Papeis Vermelhos

O nome de Veronica Castelli havia sido chamado no meio do intervalo.

Ela não havia demonstrado nada ao se levantar — pegou a bolsa com calma, ajustou o cabelo com dois dedos, saiu da mesa com a postura de quem foi convidada e não convocada. Era um hábito construído ao longo de anos: nunca deixar que ninguém visse a hesitação antes de você entender o que estava enfrentando.

A sala da coordenação ficava no corredor administrativo, separada do resto da instituição por uma porta de vidro fosco que filtrava o barulho mas não o apagava. Veronica empurrou a porta sem bater.

E parou por um segundo.

A coordenadora que ela esperava encontrar não estava lá. No lugar dela, do outro lado da mesa, havia uma mulher que não deveria ter mais de trinta anos. Cabelos castanhos soltos até os ombros, presos de um lado por um grampo simples que parecia mais descuido do que escolha — e funcionava. Óculos de armação fina que descansavam levemente descidos no nariz, como se ela tivesse esquecido de ajustá-los e ninguém havia achado necessário avisá-la. A blusa social estava com o primeiro botão aberto, o suficiente para ser profissional e o suficiente para não ser só isso. Era o tipo de mulher que não precisava tentar — a presença chegava antes dela e ficava depois.

— Veronica. — A voz era direta, sem preâmbulo. — Pode sentar.

Veronica sentou. Cruzou as pernas. Esperou.

— Sou a professora Larissa. — Ela abriu uma pasta sobre a mesa sem pressa, os dedos longos folheando as páginas com uma eficiência que era quase elegante. — Estou respondendo pela coordenação este semestre. — Uma pausa enquanto encontrava a página certa. — Você sabe por que está aqui?

— Imagino que sim.

— Então vou poupar a introdução. — Larissa virou a pasta e deslizou sobre a mesa na direção de Veronica. — Esse é o seu histórico dos últimos dois bimestres.

Veronica olhou para os números.

Havia uma diferença entre saber que as coisas estavam ruins e ver as coisas ruins dispostas em colunas numa folha impressa com o seu nome no cabeçalho. O segundo era pior. O segundo não deixava espaço para a narrativa que ela havia construído para si mesma — que era temporário, que ia melhorar, que ela tinha tudo sob controle.

— Está crítico em três matérias — Larissa disse, sem crueldade e sem suavização. — E abaixo da média em outras duas. Para uma aluna bolsista, o regulamento é claro.

Bolsista. A palavra pousou de um jeito que Veronica não gostou.

— Conheço o regulamento.

— Então sabe que com esse desempenho, a renovação da bolsa para o próximo semestre está em risco real. — Larissa tirou os óculos por um momento — um gesto pequeno, quase pessoal — e a olhou diretamente. Sem os óculos, os olhos eram castanhos escuros, atentos, do tipo que não deixava escapar muito. — Não estou aqui para te assustar. Estou aqui porque ainda há tempo para resolver isso, mas a janela é curta.

Veronica ficou olhando para a pasta.

— O que a instituição propõe?

— Monitoria. — Larissa recolocou os óculos. — Acompanhamento regular com um aluno indicado pelo corpo docente. Sessões semanais, relatório quinzenal para esta coordenação. Se o desempenho melhorar até o final do bimestre, a situação da bolsa é reavaliada com critério positivo.

— E se eu recusar?

— Então seguimos o protocolo padrão. — A voz não endureceu. Apenas informou. — Que provavelmente resulta no que nenhuma de nós quer.

Veronica ficou quieta.

Havia uma pergunta óbvia que ela ainda não tinha feito, e a ausência dela estava ocupando o ar da sala de um jeito que começava a pesar.

— Quem é o monitor?

Larissa abriu a boca para responder quando bateram à porta.

Benjamin entrou com a expressão de quem foi chamado sem explicação e chegou preparado para qualquer coisa — exceto para o que encontrou.

Levou menos de dois segundos para ler a sala. A pasta aberta. Os números na folha. Veronica na cadeira com os ombros levemente rígidos sob a postura impecável — ela havia trocado de roupa desde o corredor da manhã, ou talvez fosse a luz diferente, mas a blusa branca com o primeiro botão aberto fazia algo pelo verde dos olhos dela que ele havia aprendido a não registrar conscientemente. Não registrou.

Então seus olhos foram para a coordenadora. Ficaram lá por um segundo a mais do que o necessário.

Não foi decisão. Aconteceu antes da decisão — a forma como Larissa estava inclinada levemente sobre a mesa, os cabelos caindo de um lado, os óculos descidos no nariz, uma caneta entre os dedos que ela girava sem perceber. Havia algo na composição inteira que segurava o olhar sem pedir licença.

Benjamin percebeu que estava percebendo e desviou. Veronica havia visto.

Ela não disse nada. Ficou com os olhos na pasta, a expressão fechada, mas havia algo na linha dos ombros que mudou por um segundo — uma tensão pequena, quase imperceptível, que se fechou antes de poder ser lida. Ela estava surpresa, era ele o monitor? Isso seria o destino? A escola? As linhas começavam a se cruzar.

— Benjamin. — Larissa indicou a cadeira ao lado de Veronica com um gesto natural, sem notar nada do que havia acontecido nos últimos cinco segundos. — Obrigada por vir. Sente-se, por favor.

Ele sentou. Ajustou os óculos. Ficou com as mãos abertas sobre os joelhos.

— Você foi indicado unanimemente pelo corpo docente — Larissa continuou, a voz profissional e direta — para acompanhar a Veronica como monitor nas matérias em que ela está com dificuldade. Sessões regulares, estrutura definida, acompanhamento quinzenal por esta coordenação.

Benjamin ficou quieto por um momento.

— Posso falar livremente?

— Por favor.

— Conheço a Veronica há quatro anos. — Ele não olhou para ela. — Não temos um histórico que sugira que isso vai funcionar bem para nenhum dos dois. Fico desconfortável sendo colocado nessa posição sem ter sido consultado antes.

Larissa inclinou levemente a cabeça, Veronica s emexeu de forma desconfortavel na cadeira mas não encarou o rapaz que estava bem ao seu lado e ele resolveu continuar não olhando para ela.

— Entendo. É uma colocação justa. — Ela abriu as mãos sobre a mesa, um gesto que era quase uma concessão. — Mas a indicação veio de seis professores diferentes, de forma independente. Seu nome foi o único que apareceu em todas as listas. — Uma pausa. — Isso não é acidente, Benjamin.

O modo como ela disse o nome — direta, sem condescendência, com uma atenção que era genuína — fez ele erguer os olhos por um segundo, ele era bom em alguma coisa, ele se sentia bem com isso, essa sensação de reconhecimento de seu esforço e dedicação, algo incomum para ele.

Larissa continuou antes que o silêncio pudesse significar alguma coisa.

— Não vou forçar ninguém. Veronica pode recusar a monitoria e lidar com as consequências no boletim. Você pode recusar e indico outra pessoa, que provavelmente vai ser menos eficiente. — Ela fechou a pasta com calma. — Mas gostaria que os dois pensassem nisso como o que é: uma solução que funciona, se as duas partes deixarem funcionar.

O silêncio que se seguiu tinha texturas diferentes dos dois lados.

Veronica olhou para a pasta fechada. Para o nome da bolsa no canto do documento que ainda estava visível. Ela não demostrou mas em seus pensamentos ela implorava para Benjamim o rapaz que ela humilhou e tratou mal aceitasse. Seu coração batia ligeiro e forte.

Em contra partida, Benjamim respirava fundo, sua decisão decidiria o futuro de sua rival, da menina que transformou sua vida academica em um inferno existencial, ele podaria dizer não e deixar ela se ferrar, essa era a chance.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP