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Alexander olhou para ela e perguntou:
— Aconteceu alguma coisa?
Emily fechou os dedos.
— Me desculpe. Bati no seu carro. Vou pagar pelos danos.
A figura de Alexander estava envolta na penumbra do banco traseiro.
— Você é muito rica?
Emily abriu a boca — e não conseguiu responder nada.
— A família Hayes não precisa do seu dinheiro. Feche a porta.
Emily fechou a porta do carro. Ficou parada na chuva, segurando o guarda-chuva, olhando para o veículo que sumia aos poucos na escuridão. Só então desviou o olhar.
Enxugou o rosto, abriu o próprio carro e entrou.
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Emily chegou em casa quase uma da manhã.
No caminho de volta, o carro ficou sem gasolina. Para piorar, com a chuva forte, ela ficou esperando dentro do veículo por quase duas horas até que alguém lhe trouxesse socorro.
Depois de um banho rápido, ela caiu na cama e apagou antes mesmo de secar o cabelo.
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No dia seguinte.
Emily acordou com um barulho.
Suportando a dor de cabeça, abriu os olhos devagar e olhou para o celular. Três da tarde.
Ficou chocada.
Tinha dormido o dia inteiro.
Tentou se sentar, mas o corpo estava mole como algodão. Levou a mão à testa — estava queimando.
Meia hora depois, ela desceu as escadas usando máscara.
Gabi havia folga naquele dia, então seria ela quem ficaria na loja.
— Irmã Emily, você está bem? — Mel perguntou com o rosto cheio de preocupação ao ver Emily com aquela aparência.
Mel tinha vinte anos. Vinha de uma família com pouco dinheiro e havia largado os estudos cedo para trabalhar. Mas tinha jeito natural para cerâmica artesanal — e quando Emily percebeu isso, não pensou duas vezes em contratá-la.
Gabi era um pouco mais velha, vinte e dois anos. Havia se formado naquele ano, mas não encontrava um emprego que a satisfizesse. Entrou na loja por acaso, se apaixonou pelo lugar e Emily a convidou para ficar.
— Estou bem — respondeu Emily com a voz rouca. — É só um resfriado. Um remédio resolve.
— Certo. Me chama se precisar de alguma coisa.
Dois clientes entraram naquele momento, e Mel correu para recebê-los.
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Apesar de não estar nada bem, Emily trabalhou até as oito da noite.
No fim, foi Mel quem percebeu que algo estava errado de verdade e insistiu para ela ir ao hospital.
Vendo que restavam apenas dois clientes na loja, Emily não forçou a situação. Chamou um táxi e foi até o Hospital Municipal.
— 39 graus e oito. Se tivesse esperado mais, teria passado muito mal.
— Sua garganta também está inflamada. Vou te passar uma medicação. Desce ao primeiro andar para pagar, depois sobe ao segundo andar para tomar o soro com a enfermeira.
As palavras do médico pareciam flutuar em algum lugar distante. Atordoada, Emily ouviu vagamente ele perguntar:
— Você tem algum familiar? Pode chamar alguém para te acompanhar?
Familiar?
A vovó não podia saber que ela estava doente — ia se preocupar demais.
Emily balançou a cabeça.
— Vocês jovens não valorizam a saúde enquanto têm... — a voz murmurante do médico ecoou de longe.
— Obrigada, doutor.
Emily pegou a listagem e desceu para o primeiro andar.
Sentia o mundo girando. As pálpebras estavam tão pesadas que mal conseguia mantê-las abertas. Ela foi caminhando aos tropeços com os olhos semicerrados, tentando segurar o equilíbrio.
De repente, a ponta do pé bateu num desnível no piso e ela foi jogada para a frente. Por instinto, tentou agarrar algo — os dedos mal alcançaram um pedaço de tecido macio antes de o corpo chocar com o chão.
— Ai. — Emily não conseguiu segurar um gemido. A dor no joelho fez os olhos encherem de água na hora.
Ficou parada por um instante e depois se levantou devagar.
Sentiu um peso na mão. Olhou para baixo — havia um cobertor. Marrom.
Esse cobertor... parece familiar.
De repente, sentiu um olhar frio pousar sobre ela. Ergueu os olhos, confusa — e encontrou um par de olhos escuros e fundos.
— ...Senhor Hayes?
O cobertor que ela segurava era idêntico ao que ele usava para cobrir as pernas.
— Me desculpe. Não foi de propósito. — A voz de Emily estava rouca, e os olhos marejados a traíram.
Alexander a reconheceu e franziu a testa com impaciência. Estava prestes a soltar algum comentário ácido — mas ao notar o vermelho incomum nas bochechas dela, as palavras ficaram presas.
Apenas lançou um olhar vago e cortante.
Emily baixou a cabeça, caminhou até ele e estendeu o cobertor com as mãos trêmulas.
Alexander ergueu a mão de repente, pegando-a de surpresa. O cobertor foi arrancado dos dedos dela e caiu no chão.
Emily mordeu o lábio. Ficou olhando para o cobertor no chão — e as lágrimas começaram a escorrer sem que ela conseguisse fazer nada para impedir.
A visão ficou turva.
O ar ao redor ficou quieto.
Alexander franziu a testa. Os dedos se contraíram levemente quando os retirou. Os lábios se apertaram de forma involuntária.
Ele observou Emily se abaixar para recolher o cobertor e os recibos do chão. Ela baixou a cabeça e não olhou mais para ele.
Só conseguiu dizer, com a voz embargada:
— Eu... sinto muito.
Em seguida, agarrou o cobertor e se virou para ir embora. Os ombros tremiam.
Alexander ficou olhando para a figura dela se afastar. O olhar, fundo e difícil de ler.
Naquele momento, a voz de Theo soou ao seu lado:
— Senhor Hayes, a senhora parece bastante doente. Devemos ajudá-la?
Emily havia chegado sozinha ao hospital e estava visivelmente mal.
Alexander franziu a testa e desviou o olhar.
— Não precisa.
Nunca houve nenhuma afeto real entre eles, para começo de conversa. Por que se intrometer?
Se não fosse para verificar as próprias pernas naquela noite, provavelmente nem teria cruzado com ela.
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Com o último resquício de lucidez que lhe restava, Emily aguentou firme até a enfermeira conectar o soro.
Sentou-se na cadeira de espera. O frio do tecido a fez encolher.
Pouco tempo depois, sob o efeito dos medicamentos, ela adormeceu.
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Depois de terminar seu exame, ao passar pelo corredor do segundo andar, Alexander avistou Emily do outro lado do vidro — sentada, tomando soro.
Ela estava encolhida na cadeira, com a cabeça levemente virada para o lado e os olhos fechados. A luz amarelada da lâmpada batia nela. As sobrancelhas franzidas num desconforto silencioso. Os lábios pálidos.
Ele lançou apenas um olhar rápido — e foi então que notou: um homem sentado ao lado dela. Comportamento estranho. Suspeito.
No segundo seguinte, a mão do homem se moveu em direção à coxa de Emily.
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Emily sentiu um frio leve.
Abriu os olhos — e percebeu que algo estava errado. Viu um par de mãos se aproximando.
O rosto empalideceu. Ela se levantou de um salto para escapar.
O homem pareceu surpreso que ela havia acordado — mas se recompôs rápido e se preparou para ir embora discretamente.
— Sem-vergonha!
Como ousa seduzir meu marido!
Uma voz aguda estourou atrás de Emily.
Sua mão foi puxada com força de repente — e a agulha que estava no dorso foi arrancada de uma vez. O sangue jorrou e pingou no chão, vermelho vivo.
O rosto de Emily se contorceu de dor. Ela não conseguiu conter um suspiro.
Cambaleou levemente e disse com a voz rouca:
— Eu não fiz nada.