Mundo de ficçãoIniciar sessãoA carruagem partiu pouco tempo depois.
Aos poucos, os sons da cidade ficaram para trás. As vozes das pessoas, os gritos de comemoração e o toque dos sinos foram desaparecendo até serem substituídos pelo som ritmado das rodas contra a estrada de terra.
Sentada ao lado de Adrian, Helena mantinha as mãos entrelaçadas sobre o colo.
Tentava observá-lo sem parecer que estava observando.
Não era fácil.
Durante seis anos, precisara se contentar com lembranças.
Agora, ele estava a poucos centímetros dela.
Tão perto que Helena poderia estender a mão e tocá-lo.
Mas não o fez.
Havia pequenas diferenças.
E, principalmente, havia algo em sua postura que ela não conseguia definir.
Antes, Adrian parecia relaxar quando estava ao lado dela.
Mesmo quando não conversavam, havia uma tranquilidade em sua presença. Ele conseguia passar longos períodos sentado ao seu lado, lendo ou simplesmente olhando pela janela, sem que parecesse precisar estar em outro lugar.
Agora, mesmo sentado, parecia pronto para se levantar a qualquer instante.
Os músculos de seus ombros permaneciam tensos.
As mãos descansavam sobre as pernas, mas não estavam relaxadas.
E seus olhos não paravam.
A cada curva da estrada, Adrian observava a paisagem pela janela.
As árvores.
As cercas.
As pequenas casas espalhadas pelo caminho.
Os homens trabalhando nos campos.
Tudo parecia merecer sua atenção.
Como se procurasse algo de errado.
Ou algum sinal de perigo.
Helena acompanhou o movimento de seus olhos.
— Você está cansado?
Ele demorou alguns segundos para responder.
— Sim.
A voz era mais grave do que ela lembrava.
Ou talvez fosse apenas a saudade que tivesse distorcido sua memória.
Helena sorriu discretamente.
— Posso pedir para pararmos um pouco, se quiser.
Adrian virou o rosto.
— Não.
A resposta veio rápida demais.
Ou um pouco ríspida demais.
Helena piscou.
O silêncio que veio depois pareceu ainda maior.
Adrian percebeu.
Seu maxilar se contraiu por um instante antes de relaxar.
— Quero dizer... — corrigiu, depois de uma pequena pausa. — Só quero chegar em casa.
Helena observou seu rosto por alguns segundos.
Então sorriu.
Aquela palavra aqueceu seu peito.
— Eu também — ela concordou.
Adrian voltou a olhar pela janela.
Helena baixou os olhos.
Durante os últimos dois anos, ela havia repetido aquela palavra tantas vezes em suas cartas.
Casa.
Quando você voltar para casa...
Quando estivermos em casa novamente...
Quando você estiver em casa, vou preparar aquele bolo que você gosta.
Às vezes, escrever sobre a casa era a única maneira que encontrava de acreditar que Adrian realmente voltaria.
Ela havia mantido tudo como antes.
Como se o tempo pudesse ser obrigado a esperar.
Como se, ao retornar, ele pudesse simplesmente atravessar a porta e encontrar a mesma vida que deixara para trás.
Agora estavam indo para lá.
E, ainda assim, algo parecia errado.
Helena olhou novamente para Adrian.
Ele continuava olhando pela janela.
— Você sentiu falta daqui?
A pergunta escapou antes que pudesse pensar melhor.
Adrian demorou a responder.
— Senti.
Helena esperou.
Talvez viesse alguma lembrança.
Alguma história.
Qualquer coisa que pudesse aproximá-los.
Mas ele não disse mais nada.
Ela sorriu, embora ele não pudesse ver.
— Eu senti muito a sua falta aqui.
Dessa vez, Adrian não respondeu.
Helena não insistiu.
O restante da viagem seguiu em silêncio.
Mas não era o mesmo silêncio que compartilhavam antes da guerra.
Antigamente, o silêncio entre eles era confortável.
Agora, parecia uma parede.
E Helena não sabia como atravessá-la.







