

Por um instante, seus ombros quase se tocaram.

Helena sentiu o cheiro familiar de seu perfume misturado ao couro do uniforme.

Fechou os olhos por um breve momento.

Era Adrian.

Era realmente ele.

Depois de seis anos, seu marido estava novamente dentro daquela casa.

Mas, enquanto o observava desaparecer pelo corredor, Helena não conseguiu afastar a sensação de que havia algo profundamente errado.

Porque o homem que retornara da guerra conhecia aquela casa.

Conhecia aqueles móveis.

Conhecia cada corredor.

Conhecia a mulher que permanecia parada atrás dele.

Mas parecia ter esquecido como pertencer àquele lugar.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App