Mundo de ficçãoIniciar sessão
As primeiras badaladas das nove ecoaram pelo centro de Saint Armand quando a banda militar começou a tocar.
As ruas nunca haviam estado tão cheias.
Bandeiras da República de Valéria balançavam penduradas nas janelas. Crianças corriam entre os adultos carregando pequenas fitas nas cores nacionais, enquanto buquês de lavanda descansavam nas mãos das mulheres que aguardavam, ansiosas, pelo retorno dos maridos.
A guerra havia acabado.
Finalmente.
Depois de seis anos, os homens estavam voltando para casa.
Os caminhões militares surgiram no horizonte como sombras escuras rompendo a névoa da manhã.
Um murmúrio percorreu a multidão.
Logo se transformou em aplausos.
Depois, em lágrimas.
— Eles voltaram...
— Graças a Deus...
— Meu filho está ali!
A cidade inteira comemorava.
Toda ela.
No meio da multidão, Helena Albrecht mal conseguia conter a ansiedade.
As mãos unidas diante do vestido azul-marinho escondiam o leve tremor de seus dedos.
Seis anos.
Seis anos de noites solitárias e frias.
Seis anos sem vê-lo.
Sem ouvir sua voz.
Sem sentir o calor de seu abraço.
A única coisa que tivera durante aqueles anos eram as cartas.
Algumas poucas cartas enviadas por Adrian contando sobre a guerra. No começo, chegavam com alguma frequência. Depois, os intervalos começaram a aumentar.
Até que a última chegou.
Havia pouco mais de dois anos.
Depois dela, silêncio.
Helena escrevera inúmeras vezes.
Nenhuma resposta.
As notícias que recebia eram as mesmas que chegavam a todos em Saint Armand: a guerra estava cada vez mais intensa, as tropas avançavam e recuavam, homens desapareciam, cidades eram destruídas.
Mas sobre Adrian...
Nada.
Por dois anos, Helena não soubera se o marido estava vivo.
E, mesmo assim, esperara.
Todos os dias.
Os caminhões finalmente pararam.
Os soldados começaram a descer.
Alguns sorriam.
Outros choravam sem vergonha.
Um homem caiu de joelhos ao rever os pais. Outro ergueu a filha nos braços, como se tentasse recuperar, de uma só vez, todos os aniversários que havia perdido.
Helena procurava apenas um rosto.
Então Adrian apareceu.
Alto.
Uniforme impecavelmente alinhado.
As medalhas refletiam a luz fria da manhã.
A postura continuava firme.
O rosto permanecia tão bonito quanto no dia em que partira.
Mas havia algo que Helena não conseguia explicar.
Os olhos.
Eles pareciam olhar através das pessoas, nunca para elas.
Por um instante, seus olhares se encontraram.
Helena sorriu.
O coração apertou no peito.
Esperou.
Esperou apenas um sorriso de volta.
Adrian apenas inclinou levemente a cabeça, como quem reconhece uma conhecida em uma cerimônia oficial.
Nada mais.
Naquele instante, um frio percorreu sua espinha.
Ela sorriu outra vez, insistindo.
Talvez ele estivesse cansado.
Talvez estivesse apenas tentando manter a compostura diante da cidade.
Era isso.
Precisava ser.
Porque a outra possibilidade...
Era insuportável.
Mas nem sempre foi assim.
Seis anos antes...
Helena desfazia, pela terceira vez naquela manhã, o mesmo botão do uniforme de Adrian.
A costura estava perfeita.
Ela sabia disso.
Mesmo assim, puxava delicadamente a linha, retirava o botão e começava tudo outra vez.
Sentado à mesa da cozinha, Adrian observava a cena em silêncio enquanto tomava café.
Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.
— Helena...
Ela fingiu não ouvir.
Continuou costurando.
— Acho que esse botão já está preso desde a primeira tentativa.
Ela ergueu os olhos.
— Está torto.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Está?
Ela assentiu com uma seriedade tão exagerada que o fez rir.
Um riso baixo e sincero.
Aquele som encheu a cozinha pequena como se fizesse parte da própria casa.
— Quantas vezes pretende costurar esse pobre botão?
Helena desviou os olhos para a linha entre seus dedos.
— Até encontrar um motivo para você não precisar ir.
O sorriso dele desapareceu.
Por um instante, nenhum dos dois disse nada.
Apenas o relógio antigo na parede continuou marcando o tempo, indiferente ao peso daquela manhã.
Adrian levantou-se devagar.
Parou atrás dela.
Com delicadeza, apoiou as mãos em sua cintura.
Depois inclinou o rosto e beijou sua nuca.
Helena fechou os olhos.
Se existia um lugar onde ainda se sentia completamente segura, era entre aqueles braços.
— Se eu pudesse escolher... — murmurou ele. — Ficaria aqui.
Ela virou o rosto apenas o suficiente para fitá-lo.
— Então escolha.
Ele sorriu de novo.
Um sorriso triste.
— Há escolhas que deixam de nos pertencer quando vestimos este uniforme.
Os olhos de Helena marejaram.
Ela sabia que ele estava certo.
E odiava isso.
Deixou a linha e a agulha sobre a mesa.
Então se virou para ele e o abraçou com força, como se pudesse impedir sua partida simplesmente mantendo os braços ao redor de seu corpo.
Adrian a envolveu no mesmo instante.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.
Não precisavam.
Naquela manhã, as palavras pareciam pequenas demais para tudo o que sentiam.
Helena escondeu o rosto contra o peito dele.
— Eu odeio essa guerra.
Adrian fechou os olhos.
— Eu também.
Ela levantou o rosto.
— Então volte para mim.
Ele segurou seu rosto entre as mãos.
Dessa vez, não sorriu.
Apenas a olhou demoradamente, como se estivesse tentando guardar cada detalhe.
— Eu volto.
Helena acreditou.
Naquele momento, acreditou com toda a força que possuía.
Lá fora, a banda militar começou a tocar.
O mesmo som que, seis anos depois, anunciaria o retorno de Adrian Albrecht.
A diferença era que, naquela manhã, Helena estava se despedindo do homem que amava.
E ainda não sabia que, quando ele finalmente voltasse, teria de aprender a reconhecer o próprio marido outra vez.







