Capítulo 2 - O homem que voltou.

As ruas permaneciam tomadas por pessoas, bandeiras e flores.

Crianças corriam atrás dos veículos militares, enquanto os moradores se aproximavam para cumprimentar os soldados que ainda caminhavam pelas calçadas. Algumas mulheres choravam ao reconhecer maridos, filhos e irmãos entre os homens que retornavam. Outras seguravam flores contra o peito, esperando pelo momento em que finalmente poderiam entregá-las àqueles que haviam esperado por anos.

Saint Armand continuava em festa.

Havia música tocando na praça central, sinos sendo badalados e vozes se misturando em comemorações. O cheiro de comida, flores e pólvora ainda parecia pairar no ar, enquanto bandeiras tremulavam sobre as casas.

Para todos ali, aquele era um dia de vitória.

Para Helena, era o dia pelo qual esperara durante seis anos.

Ela respirou fundo.

Então se aproximou de Adrian em passos cautelosos.

Os olhos dele estavam presos nela, porém, desta vez, não havia calor neles.

O coração de Helena batia tão forte que ela podia sentir seu corpo todo vibrar de acordo com as batidas.

Havia imaginado aquele momento tantas vezes que, durante os dois anos em que deixara de receber cartas, ele se tornara quase uma espécie de oração.

Imaginara Adrian contando histórias da guerra.

Imaginara o abraço que lhe daria.

Imaginara chorar contra o peito dele.

Imaginara ouvir sua voz dizendo que finalmente estava em casa.

Imaginara até mesmo a primeira noite em que poderiam dormir novamente na mesma cama, sem a distância de milhares de quilômetros entre os dois.

Às vezes, quando a saudade se tornava insuportável, Helena fechava os olhos e tentava recordar exatamente como era adormecer ao lado dele.

O peso de seu corpo sobre o colchão.

A respiração baixa.

O calor que vinha de sua pele durante as noites frias.

A mão de Adrian encontrando a sua por baixo dos lençóis, quase sempre sem que ele percebesse.

Eram pequenas coisas.

Coisas que, antes da guerra, pareciam insignificantes.

Agora, eram tudo o que ela tinha.

Mas não havia imaginado o silêncio.

Nem aquele olhar frio e distante.

O caminho até Adrian pareceu ter se transformado em uma estrada interminável.

A cada passo, Helena sentia o nervosismo aumentar.

Ele estava diferente.

Mais velho.

Mais sério.

Havia uma cicatriz atravessando a lateral de sua sobrancelha esquerda, algo que ela nunca tinha visto antes. O rosto parecia mais magro, os traços mais duros. Até sua postura parecia carregar um peso que não existia seis anos atrás.

Ainda assim, era Adrian.

Seu Adrian.

Seu marido.

Quando finalmente parou diante dele, seus olhos se encheram de lágrimas.

Havia uma mistura sufocante de emoções.

Saudade.

Felicidade.

Ansiedade.

E... medo.

Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu.

Helena ergueu os olhos para o rosto de Adrian, procurando qualquer sinal do homem que havia guardado em suas lembranças durante aqueles seis anos.

Não encontrou.

Ainda assim, sorriu.

Talvez ele só precisasse de um momento.

Talvez estivesse exausto.

Talvez todas aquelas histórias sobre homens que voltavam diferentes da guerra fossem verdadeiras.

Helena sabia que Adrian havia enfrentado coisas que ela jamais conseguiria compreender.

Ela não esperava que ele voltasse exatamente igual.

Só queria que ele voltasse para ela.

Helena deu mais um passo.

Então o abraçou.

Seus braços envolveram a cintura de Adrian com uma força que denunciava todos os anos em que estivera sozinha.

Ela fechou os olhos.

Por um instante, permitiu-se esquecer a cidade, os soldados, a guerra e todas as perguntas que ainda não tinham respostas.

Ele estava ali.

Seu marido estava finalmente ali.

Helena encostou o rosto contra o peito dele.

Esperou.

Um segundo.

Dois.

Três.

Nada.

O corpo de Adrian permaneceu rígido.

Os braços continuaram imóveis ao lado do corpo.

Ele não a afastou.

Mas também não a abraçou.

Helena abriu os olhos lentamente.

O sorriso desapareceu de seus lábios.

Sentiu uma pontada no peito.

Talvez ele estivesse apenas cansado.

Talvez seis anos fossem tempo demais para simplesmente voltar a ser quem era.

Ela se afastou apenas o suficiente para olhar para ele.

— Adrian...

Ele finalmente ergueu os braços.

Por um breve instante, Helena acreditou que ele finalmente a envolveria.

Mas as mãos apenas repousaram sobre seus braços.

Sem carinho.

Sem força.

Quase como se estivesse cumprindo um gesto que sabia que deveria fazer.

— É bom estar em casa — disse ele.

Helena sustentou seu olhar.

Ela queria ouvir outra coisa.

Queria ouvir que ele sentira sua falta.

Que pensara nela.

Que contara os dias para voltar.

Queria ouvir o nome dela dito da maneira como ele costumava dizer.

Antes da guerra, Adrian não era um homem de grandes declarações.

Nunca fora.

Seu amor existia nos pequenos gestos.

No café que deixava preparado para ela nas manhãs em que precisava sair cedo.

No casaco que colocava sobre seus ombros quando a temperatura caía.

Na maneira discreta como segurava sua mão debaixo da mesa durante os jantares com as famílias.

Nas noites em que não dizia nada, apenas permanecia ao lado dela enquanto Helena lia.

Era assim que Adrian amava.

Em silêncio.

E Helena aprendera a entender aquele silêncio.

Mas aquele era diferente.

Havia algo vazio nele.

Algo que ela não sabia nomear.

— Eu esperei por você — sussurrou.

Os olhos de Adrian permaneceram sobre os dela.

Por um instante, algo passou por seu rosto.

Tão rápido que Helena não conseguiu identificar.

Dor?

Culpa?

Saudade?

Então desapareceu.

— Eu sei.

Aquelas duas palavras deveriam tê-la confortado.

Não confortaram.

Helena engoliu em seco.

— Recebi suas primeiras cartas.

Adrian desviou o olhar por um instante.

— Eu sei.

— Depois elas pararam.

Silêncio.

Ela esperou.

Esperou que ele explicasse.

Que dissesse que não teve escolha.

Que tentara escrever.

Que alguma coisa havia acontecido.

Qualquer coisa.

Mas Adrian permaneceu calado.

Ao redor deles, a cidade continuava comemorando.

Uma criança passou correndo entre os dois segurando uma pequena bandeira. Mais adiante, alguém gritou o nome de um soldado que acabara de reencontrar a família.

Havia risos.

Choro.

Abraços.

Beijos.

E, no meio de toda aquela celebração, Helena percebeu que nunca havia se sentido tão sozinha.

Adrian finalmente voltou para casa.

Mas, pela primeira vez, ela se perguntou se o homem que amava realmente havia voltado com ele.

E aquela dúvida, pequena e quase imperceptível, foi a primeira rachadura no casamento que Helena acreditava ter sobrevivido à guerra.

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