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CAPÍTULO 4 — QUEM APRENDE A SUBIR, APRENDE A CAIR

Helena entendeu cedo que vingança não se constrói com pressa. Ela precisava de algo que nunca tivera antes: tempo, preparo e poder real. Amar Miguel não anulava isso — apenas tornava tudo mais perigoso.

Eles mudaram juntos.

Miguel a levou para um mundo que ela só conhecia pela superfície. Relatórios internacionais, investimentos silenciosos, empresas que cresciam à sombra de outras que caíam. Ele ensinou o que sabia, mas também exigiu. Não a poupou. Não a protegeu do peso das decisões.

— Se você quer voltar, precisa ser maior do que eles — dizia. — Não apenas mais justa. Mais forte.

Helena estudava como nunca. Aprendeu a ler contratos como quem lê intenções. Aprendeu que números também mentem — e que quem sabe ouvir, escuta a verdade nas entrelinhas. Os dias eram longos. As noites, divididas entre planilhas e o corpo quente de Miguel, que a lembrava de que ainda era humana.

O amor entre eles cresceu nesse espaço perigoso entre ambição e entrega.

Não era um romance leve. Era intenso, carregado de silêncios e olhares demorados. Às vezes brigavam. Às vezes se afastavam por medo. Mas sempre voltavam, como se houvesse algo maior os puxando de volta.

— Se isso der errado… — Helena começou certa noite.

— Vai dar errado para eles — Miguel respondeu. — Não para você.

Ela queria acreditar.

Dois anos depois, o nome Helena começou a aparecer. Primeiro em reuniões pequenas. Depois em negociações maiores. Miguel não apagou quem foi — apenas escondeu. O passado virou arma secreta.

Quando a notícia do retorno de Helena à capital se espalhou, Gabriel sentiu um aperto estranho no peito.

Ele estava em ascensão. Promoções, reconhecimento, status. Mas algo sempre parecia faltar. Às vezes, no silêncio do apartamento, lembrava-se de Helena — da calma dela, do jeito como acreditava demais.

Foi em um evento corporativo que ele a viu.

Não reconheceu de imediato. O vestido elegante, o cabelo preso com precisão, o olhar firme. Mas quando seus olhos cruzaram, o mundo perdeu o som.

Era ela.

Ou alguém que carregava a mesma essência, só que afiada.

— Hele… — ele sussurrou, sem perceber.

Ela sorriu. Um sorriso educado. Frio. Calculado.

— Desculpe — disse ela. — Nos conhecemos?

Aquilo doeu mais do que qualquer acusação.

Gabriel passou a procurá-la. Encontros “casuais”, convites profissionais, mensagens longas demais. Falava do passado como se fosse um erro compartilhado, algo que poderiam consertar.

— Eu devia ter te defendido — disse certa vez. — Todos os dias eu me arrependo.

Helena ouviu em silêncio. Parte dela queria gritar. Outra parte, mais perigosa, observava.

Miguel não gostou quando soube.

— Ele ainda te olha como se tivesse direito — disse, com a mandíbula tensa.

— Ele olha — ela respondeu. — Mas não enxerga.

Mesmo assim, o triângulo estava formado.

Gabriel representava o passado que a traiu, mas ainda conhecia suas fragilidades.

Miguel o era o presente que a fortalecia, mas sabia demais sobre seus planos.

E Helena estava no centro, dividida entre o que sentia e o que precisava fazer.

Naquela noite, ela encarou o próprio reflexo no espelho. A mulher que a olhava de volta não era vítima. Era estrategista. Mas o coração… o coração ainda batia forte demais.

— Eu não posso perder você — disse Miguel, segurando-a pela cintura.

— Eu não posso me perder — ela respondeu.

Eles se beijaram como se fosse uma despedida, sem saber de quê.

Em algum lugar da cidade, Gabriel acreditava que ainda havia tempo.

E Helena sabia: a queda deles já tinha começado.

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