Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena entendeu cedo que vingança não se constrói com pressa. Ela precisava de algo que nunca tivera antes: tempo, preparo e poder real. Amar Miguel não anulava isso — apenas tornava tudo mais perigoso.
Eles mudaram juntos. Miguel a levou para um mundo que ela só conhecia pela superfície. Relatórios internacionais, investimentos silenciosos, empresas que cresciam à sombra de outras que caíam. Ele ensinou o que sabia, mas também exigiu. Não a poupou. Não a protegeu do peso das decisões. — Se você quer voltar, precisa ser maior do que eles — dizia. — Não apenas mais justa. Mais forte. Helena estudava como nunca. Aprendeu a ler contratos como quem lê intenções. Aprendeu que números também mentem — e que quem sabe ouvir, escuta a verdade nas entrelinhas. Os dias eram longos. As noites, divididas entre planilhas e o corpo quente de Miguel, que a lembrava de que ainda era humana. O amor entre eles cresceu nesse espaço perigoso entre ambição e entrega. Não era um romance leve. Era intenso, carregado de silêncios e olhares demorados. Às vezes brigavam. Às vezes se afastavam por medo. Mas sempre voltavam, como se houvesse algo maior os puxando de volta. — Se isso der errado… — Helena começou certa noite. — Vai dar errado para eles — Miguel respondeu. — Não para você. Ela queria acreditar. Dois anos depois, o nome Helena começou a aparecer. Primeiro em reuniões pequenas. Depois em negociações maiores. Miguel não apagou quem foi — apenas escondeu. O passado virou arma secreta. Quando a notícia do retorno de Helena à capital se espalhou, Gabriel sentiu um aperto estranho no peito. Ele estava em ascensão. Promoções, reconhecimento, status. Mas algo sempre parecia faltar. Às vezes, no silêncio do apartamento, lembrava-se de Helena — da calma dela, do jeito como acreditava demais. Foi em um evento corporativo que ele a viu. Não reconheceu de imediato. O vestido elegante, o cabelo preso com precisão, o olhar firme. Mas quando seus olhos cruzaram, o mundo perdeu o som. Era ela. Ou alguém que carregava a mesma essência, só que afiada. — Hele… — ele sussurrou, sem perceber. Ela sorriu. Um sorriso educado. Frio. Calculado. — Desculpe — disse ela. — Nos conhecemos? Aquilo doeu mais do que qualquer acusação. Gabriel passou a procurá-la. Encontros “casuais”, convites profissionais, mensagens longas demais. Falava do passado como se fosse um erro compartilhado, algo que poderiam consertar. — Eu devia ter te defendido — disse certa vez. — Todos os dias eu me arrependo. Helena ouviu em silêncio. Parte dela queria gritar. Outra parte, mais perigosa, observava. Miguel não gostou quando soube. — Ele ainda te olha como se tivesse direito — disse, com a mandíbula tensa. — Ele olha — ela respondeu. — Mas não enxerga. Mesmo assim, o triângulo estava formado. Gabriel representava o passado que a traiu, mas ainda conhecia suas fragilidades. Miguel o era o presente que a fortalecia, mas sabia demais sobre seus planos. E Helena estava no centro, dividida entre o que sentia e o que precisava fazer. Naquela noite, ela encarou o próprio reflexo no espelho. A mulher que a olhava de volta não era vítima. Era estrategista. Mas o coração… o coração ainda batia forte demais. — Eu não posso perder você — disse Miguel, segurando-a pela cintura. — Eu não posso me perder — ela respondeu. Eles se beijaram como se fosse uma despedida, sem saber de quê. Em algum lugar da cidade, Gabriel acreditava que ainda havia tempo. E Helena sabia: a queda deles já tinha começado.






